O planejamento na contramão do irracionalismo pós-moderno

A importância atribuída ao planejamento para a ação política pelo PCdoB não é recente. A criação, em 2015, da Secretaria Nacional de Planejamento significou um importante avanço a partir do qual o planejamento entra definitivamente como instrumento imprescindível para o processo de estruturação partidária. No entanto, ainda são inúmeras as dificuldades para a efetivação de uma cultura de planejamento. As causas para tais dificuldades são várias e muitas delas estão inscritas nos gigantescos desafios a serem enfrentados em um cenário político tão desfavorável. Há, contudo, um outro eixo de causalidades que contribui para lançar no descrédito e na desconfiança qualquer esforço de planejamento. Trata-se da disseminação, em todos os setores da vida social, de pressupostos irracionalistas, tão caros a chamada cultura pós-moderna.

Por Maria Valéria Duarte de Souza*

O Irracionalismo, pressuposto fundante de correntes filosóficas que brotaram na Europa a partir da segunda metade do século XIX, tinha por característica central a negação da razão enquanto capacidade humana para conhecer e transformar o mundo, construindo assim a história. Tratava-se de uma crítica à modernidade e à racionalidade iluminista. Porém, somente no final do século XX estará ligado à chamada pós-modernidade. O termo “pós-modernidade” ou “pós-moderno” incorpora múltiplas características. Aqui destacamos três dessas características que julgamos estar entre as causas que dificultam iniciativas de planejamento Essas três características são: a visão fragmentária de mundo, o individualismo e o imediatismo.

O Mundo fragmentado

O pensamento pós-moderno não considera o real como síntese de múltiplas determinações, mas como um emaranhado de fatos, desarticulados e sem sentido impossível de ser conhecido em si mesmo. Segundo o ideário pós-moderno somente se pode conhecer as “significações” ou “representações” que são atribuídas à realidade pelos diferentes sujeitos. Assim, a realidade é fragmentada em quantos forem os sujeitos capazes de lhe atribuir um significado. Este significado, por sua vez, será elaborado pelo sujeito a partir de suas próprias experiências. Não existe aqui o sujeito histórico, mas o indivíduo circunscrito à sua própria experiência existencial a partir da qual irá pautar o seu conhecimento e sua ação no mundo; uma experiência mediatizada não pela razão, mas pelos seus sentidos, pelos afetos e intuições. Há, Aqui, uma total impossibilidade de ultrapassagem da aparência imediata dos fenômenos, uma vez que tal ultrapassagem está condicionada a razão, que para um pós-moderno é instrumento de falseamento da realidade e não de seu desvendamento. Quais as consequências dessa visão fragmentada de mundo para o planejamento? Enquanto cálculo que precede a realização de uma ação, planejar é uma atitude eminentemente racional. Isto porque planejar demanda necessariamente   conhecimento sobre a realidade na qual a ação será desenvolvida e que será transformada a partir desta ação. Assim, quando se parte do pressuposto de que não é possível conhecer a realidade, mas apenas as “significações” que os diferentes sujeitos lhe atribuem, equivale dizer que cada um desses sujeitos definirá um tipo diferente de ação. Ou seja, o planejamento torna-se inviável enquanto esforço coletivo.

Além disso, a negação da realidade como processo histórico, desconsidera os vínculos de causalidade entre os fatos e acontecimentos e, assim, o planejamento perde sua razão de ser. Quando muito, “planejar” resume-se a elaboração de um rol de intenções elencadas a partir de percepções subjetivas sobre “pontos fortes” e “pontos fracos”, não raro definidos a partir do uso de “técnicas” como a conhecidíssima  “tempestade de ideias” (brainstorm), uma verdadeira consagração, no âmbito do planejamento, da visão fragmentada de realidade.

Individualismo e Imediatismo

A fragmentação da realidade e o enaltecimento dos “sujeitos”, atomizados e fora da história, resvala para o individualismo.  No cerne do individualismo está a ideia de que o indivíduo basta-se a si mesmo, abrindo espaço para tendências meritocráticas e personalistas.  O personalismo, que pode ser também chamado de “síndrome do eu-resolvo-tudo-sozinho(a)”, é uma tendência contrária a qualquer ideia de planejamento, uma vez que planejar significa compartilhar responsabilidades na tomada de decisões e estabelecer compromissos coletivos com objetivos a serem alcançados. Quanto maior a tendência individualista/personalista, maiores serão as dificuldades para planejar.

Além do individualismo, a fragmentação da realidade leva também à perda de perspectiva de futuro, levando ao imediatismo. A mentalidade pós-moderna, como afirma Anderson (1999, p.20) “é sempre, em princípio, o que se deve chamar de eterno presente absoluto”. Esse Carpe Diem perpétuo, estabelece a primazia do “aqui” e do “agora” fazendo com que qualquer iniciativa de planificação seja considerada desnecessária; uma perda de tempo, voltada que está para um futuro, que, na visão fragmentária pós-moderna, não tem qualquer relação com o presente, este sim, portador de todas as urgências e, portanto, merecedor de todas as atenções.

Como se vê, é também no campo da luta ideológica que as dificuldades encontradas para que se efetive uma cultura de planejamento podem ser enfrentadas.  As influencias irracionalistas perpassam todo o conjunto da sociedade, de modo que é preciso que mantenhamos sempre alerta a nossa capacidade crítica sobre concepções e práticas aparentemente restritas ao mundo do debate teórico/acadêmico mas que exercem, muitas vezes sem que se perceba, um impacto extremamente negativo sobre nossa militância. Aliás, o acriticismo é outra característica do irracionalismo. A crítica é a racionalidade levada às ultimas consequências. Sem exercício crítico-analítico é impossível planejar de forma consequente, o que significa dizer: planejar para realizar. Sem capacidade crítica diante da realidade é impossível desvendá-la; sem esse desvendamento, o planejamento não passa de uma abstração e não um instrumento efetivo de transformação.

Referências

ANDERSON, Perry. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

*Militante do PCdoB no Distrito Federal e membro da Comissão Nacional de Planejamento.