Medalha Manoel Fiel Filho homenageia históricos militantes comunistas
O Coletivo Memória e Democracia realizou nesta terça-feira (20), na sede do PCdoB, em São Paulo, uma homenagem a cinco históricos militantes comunistas com a entrega da Medalha Manoel Fiel Filho. A honraria leva o nome do metalúrgico e militante político assassinado pela ditadura militar em 17 de janeiro de 1976 e reconhece pessoas e instituições que se destacaram na defesa dos direitos humanos, da democracia e da justiça social.
Foram homenageados Maria Pimentel, Jamil Murad, João Batista Lemos, Nivaldo Santana e Ubiraci Dantas de Oliveira. Os discursos ressaltaram a memória da resistência à ditadura, a organização dos trabalhadores e a continuidade da luta política entre diferentes gerações. O presidente do comitê municipal do PCdoB em São Paulo, Alcides Amazonas e o presidente da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Adilson Araújo, discursaram sobre o valor da medalha para a memória política da democracia.
A abertura coube a Valter Soares da Paixão, presidente do coletivo, que leu o texto oficial definindo o significado da medalha. “A medalha Manuel Fiel Filho é um tributo à luta incansável de um homem que deu a sua vida pela liberdade e pela justiça… É um símbolo de reconhecimento e gratidão a inúmeros heróis e heroínas que tombaram sem ver triunfar os primeiros raios do sol da justiça e democracia brasileira”, declarou o orador, lembrando que Manuel, metalúrgico e militante, foi assassinado pela ditadura militar em 17 de janeiro de 1976, tendo sua morte mascarada como suicídio até ser comprovada oficialmente décadas depois.
O jurista Vitor Meira apresentou os pilares da justiça de transição, argumentando que a memória dos que tombaram expõe a vergonha dos opressores. “As grandes famílias capitalistas brasileiras, em sua genealogia, eram todas grandes senhores de escravos. E esta memória da nossa realidade é a vergonha deles”, analisou. Meira criticou a falta de responsabilização efetiva no Brasil. Ele justificou a criação da medalha como um ato de reparação simbólica: “É por isso que a gente instituiu a medalha Manuel Fiel Filho. Porque um trabalhador que foi apagado da história, e de quem ninguém falava mais não será esquecido pelos seus irmãos.”
Fundador do Coletivo Memória e Democracia, Tarcísio Tadeu Garcia Pereira compartilhou uma anedota pessoal sobre um inteligente jovem estudante que desconhecia quem era Olavo Hansen, figura histórica homenageada com o nome em sua escola. “Se nós não contarmos pra juventude, nós vamos jogar a perder tudo aquilo pelo que lutamos”, alertou. Tarcísio fez um chamado urgente para a mobilização antifascista, independentemente do resultado eleitoral: “Independente do resultado, nós vamos ter que abraçar uma bandeira da luta antifascista no Brasil… Nós não podemos deixar o fogo baixar.”
João Batista Lemos: memória, juventude e organização da classe trabalhadora

Metalúrgico, líder sindical e dirigente do PCdoB, João Batista Lemos contou que participou do movimento estudantil secundarista em 1968, quando tinha 15 anos, e foi detido durante uma atividade de distribuição de panfletos após a morte de Edson Luís, no Rio de Janeiro.
“Eu fiz campanha pela UNE, em 68, quando eu tinha 15 anos. Quando morreu o Edson Luís no Rio, eu fui lá distribuir panfleto e aí me pegaram”, relatou. Por ser menor de idade, Batista foi levado ao Juizado de Menores. “Realmente eu fui batizado e integrei a militância dos trabalhadores pra valer”, afirmou.
Batista lembrou a luta dos trabalhadores perseguidos durante a ditadura e destacou a reparação obtida pelos operários da Volkswagen em São Bernardo do Campo. “Foi gente presa e torturada dentro da Volks”, afirmou.
Batista também destacou a transformação ocorrida na classe trabalhadora ao longo das décadas. Para ele, apesar das mudanças na composição e nas formas de organização do trabalho, permanece a exploração de classe.
“Nós estamos aprendendo hoje com a juventude. É uma juventude impressionante que tá nas ruas e está indicando também o futuro”, afirmou.
Para Batista, a mobilização política precisa combinar presença nas ruas, organização territorial e atuação nas redes sociais. Ele avaliou que a experiência recente mostrou a necessidade de compreender melhor a disputa digital.
Jamil Murad: memória como instrumento de continuidade da luta

