Kiev chantageia Europa com fechamento parcial do trânsito do gás russo

Ucrânia corta cerca de um terço da passagem de gás russo para a Europa

(Sean Gallup/Getty Images)

A interrupção, pela operadora ucraniana GTS do fornecimento de gás russo através da estação de entrada de Sohranivka – o que representa um terço do combustível entregue pela Rússia via Ucrânia, até 32,6 milhões de metros cúbicos por dia -, está sendo vista como uma tentativa de chantagear os países europeus, principalmente os do leste europeu, segundo analistas, e já está provocando nova alta nos já dilatados preços do gás na Europa, quando a inflação na União Europeia já ultrapassa 10%.

A interrupção parcial do fornecimento do gás via Ucrânia por iniciativa do regime de Kiev vem se somar às pressões para que todos os países da União Europeia se dobrem ao embargo do petróleo russo, em discussão em Bruxelas e nas capitais europeias, sob ordens de Washington.

O corte no fornecimento imposto por Kiev acarretou uma queda na entrega de gás para a Alemanha de 25% na quarta-feira (11). A GTS alegou “razão de força maior” para a suspensão da entrega de gás – supostamente o fato da estação de medição de gás estar sobre controle de forças aliadas aos russos da República Popular de Lugansk (embora isso já venha ocorrendo há quatro semanas) – e anunciou que pretendia transferir temporariamente os fluxos para a estação de Sudzha, sob controle ucraniano.

Até agora, o gás russo estava fluindo ininterruptamente através de oleodutos pela Ucrânia, apesar das operações militares. Na quarta-feira, o gás russo enviado via Ucrânia caiu de 95,8 milhões de metros cúbicos com as duas estações de entrada operando na véspera, para 72 milhões de metros cúbicos, apenas via Sudzha.

Os embarques através da Ucrânia para Velke Kapusany da Eslováquia, a principal rota de trânsito para a Europa, também devem cair para o nível mais baixo desde 30 de abril, com base nos dados da rede.

A alegação de “força maior” foi refutada pelo porta-voz da Gazprom, Sergei Kupriyanov, que assinalou que “especialistas ucranianos trabalharam silenciosamente em Sokhranovka [estação de medição] e em Novopskov [bombeamento] todo esse tempo e continuam a fazê-lo, o trânsito por Sokhranivka foi fornecido integralmente, não houve queixas das contrapartes e não há nenhuma”.

“A Gazprom cumpre integralmente todas as suas obrigações para com os consumidores europeus, fornece gás para trânsito de acordo com o contrato e acordo do operador, os serviços de trânsito estão totalmente pagos”, acrescentou.

A gigante russa do gás declarou que não vê obstáculos para continuar o trabalho na modalidade anterior e que a alteração apresentada pela GTS reduz “significativamente a confiabilidade” do fornecimento.

“Com base no esquema de fluxo russo, a transferência de volumes para Sudzha é tecnologicamente impossível. Isso está claramente escrito no acordo de cooperação, e o lado ucraniano está bem ciente disso”, disse Kupriyanov ao canal Rossiya 24.

A Rússia cobre cerca de 40% das necessidades totais de gás natural da Europa. A UE depende do gás russo barato para aquecer casas, cozinhar refeições, gerar eletricidade na maioria dos 27 estados membros do bloco e manter em funcionamento a indústria.

De acordo com o economista Petr Zabortsev, a chantagem do gás é apenas “um pequeno toque” nos esforços em curso dos EUA para levar os europeus a romperem os vínculos econômicos com a Rússia. Observadores enfatizaram que a Gazprom não tem culpa na situação atual, todas as reclamações devem ser feitas à operadora ucraniana.

Para o especialista industrial independente Leonid Khazanov, que foi ouvido pela Ria Novosti, usando como pretexto que a estação de controle Sokhranivka não seja mais controlada por Kiev, a operadora ucraniana interrompe o fornecimento, na expectativa de que Hungria, Eslováquia, Itália e outros países que recebem menos gás interpelem a Rússia.

Segundo a agência reguladora alemã, a queda nos volumes foi compensada por fluxos maiores, principalmente da Noruega e da Holanda. Fontes europeias admitiram que a Rússia não está violando nada. “As entregas são ininterruptas e completas”, reconheceu a ministra da Energia e Ecologia da Áustria, Leonora Gewessler.

“A Ucrânia, um país chave para o trânsito de gás russo, violou suas obrigações pela primeira vez ao declarar força maior. O efeito dominó de retirar outro duto da rede de gás e perder um fluxo de dez milhões de metros cúbicos por dia dificultará o enchimento das instalações de armazenamento” para o crucial período do inverno, alertou a empresa de análise norueguesa Rystad Energy.