Walter Sorrentino: As Guerras do Ópio na China e os Tratados Desiguais

Navios de guerra britânicos destruindo juncos chineses em Anson Bay durante a Guerra do Ópio

(Reprodução/Google Images)

Na última quinta-feira (20) fui convidado a saudar o livro de Durval de Noronha Goyos Jr. – “As Guerras do Ópio na China e os Tratados Desiguais”- ao lado do professor da UNESP Marcos Cordeiro, o ex-ministro Aldo Rebelo, a professora da PUC Regina Gadelha e o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães.

Por Walter Sorrentino*, em seu blog

O Autor analisa no livro, com profundidade e brilho, a ação imperialista inglesa e o declínio do império chinês no período conhecido como o “século da humilhação”, de 1840 e 1940. Pronunciei algumas palavras, que seguem abaixo, em saudação ao amigo Durval e ao livro.

Aquela foi a época em que as autoridades chinesas, com pouco poderio militar, sem força para enfrentar as potências hegemônicas e presenciando sua população cair na miséria – sendo que uma parcela sucumbiu ao vício incentivado pelos ingleses –, viram-se forçadas a fazer dramáticas concessões políticas e territoriais, como ceder Hong Kong para o Reino Unido, diversos portos e entrepostos para aliados dos ingleses e áreas da Manchúria para o Japão, além de se submeter a uma série de acordos comerciais draconianos que favoreciam países ocidentais. As próprias alfândegas chinesas foram entregues aos ingleses.

Durval de Noronha Goyos Jr. publicou mais de 60 livros que transitam pelo universo do direito internacional, lexicografia, linguística, história e economia. Foi presidente da União Brasileira de Escritores (UBE). Único advogado brasileiro nomeado árbitro do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt) e, depois, da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Minha intervenção:

Amigas e Amigos que nos assistem, posso dizer, orgulhoso, que acompanhei nos últimos tempos a feitura desse livro e sempre fico impressionado pela capacidade e compromisso de Durval Noronha. Tenho grande admiração por ele e penso que ele nos oferece, com a obra, uma ferramenta poderosa.

Ela nos fala da desmoralização de um império milenar, com as guerras de rapina ocorridas de 1839 a 1842 e de 1856 a 1860. Uma desmoralização histórica que custou muito ao povo chinês superar, a partir de sua Revolução Democrática Popular em 1949.

Mas foi superada! Então este livro nos remete de imediato à reflexão sobre a China atual e se presta a nos indagar também sobre as lutas necessárias no mundo e no Brasil hoje, crescentemente desmoralizado por uma orientação antinacional, antipopular e antidemocrática.

Sobre a China me remeto, a poucos, mas impressionantes, dados da atualidade da grande nação. Escolhi um estudo do próprio aparato das classes hegemônicas norte-americanas, portanto insuspeito. Foi produzido pelo Projeto Evitando Grande Guerra de Poder, do Centro Belfer para Ciência e Assuntos Internacionais, da Harvard Kennedy School.

Seu título é A Grande Rivalidade: A Grande Tecnologia – China vs os EUA, onde os autores fazem um balanço do estado da corrida tecnológica em cada tecnologia importante nos últimos 20 anos. Registram que, como disse o presidente Xi Jinping: “A inovação tecnológica se tornou o principal campo de batalha do campo de jogo global e a competição pelo domínio da tecnologia se tornará feroz sem precedentes”.

Então vejamos rapidamente qual o estado da arte em CTI e tecnologias disruptivas nessa competição.

  • Na tecnologia avançada que provavelmente terá o maior impacto sobre a economia e a segurança na próxima década, Inteligência Artificial – AI – a China agora é um “competidor de pares de espectro total”. “A China está a caminho de repetir em 5G o que aconteceu com os Estados Unidos em 4G”. Conforme destacado pelo presidente Xi Jinping no ano passado, a infraestrutura 5G é uma prioridade no Plano de Nova Infraestrutura de US $ 1,4 trilhão para atualizar a economia chinesa pós-COVID.
  • “a China fechou a lacuna tecnológica com os Estados Unidos na ciência da informação quântica: em dezembro de 2020, apenas um ano depois que o computador quântico supercondutor Sycamore de 53 qubit do Google tinha a supremacia quântica, a China ultrapassou o marco com um computador quântico fotônico “10 bilhões de vezes mais rápido” do que o Google para certos cálculos em física.
  • A China reduziu sua lacuna na produção e arquitetura de semicondutores para apenas uma ou duas gerações atrás do dos EUA. Na próxima década, se tornará o maior produtor mundial de semicondutores em nós de tecnologia maduros, com a meta de se tornar de  primeira  linha  na  até  2030.
  • a China está  competindo  ferozmente em  todo  o  espectro  de  P&D  de  biotecnologia  e,  em  alguns  casos,  até  vencendo. Hoje ocupa o  topo  da  pesquisa  básica  na área, produz  a  maioria  das  patentes  de  biotecnologia  anualmente, aumentando  sua  participação  global  de  1%  em  2000  para  28%  em  2019,  enquanto  a  participação  dos Estados  Unidos  caiu  de  45%  para  27%. A biotecnologia  é  uma  das  principais  arenas  para  o  desenvolvimento  nacional  sob  o  título “Made  in  China  2025”.
  • Na energia verde, hoje a China é o principal fabricante, usuário e exportador de tecnologias, com monopólio sobre a cadeia de fornecimento de energia verde do futuro. A expansão da  energia  verde  na  matriz  energética  global  promete  ser  tão  disruptiva  nos 21st  século  como  o  petróleo  estava  no  século  20º  século.
  • Tudo isso resulta do ecossistema de P&D nesses vetores da competição tecnológica. “Os Estados Unidos não são mais o hegemon global da ciência e tecnologia (C&T).” Hoje, a China  forma  quatro  vezes  mais  alunos  de  graduação  em  ciência  e engenharia do  que  os  Estados  Unidos  e  três  vezes  mais  cientistas  da computação e ultrapassará  os  Estados  Unidos  nesta  década nos investimentos em P&D.

Bem, o que esse livro mostra, o que ele nos indaga?

Mostra os frutos venenosos do imperialismo, contemporaneamente o neocolonialismo.

Evidencia que a nefasta política imperialista que condena nações e povos a uma condição periférica ou semi-periférica foi superada na China. Demonstra que um país pode se tornar plenamente desenvolvido se tiver um povo unido, uma forte liderança para dirigi-lo, determinação patriótica, um programa inovador e ousado para o país e, sobretudo, uma estratégia madura, de quem sabe o que quer e o que fazer para perseguir seus objetivos.

Os chineses demonstram isso. Estão demonstrando também que, para a verdadeira independência nacional, a orientação socialista tem se demonstrado como a mais consequente e fecunda, como evidenciado no enfrentamento da pandemia da COVID-19.

Este é um livro comprometido e que nos chama ao compromisso, como brasileiros, de fazermos do Brasil uma nação soberana, livre e que propicie uma vida material e espiritual melhor a todo o povo, como parte do esforço por construir uma Humanidade solidária, um mundo de paz e novas esperanças.

Parabéns, Durval, gratidão por nos fornecer essa ferramenta e estímulo, sobretudo porque temos neste ano a possibilidade de abrir novas portas para esta perspectiva em nosso país.

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*Vice-Presidente Nacional do PCdoB e secretário de Relações Internacionais

(As opiniões aqui expostas não refletem necessariamente a opinião do Portal PCdoB)