Jamil recebeu a honraria com humildade, reconhecendo que sua trajetória é apenas um fragmento de uma luta maior. “A luta não começa conosco, nem acaba comigo… Somos pedacinhos da história da luta da classe trabalhadora contra os seus opressores”. Para ele, a transmissão dessa experiência entre gerações é uma das principais tarefas da militância.
“É necessário compreender que isso aqui é uma luta de gerações. Tem que unir essas pessoas e formá-las pra dar continuidade”, afirmou.
Ao recordar os assassinatos de Vladimir Herzog, Manoel Fiel Filho, Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, todos no fatídico ano de 1976, Murad ressaltou a importância de preservar a memória da ditadura diante das tentativas de negar os crimes do período.
Murad também recuperou episódios de sua própria militância, quando atuou junto a trabalhadores e comunidades populares durante a ditadura. Relatou ações em bairros periféricos, o contato com operários e a organização de trabalhadores em fábricas, destacando que a atuação comunista deveria estar ligada à vida concreta da população.
“O comunista tem que viver com o povo, juntar e conquistar o povo para compreender a teoria revolucionária”, disse.
Nivaldo Santana: 52 anos de militância

Sindicalista e ex-deputado estadual, Nivaldo Santana lembrou que iniciou sua militância política em 1974, ainda durante a ditadura, participando da campanha de Orestes Quércia ao Senado pelo MDB. Dois anos depois, acompanhou os efeitos da repressão sobre militantes e organizações populares. “São 52 anos de militância”, afirmou.
Santana mencionou sua participação em campanhas eleitorais e na mobilização pela anistia. Também destacou a música “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, como símbolo daquele período, por fazer referência a Clarice Herzog e Maria, filha de Fiel Filho.
“Enquanto eu for vivo, a bandeira do PCdoB, em defesa da democracia, da soberania nacional, do desenvolvimento, da valorização do trabalho e a nossa luta pelo socialismo vão ser a bússola que vai orientar a nossa luta”, afirmou.
Bira: combater o fascismo com emprego, salário e desenvolvimento

Vice-presidente da CTB, Ubiraci Dantas de Oliveira, o Bira, ressaltou a importância da iniciativa de resgatar trajetórias de dirigentes e trabalhadores.
Ele lembrou sua amizade com Manoel Fiel Filho, com quem conviveu no movimento sindical, e dedicou a homenagem a Cláudio Campos, dirigente do MR-8, e Sérgio Rubens, que posteriormente dirigiu o Partido Pátria Livre. “Essas pessoas, eu trato como se fossem meus pais”, afirmou Bira, ao destacar a influência política e ideológica que recebeu dos dois dirigentes.
O sindicalista relacionou a defesa da democracia à melhoria das condições de vida da população. “Andar de bicicleta levando comida nas costas e não podendo comer… isso não é emprego, isso é escravidão.” Para ele, pobreza, fome e desemprego criam condições para o avanço da extrema direita. “A miséria é terreno fértil para o fascismo. A miséria, a fome e o desemprego. É aí onde ele cresce”, afirmou.
Bira também criticou a precarização do trabalho e defendeu uma política nacional de desenvolvimento baseada em investimentos, fortalecimento da indústria e valorização dos salários. Afirmou que o próximo governo Lula deveria aprofundar uma agenda voltada aos trabalhadores.
Maria Pimentel: preservar a memória para as novas gerações

Lúcia Maria Pimentel destacou a importância de iniciativas que mantenham viva a memória dos militantes perseguidos e assassinados pela ditadura. Ela associou a homenagem a Manoel Fiel Filho à trajetória de outras vítimas da repressão, como o estudante Edson Luís, morto em 1968.
Ela contou que chegou ao Brasil em 1975 e que, por ainda não haver anistia, manteve atividades políticas de forma clandestina. Ela lembrou também sua militância junto aos trabalhadores gráficos e a relação construída naquele período com dirigentes sindicais.
Assim como os demais homenageados, Pimentel ampliou a homenagem a outros militantes da resistência. Recordou Stuart Angel, integrante do MR-8 assassinado pela ditadura, e afirmou que a memória desses combatentes deve permanecer vinculada à luta democrática contemporânea.
Memória e futuro
A Medalha Manoel Fiel Filho foi apresentada como reconhecimento a pessoas e instituições que atuaram e atuam na defesa dos direitos humanos, da democracia e da justiça social. O tributo também busca preservar a memória das vítimas da ditadura e transmitir às novas gerações as experiências de resistência daquele período.
A cerimônia terminou, assim, com a memória de Manoel Fiel Filho como referência para uma trajetória que, para os homenageados, não se encerra na lembrança dos que resistiram à ditadura. A medalha foi apresentada como símbolo de continuidade: reconhecer quem lutou, preservar essa história e transmitir às novas gerações a responsabilidade de manter viva a defesa da democracia e dos direitos dos trabalhadores.





