Medo da derrota faz Bolsonaro se rebaixar e apelar para Biden

Joe Biden e Jair Bolsonaro

(Foto: Alan Santos/PR)

É bem compreensível que Jair Bolsonaro ficasse extremamente irritado com o vazamento de sua conversa reservada com Joe Biden, durante a 9ª Cúpula das Américas, na semana passada. Dizer que é ele o representante maior dos interesses dos EUA no Brasil e que a vitória de seu adversário, o ex-presidente Lula, seria prejudicial a esses interesses, é uma confissão de capachismo poucas vezes visto na história política brasileira.

Esse tipo de traição e sabotagem ao próprio país geralmente é feito às escuras, mas, neste caso, a promessa de vender o Brasil saiu à luz do dia. E veio à tona porque Bolsonaro foi muito açodado, com muita sede ao pote, e a notícia vazou, sendo noticiada pela Agência Bloomberg.

Em baixa nas pesquisas, ele resolveu pedir socorro a Biden para salvá-lo de uma derrota na eleição de outubro. Como argumento para tentar convencer o presidente americano, ele alegou que Lula é um “esquerdista radical” e que uma eventual vitória de seu adversário “iria prejudicar interesses dos Estados Unidos no Brasil”.

É sabido que a grande cobiça dos EUA no Brasil, além de estimular ao máximo a especulação financeira, é se apoderar dos mais de 100 bilhões de barris de petróleo do pré-sal. Não só o petróleo interessa aos EUA, mas também abocanhar a Petrobrás, a nossa maior empresa, que detém a tecnologia de exploração em águas profundas e que foi responsável pela descoberta do pré-sal. Bolsonaro já havia acenado antes que estava disposto a privatizar a petroleira brasileira.

Ele não só se ofereceu para atender os objetivos futuros dos EUA, como já está entregando o petróleo brasileiro às multinacionais. Na semana passada, o Planalto anunciou que estava abrindo mão da parte do governo no regime de partilha de produção no pré-sal. Além disso, ele já começou a fatiar e vender a Petrobrás aos pedaços.

Bolsonaro fez questão também de apressar a venda, a preço de banana, da Eletrobrás, a maior empresa de energia elétrica da América Latina. E não ficou só nisso. Recentemente ele ofertou ao bilionário americano Elon Musk o controle da Amazônia. Tudo para agradar os americanos.

Quando veio a público a oferta que Bolsonaro fez a Biden, ele reclamou, dizendo que “conversa reservada deveria ser mantido em sigilo”. Assessores de Bolsonaro disseram que a equipe de Biden passou informações “distorcidas” da conversa.

De qualquer forma, são dois os crimes cometidos por Bolsonaro nesta conversa. O primeiro é propor que uma potência estrangeira interfira nas eleições brasileiras. Isso é proibido por lei no Brasil. O segundo crime, que é o crime de lesa-pátria, é se colocar como defensor dos interesses desta mesma potência estrangeira em detrimento dos interesses do Brasil e do seu povo.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), líder da oposição, já se encarregou de entrar no Supremo Tribunal Federal (STF) com queixa-crime denunciando este fato gravíssimo de traição nacional.

Agora é possível entender perfeitamente o que Bolsonaro quis dizer quando afirmou em Orlando que a parcela dos brasileiros que se mudaram para os EUA “são a parcela sadia da população brasileira”. Ele disse isso a um grupo de brasileiros, seus apoiadores, que deixaram o Brasil e foram morar na cidade de Orlando, na Flórida.

Com todos estes episódios, Bolsonaro não só mostrou que quer ser o defensor dos interesses dos EUA no Brasil, como deixou claro que ele gostaria mesmo é de ser americano. Pelo menos, externou que acha que quem fez isso, ou seja, pediu a cidadania americana, é a parte sadia dos brasileiros.

Ou seja, ele deixou claro que acha que os 212 milhões de brasileiros que moram e lutam pelo Brasil são a “parte não sadia”, ou melhor, a parte doente da sociedade. Mal sabe o capacho que, como já dizia o poeta, quem não gosta do samba – ou do Brasil – este sim, é ruim da cabeça ou doente do pé.

Além de se oferecer para ser o serviçal de plantão, Bolsonaro tentou também convencer Biden de que as eleições no Brasil estão ameaçadas de fraude. Principalmente se ele perder. Sem apresentar nenhuma prova, ele insistiu na história de que as urnas eletrônicas serão manipuladas para impedir que ele seja reeleito.

O presidente dos EUA, escolado neste tipo de armação, que foi largamente usada por Donald Trump, em sua tentativa de golpe de Estado naquele país, após sua derrota, desconversou e reafirmou a confiança no sistema eleitoral brasileiro. O golpista americano, guru de Bolsonaro, acaba de ser denunciado por uma CPI que investiga a invasão do Capitólio.

Antes do vazamento, Bolsonaro tinha classificado a conversa como “fantástica” e que tinha ficado “maravilhado” com a reunião. Que teria saído melhor do que ele esperava.

O fato é que, depois que vazou sua traição ao Brasil, Bolsonaro mudou o tom e disse que as informações não passam de especulação e que houve “deformação” da conversa. Ele confirmou que participou da reunião sigilosa o ministro das Relações Exteriores,

Carlos França, mas insistiu que nada será divulgado. “O que eu falei com o Biden não sai de mim”, disse. A declaração tornou-se ineficaz, porque o mundo inteiro, afinal, já sabe de tudo o que foi tratado pelos dois no escurinho.