Bodas de ouro entre a Festa e o povo português
Durante quase meio século, Portugal viveu sob uma ditadura. Foram 48 anos entre o golpe militar de 28 de maio de 1926 e a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974. Tempo suficiente para gerações inteiras nascerem e chegarem à vida adulta sem conhecer a liberdade. O regime consolidou-se como Estado Novo sob António de Oliveira Salazar e, nos seus últimos anos, foi dirigido por Marcelo Caetano.
A repressão política convivia com profundas carências sociais. Em 1970, cerca de um quarto da população não sabia ler nem escrever, metade das casas não tinha água canalizada e mais de um terço não tinha eletricidade. Portugal era um país pobre e desigual, onde a falta de alimentos ainda fazia parte da vida de muitas famílias. Muitos portugueses emigraram em busca de trabalho e melhores condições de vida.
Os comunistas estiveram desde cedo entre os principais alvos da repressão. Militantes e dirigentes do Partido Comunista Português passaram pelo Aljube, Caxias e pela Fortaleza de Peniche. Em 1936, o regime abriu em Cabo Verde o Campo de Concentração do Tarrafal, conhecido como Campo da Morte Lenta, para onde foram enviados presos políticos de diferentes correntes, entre eles muitos comunistas. Bento Gonçalves, então secretário geral do PCP, morreu ali em 1942.
A partir de 1961, a ditadura enfrentou as lutas de libertação em Angola, Guiné Bissau e Moçambique com uma guerra colonial que durou treze anos. Mais de 1,3 milhão de efetivos foram mobilizados nas três frentes ao longo do conflito, número que inclui contingentes recrutados localmente. A guerra marcou profundamente uma geração portuguesa, consumiu vidas e recursos e aprofundou a crise do regime. O PCP assumiu uma posição anticolonial e, no programa aprovado em 1965, defendeu o direito dos povos das colônias à independência imediata.
Foi nesse Portugal que o Avante! aprendeu a existir escondido. Criado pelo PCP em 1931, o jornal teve publicação irregular na primeira década, mas, a partir de agosto de 1941, passou a ser publicado regularmente na clandestinidade até o 25 de Abril de 1974. Fazer suas páginas chegar aos trabalhadores e ao povo português era também uma forma de resistência.
Na madrugada de 25 de Abril de 1974, Portugal mudou de tempo. O movimento iniciado pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) derrubou o regime e encontrou nas ruas uma população que transformou a ação militar numa revolução popular. Os cravos colocados nos canos das armas tornaram-se símbolo de um país que conquistava a liberdade e abria caminho para novos direitos e profundas transformações sociais.
Menos de um mês depois, em 17 de maio, saiu o primeiro Avante! legal. O jornal que durante décadas precisara circular escondido podia finalmente ser vendido às claras. Dois anos depois, o nome daquele jornal apareceria na entrada de uma enorme celebração pública.
Em setembro de 1976 nascia a Festa do Avante!. Depois de quase meio século de censura, perseguição e medo, uma alegria e uma liberdade represadas durante décadas pareciam explodir com a Festa. Era possível reunir-se, falar de política, ouvir música, cantar, dançar, encontrar artistas e delegações de outros países, comer, beber e celebrar juntos.
Ruben de Carvalho, um dos nomes fundamentais na construção da Festa, escreveu depois daquela primeira edição que se tratava de “um sonho antigo”, acalentado durante a clandestinidade e que florescera com Abril. Centenas de milhares passaram pela antiga Feira Internacional de Lisboa (FIL), muitas delas sem vínculo com o PCP.
Álvaro Cunhal estava entre aqueles que viveram a primeira Festa. Secretário geral do PCP e uma das principais figuras da resistência ao Estado Novo, havia passado anos nas prisões da ditadura, na clandestinidade e no exílio. Sua presença acompanharia diferentes momentos da história da Festa e ajudaria a ligá-la às lutas, à cultura e ao projeto de transformação social dos comunistas portugueses.
No ano seguinte, sem poder regressar à FIL, a Festa seguiu para o Jamor. Era preciso construir praticamente tudo. Sete palcos foram levantados pelo trabalho militante e o vasto terreno transformou-se numa verdadeira cidade. Consolidava-se uma característica que atravessaria sua história. Parte do público não chegava apenas para encontrar uma festa preparada por outros. Ajudava a fazê-la.
Depois vieram os anos no Casalinho da Ajuda e, mais tarde, Loures. Em 1987, pela única vez desde sua criação, não houve Festa. Em 1989 foi anunciada a aquisição da Quinta da Atalaia, na Amora, no concelho do Seixal. A compra foi sustentada por uma campanha nacional de fundos onde cada contribuinte recebia um saquinho com terra e, em 1990, a Festa aconteceu ali pela primeira vez.
Ter uma casa permitiu pensar para além de cada setembro. Surgiram caminhos, árvores, estruturas permanentes e uma geografia que passou a fazer parte da memória de quem regressava todos os anos. Décadas depois, a aquisição da vizinha Quinta do Cabo ampliaria novamente o espaço.
