Wadson: a polarização política em Minas rumo à Cidade Administrativa

Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves. Data: 13/07/2010 Crédito: Gil Leonardi/Secom MG

O debate eleitoral de 2022 foi antecipado e começa a ganhar os primeiros traços para potencias pré-candidaturas e alianças em Minas Gerais. Se para a Câmara Federal e para a Assembleia Legislativa ainda restam dúvidas em função das indefinições das regras eleitorais, para o Palácio da Liberdade as regras já estão definidas e os principais concorrentes começam a posicionar seus exércitos. Assim como em nível nacional, em Minas o cenário atual reflete a polarização entre Bolsonaro e Lula, materializada nas pré-candidaturas do atual governador Romeu Zema e do atual prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil.

Por Wadson Ribeiro*

Pesquisa realizada esta semana pelo instituto Atlas Intel e divulgada pelo jornal Valor Econômico, revelou um empate técnico na corrida tanto para o Palácio do Planalto quanto para o governo de Minas. De acordo com os mineiros, 35,5% dos entrevistados votam em Lula contra 34,2% que preferem Jair Bolsonaro. Para o governo do estado outro empate, 35,5% preferem votar na reeleição de Romeu Zema, contra 32,9% que dizem votar em Alexandre Kalil. A prevalecer esse cenário nacional, outras possíveis candidaturas ao governo do estado perderiam competitividade e serviriam apenas para marcar posições e auxiliarem na eleição de bancadas para o Legislativo.

O governador Romeu Zema precisa dos votos dos bolsonaristas para a sua reeleição, embora queira se descolar um pouco da imagem atrelada à Bolsonaro que marcou o curso de sua gestão, esse é um de seus pontos mais vulneráveis. Por outro lado, Alexandre Kalil precisa dos votos da esquerda, especialmente dos petistas, no entanto, tem receio de atrelar formalmente sua candidatura ao PT e se afastar dos eleitores mais conservadores. Nesse caso, se não houver possibilidades de uma aliança formal, o PT terá que levar a cabo a resolução que tomou e lançar uma candidatura própria, criando assim mais um palanque para Lula no estado. Esse cenário, poderá unir a esquerda em torno de uma candidatura no primeiro turno e livrar Lula da polarização entre Zema e Kalil.

Fato concreto é que Romeu Zema, apesar da polarização política, tem uma situação em Minas um pouco melhor daquela enfrentada por Bolsonaro em nível nacional. A baixa intensidade da oposição ao governo, muito menor do que a enfrentada pelo seu antecessor Fernando Pimentel, seja na Assembleia Legislativa, seja entre os movimentos sociais, faz com que Zema navegue quase que sozinho. Seu bom desempenho no interior do estado e um acordo com a empresa Vale, que renderá mais de 37 bilhões de reais ao estado, parte desse recurso executado diretamente pelo governo, o faz hoje o favorito.

Ao contrário do que pregou na campanha, além de tentar a reeleição, Zema vai fazer as alianças que forem necessárias para isso, nem que tenha que deixar o partido Novo, basta ver quem é a sua base de sustentação na Assembleia hoje, recheada por partidos da “nova” política, que nunca se penduraram nas tetas do estado de Minas, como PSDB, PP, DEM, entre outras agremiações partidárias.

Kalil, por sua vez, precisa mostrar o que deseja. Buscará uma aliança com a esquerda no primeiro turno ou apostará na construção de uma frente política no segundo turno, caso haja e ele esteja. A polarização é sempre uma roleta russa e o mais prudente nesse cenário seria não dispersar energias e unir todos em torno de um projeto avançado para Minas, antagônico ao que tem sido implementado pelo atual governador. Essa aliança, tem que ser ampla o bastante e dialogar com todas as candidaturas no plano nacional contrárias a Bolsonaro. Unir Minas para barrar as reformas neoliberais impostas ao estado e dar uma expressiva votação para o projeto de mudanças no âmbito nacional.

Kalil reúne condições para liderar esse esforço, mas precisa amadurecer um pouco mais, compreender o papel da política e conhecer melhor a Minas Gerais profunda, que vai muito além do cosmopolitismo da capital.

Muita água vai rolar até as eleições de 2022 em Minas, mas acho difícil uma terceira via com viabilidade eleitoral. O voto no estado será plebiscitário, a favor ou contrário a Bolsonaro e seus aliados. Na fotografia de hoje a disputa está embolada entre os dois
polos, assim vistos pelos eleitores.

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*Presidente do PCdoB -MG, foi presidente da UNE, da UJS, deputado federal e secretário de Estado de Minas Gerais.

 

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