Fazer o debate político-ideológico no Partido

Ao Partido cabe zelar pelo nível político-ideológico dos seus quadros, evitando que concepções errôneas da sociedade burguesa contaminem a atividade partidária nas várias frentes de luta. O PCdoB, reorganizado em 1962, é fruto do desenvolvimento de intensa luta ideológica no seio do partido e das esquerdas. Por esta ocasião foi rica e profunda a luta político-ideológica a nível mundial e o Partido deu relevantes contribuições, incluindo seu próprio processo de reorganização partidária.

Por Ricardo Santos*

O debate político-ideológico tem como objetivo firmar uma concepção marxista-leninista brasileira que se reflita no processo de transformação social e na construção do socialismo no país. A luta político-ideológica é arma imprescindível dos marxista-leninistas para unificar e, principalmente, fortalecer e preparar a militância para novas fases de luta, como a que está a se descortinar no contexto atual. Assim, o partido pode ser e é “contaminado em diversos níveis por concepções burguesas ou pequeno-burguesas, erradas e antagônicas aos seus propósitos e aos do marxismo-leninismo. Uma concepção errônea frequente e danosa é o individualismo, que coloca a centralidade da atividade partidária no indivíduo e não no coletivo partidário. O individualismo, busca sobrepor o trabalho individual ao trabalho coletivo, destaca a ascensão interna ou externa do militante como objetivo central, não prioriza o crescimento e desenvolvimento adequado do trabalho partidário coletivo. Esta postura, inconsciente em grande parte, serve-se do partido para ascender, coloca-se como centro a busca de postos  e cargos como prioridade, em detrimento do crescimento do partido e da qualidade da ação partidária. É preciso desenvolver o debate político-ideológico no seio do partido e, com amplitude, serenidade esclarecimento, orientação e camaradagem militante. O individualismo é também a base fundamental para o desenvolvimento do liberalismo no seio do partido, provocando a lassidão, o afrouxamento nas suas atividades, no cumprimento das tarefas partidárias.

Cada militante deve encarar as concepções errôneas no sentido de sua conscientização e de sua superação. O partido dá o ambiente de apoio e estímulo camarada para esta evolução na formação do novo homem comunista. A questão é evoluir,  mudar, adquirir valores melhores e mais condizentes com a ideologia e opções políticas que fizemos. Muito se fala sobre o combate à direita e aos trotskistas. Lembro dois personagens da nossa história: Roland Corbisier, escritor, filósofo marxista falecido, autor de “Autobiografia Filosófica”; e D. Hélder Câmara, Arcebispo emérito de Olinda e Recife. Ambos foram integralistas na juventude e evoluíram no sentido oposto, adotando posições  progressistas. Como existem ex-trotskistas que hoje militam no partido. Também o contrário é verdadeiro, e ex-comunistas movimentaram-se no sentido de  tornarem-se anticomunistas ferrenhos, inimigos da classe operária, do partido e do povo. O exemplo mais emblemático no Brasil refere-se à Carlos Lacerda, ex-comunista que virou anticomunista e golpista. O partido tem larga experiência no debate político-ideológico e deve travar a luta interna de ideias, combatendo as insuficiências na questão do Centralismo Democrático e, portanto, da disciplina militante. Combater o individualismo, o personalismo, as fogueiras de vaidades, a busca de “status”, de cargos dentro e fora do Partido, como elemento fundamental de atuação. Ou seja, é preciso melhorar o nível político-ideológico, sempre resguardando o nível individual de opinião e o direito de discordância dentro das regras comunistas. Desenvolver ainda mais a qualidade militante, o que tem sido feito, a nível teórico, pela escola do Partido e com maestria e excelentes resultados. Educação para a luta. No entanto, teoria significa a bússola militante para navegar no mar da política social, da revolução transformadora. Para usar a bússola é necessário navegar nesta política real e combater com amplitude e firmeza, os oportunismos de esquerda e de direita dentro do Partido.

O debate político-ideológico interno deve ser feito na prática da convivência partidária, nas discussões políticas das OBs e outros níveis. Naturalmente se a OB não reúne, ou reúne esporadicamente e sem objetividade, método de trabalho, método de reunião, os esforços de tentar travar o debate interno será em grande parte em vão. Para aprimorar a prática e o partido crescer é necessário desenvolver a vida orgânica das OBs. Travar o debate político, tirar tarefas concretas da OB e de cada militante para levarmos adiante as lutas do partido daquela OB.

As Teses do 14º Congresso do Partido citam (167) desafios político-ideológicos do partido no documento “Política de quadros comunistas para a comunidade”, aprovado no 12º Congresso do Partido em 2009.  Ou seja, o partido tem consciência do problema há mais de 8  anos. Fizeram o diagnóstico, mas nenhum tratamento foi dado. Ficamos na teoria, sem ação, sem prática concreta neste debate, a não ser a prática teórica da Escola do Partido. Temos a bússola há muito tempo, mas nada nos serviu neste período, pois não entramos “neste mar” para navegar sob orientação dela e aprimorar o nível político-ideológico do Partido concretamente.

Entre os problemas apontados nas Teses para o 14º Congresso o documento elenca: o liberalismo; e o corporativismo; o pragmatismo. E conclui: “Tais pressões, se não enfrentadas consciente e corretamente, são “entraves tendentes a rebaixar o sentido estratégico da luta do Partido e do próprio instrumento partido”. Ou seja, se não enfrentarmos estas tendências errôneas no seio do partido, este deixa de cumprir a contento seu papel em parte ou totalmente, correndo o risco de degenerar enquanto  ferramenta.

O PCdoB tem ampla experiência em lidar com este tipo de problema.  A consciência do problema existe e precisa das condições concretas para ser colocada em prática, A solução implica em manter vivas as OBs, as discussões políticas nas OBs, a adoção de métodos adequados de reunião e de trabalho, afastando o liberalismo, a ausência de disciplina e, principalmente, a falta de funcionamento das OBs. Incentivado o debate político-ideológico formará militantes mais qualificados e dedicados à causa da classe operária.

*OB-UERJ