Parte 3: tática eleitoral do PCdoB

Por Edilson José Graciolli*

Temos cometido erros na tática eleitoral. Desde antes de 2018 sabíamos que estava próximo o fim das coligações para cargos proporcionais e sem que estas fossem substituídas pelas federações de partidos. Nutrir expectativas quanto à aprovação da federação de partidos não me parece razoável.

Equivocadamente não tivemos como tática, em 2018, chapas próprias à Câmara Federal. A política de concentração de recursos também não auxiliou na manutenção de nossa bancada (que diminuiu). Os recuos nas pré-candidaturas de Manuela d’Ávila à Presidência da República e Jô Moraes ao Senado reforçaram junto a parcela do eleitorado a avaliação de que não temos autonomia eleitoral em face do PT. Se na vida política a cena conta tanto quanto os bastidores, estamos em débito com a necessária apresentação de nosso Programa nos processos eleitorais.
Em consonância com a Nota do Comitê Central de 14 e 15 de maio de 2021 , defender a vida, derrotar Bolsonaro e garantir presença do PCdoB no parlamento são objetivos a perseguir com sagacidade e amplitude.

Derrotar Bolsonaro, derrotar o bolsonarismo e iniciar um processo de implementação de um novo projeto nacional de desenvolvimento (NPND) são dimensões articuladas, porém em ordem crescente de complexidade e dificuldade.

A entrada na disputa eleitoral do ex-presidente Lula é vista por alguns militantes do Partido como “a” alternativa de candidatura para o PCdoB. Penso muito diferente, pelas seguintes razões:

1. Ao longo de mais de três governos petistas não se viu sequer um esboço do que nos é particularmente caro, o NPDN.
2. As políticas públicas levadas a cabo por Lula e Dilma foram de natureza compensatória, sem alterar a concentração de riqueza e sem fazer frente às frações dominantes no bloco no poder.
3. O incensado legado de Lula e Dilma, essas políticas, careceu de regulação estatal (de que é exemplo cabal o “Minha Casa, Minha Vida”, que não incluiu o combate à especulação imobiliária) e tem se mostrado um castelo de cartas, desmoronando em muito pouco tempo. Faltaram planejamento, projeto e arcabouço institucional para se evitar o que assistimos há tempos.
4. Lula interditou o balanço sobre os governos petistas, impedindo, assim, uma salutar e necessária interlocução com aliados.
5. O PT poderia ter sido protagonista, tanto em 2007, quanto em 2010 (os momentos de maior apoio popular aos seus governos), de uma proposta de reforma política que tornasse nossa democracia mais robusta, ou menos vulnerável a aventuras como as que culminaram com a eleição de Bolsonaro. Não o fez. Antes, promoveu o republicanismo ingênuo, que culminou com o lavajatismo.
6. Igualmente, o PT não deu nenhuma satisfação ao que, pelo que parece, existiu, sim, de corrupção em seus governos, por exemplo em relação a propinas captadas por Antonio Pallocci.
7. Os dados eleitorais de 2002 a 2018 não autorizam que se diga que o apoio ao PT esteja nos propiciando crescimento eleitoral.
8. Lula (na aparência…) e o PT defenderam, até recentemente, frente de esquerda e se colocaram contra uma frente ampla, combatendo forças políticas que se alinhassem com este segundo cenário da frente anti-Bolsonaro. A frente que interessa a Lula e ao PT é toda e qualquer articulação que se curve ao exclusivismo eleitoral petista na cabeça de chapa.
9. A aposta na polarização Lula X Bolsonaro só interessa a esses dois polos. Cada um vê na disputa com o outro a grande chance de vitória. Se um polo cair, o outro também cairá, ou pelo menos diminuirá. É nesta aposta que embarcaremos? As rejeições a ambas as candidaturas são muito grandes e parecidas. O antipetismo ainda é muito forte e pode ser mobilizado e ampliado em uma eleição em que, às vésperas, conte, por exemplo, com um auxílio emergencial até agora inexistente.
10. Por que deveríamos, desde o primeiro turno, optar por Lula? Sabe-se pela Ciência Política que o voto sincero (de afinidade ideológica ou programática) é o que preside o primeiro turno, ficando o voto estratégico (em que a escolha é feita pelo critério do que não se quer eleito, do que se rejeita) como argumento forte no segundo turno.
Isto posto, o que fazer? Nosso Programa me parece ser o parâmetro mais adequado a definirmos como nos colocaremos no tabuleiro quanto à disputa presidencial¹.

Tal parâmetro aponta para dois caminhos
• ou candidatura própria;
• ou coligação com a candidatura do PDT, Ciro Gomes, liderança de envergadura nacional que mais se aproxima do NPND.

Na primeira hipótese, a maior dificuldade é o nome que levaria adiante essa candidatura. Após a saída de Flávio Dino, o nome de envergadura nacional que temos para a disputa presidencial é Manuela d’Ávila. Estará a camarada disposta a tanto? Se não, será candidata à Câmara Federal? Na eventualidade de Manuela não disputar a Presidência em 2022, que outro(a) camarada poderia enfrentar tal desafio?

A segunda hipótese nos colocaria na perspectiva de uma frente ampla, que poderia tirar o povo brasileiro da difícil situação em que se encontra e isso num patamar programático e de força material apto a levar adiante não apenas os objetivos de derrotar Bolsonaro e o bolsonarismo, mas de alavancar o país na perspectiva de uma nação soberana, desenvolvida, democrática e na qual direitos sociais estejam lastreados numa economia pujante, diversificada e referenciada no que tem apontado nosso camarada Elias Jabbour quanto ao que tem feito a China, “projetamento”.

O tempo urge. Adiar a definição para a disputa presencial interessa, apenas, a quem, dentro ou fora do Partido, já possui a definição de automatismo com Lula.

 

*Professor de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal de Uberlândia; Presidente do Comitê Municipal Uberlândia; membro do Comitê Estadual MG.

 

¹ Conheço bem o alerta que Panebianco (PANEBIANCO, Ângelo, Modelos de Partido,  Martins Fontes Editora, São Paulo, 2005) nos faz acerca de não termos dois “preconceitos” na análise do comportamento dos partidos, o social (que se refere à origem de classe, ou fração de classe, de um partido) e o ideológico (que se refere ao seu programa ou ideologia), dado que, muitas vezes, os partidos agem ou fazem escolhas por outras razões. Mas ainda espero que o PCdoB se paute pelo seu programa.