Enquanto o terreno mudava, seus frequentadores também mudavam. Quem chegou jovem às primeiras edições envelheceu. Crianças cresceram e voltaram adultas. Pais passaram a levar filhos e depois netos. Novas gerações ocuparam cozinhas, palcos, espaços políticos, jornadas de construção e a Cidade da Juventude. A Festa foi sendo transmitida não apenas pela memória, mas pela experiência de fazê-la.




Também mudou com o tempo. Chico Buarque cantou ali em 1980. A Carvalhesa tornou-se um dos sons mais reconhecidos do encontro. A internet chegou à Festa em 1995. O cinema conquistou seu espaço, a ciência ampliou sua presença e a orquestra passou a dividir a programação com rock, fado, rap, música africana e eletrônica.
Há também um Portugal que se encontra dentro da Atalaia. As regiões chegam com suas comidas, vinhos, sotaques, músicas, artesanato e histórias. Política, música, teatro, cinema, literatura, artes plásticas, ciência, esporte e gastronomia convivem durante três dias.
E desde as primeiras edições esse caráter profundamente português convive com o internacionalismo. Delegações de partidos comunistas e outras organizações progressistas de diferentes continentes participam da Festa, apresentam suas lutas e constroem relações de solidariedade. Ao longo de cinquenta edições, causas que marcaram diferentes momentos da história mundial encontraram ali espaço, das lutas anticoloniais e contra o apartheid à solidariedade com Cuba e com a Palestina.
No Espaço Internacional, essa solidariedade ganha rostos, vozes e bandeiras. Debates, exposições, música e gastronomia colocam lado a lado organizações e culturas de diferentes países. As delegações estrangeiras fazem da Atalaia um lugar de encontro político entre povos, onde a defesa da paz, da soberania e do direito de cada povo decidir seu próprio caminho atravessa fronteiras.
Na 50ª edição, representantes estrangeiros voltam a Portugal dando continuidade a uma tradição presente desde o nascimento da Festa. Para quem vem de fora, a Atalaia permite conhecer de perto o PCP, seus militantes e sua capacidade de organização. Para quem chega das diferentes regiões portuguesas, o Espaço Internacional abre dentro da Festa uma janela para lutas e culturas de várias partes do mundo.
É nessa relação entre a Festa e a sociedade portuguesa que Alexandre Araújo, dirigente do PCP e um dos responsáveis por sua organização, encontra uma das explicações para sua permanência. Em sua avaliação, os valores de Abril continuam presentes quando a discussão chega à vida concreta, aos direitos, aos salários e ao ensino, inclusive entre pessoas que fazem outras escolhas eleitorais.
Ao falar da capacidade organizativa do PCP, Araújo afirma que “este partido está muito enraizado nas bases, tem uma grande capacidade de organização”.
A Festa nunca deixou de ser uma realização assumidamente comunista, organizada pelo PCP. Ao mesmo tempo, sua capacidade de atração alcançou parcelas da sociedade muito além das fronteiras eleitorais do partido. Gente que não é comunista atravessou seus portões, assistiu aos concertos, participou de debates, trabalhou em sua construção ou simplesmente incorporou aquele encontro ao calendário da própria vida.
Manuel Rodrigues, dirigente do PCP, sintetiza essa dimensão ao escrever sobre o cinquentenário. “Festa da alegria, da confraternização e dos afetos humanos, a Festa do Avante! é mais do que a festa dos comunistas, é uma festa aberta a todos e que a todos acolhe bem.”
Para Rodrigues, é também uma Festa feita pelo “trabalho dos trabalhadores, do povo, da juventude, que cada ano se renova e supera, num esforço coletivo que dá mais força à luta por um mundo melhor”. Uma construção que permanece ligada às suas origens e, ao mesmo tempo, olha adiante, sendo “a Festa dos valores de Abril que projecta na actualidade e no futuro”.
Nesta sexta-feira, 4 de setembro, os portões da Quinta da Atalaia voltaram a se abrir. Algumas das pessoas que entram ali viveram a ditadura e o 25 de Abril. Outras nasceram décadas depois. Há quem se lembre das primeiras edições, quem tenha conhecido na Festa amigos e amores, quem guarde a memória de um concerto, de uma comida ou de uma noite trabalhando numa cozinha. Há jovens atravessando seus portões pela primeira vez e delegações que viajaram milhares de quilômetros para estar ali.
As bodas de ouro entre a Festa e o povo português são feitas dessas histórias. Mudaram o país, as gerações, os rostos, as músicas e as formas de participar. Permanece uma Festa nascida da liberdade conquistada em Abril, construída por sucessivas gerações e aberta à solidariedade com outros povos.
Durante a ditadura, o Avante! sobreviveu passando clandestinamente de mão em mão. Em liberdade, sua Festa chegou aos cinquenta anos seguindo um caminho parecido, passando de mão em mão, de geração em geração. Talvez esteja também aí a explicação para uma frase que atravessou sua história e continua sendo repetida na Atalaia.
“Não há Festa como esta!”




