Presidente Lula levanta cartaz de participantes em ato de apoio. Foto: Ricardo Stuckert

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2026 representa um dos acontecimentos mais significativos da história política brasileira recente. A margem de 4.430.181 votos (51,79%) de diferença não deixa dúvida sobre a manifestação do povo brasileiro.  Não se trata apenas da eleição de um presidente comprometido com a reconstrução das políticas sociais, a retomada do desenvolvimento nacional e a defesa dos direitos dos trabalhadores, mas também de uma vitória da democracia diante do crescimento da extrema-direita, do enfraquecimento das instituições republicanas e da ameaça de ruptura das regras democráticas. Sua reeleição simboliza também uma derrota do imperialismo americano na América Latina eum reforço geopolítico ao multiletarismo

A dimensão histórica desse resultado também se expressa no fato de Lula ter sido o primeiro candidato, desde a instituição do segundo turno nas eleições presidenciais brasileiras, a vencer a disputa decisiva depois de terminar a primeira votação na segunda colocação.

As ruas e as redes garantiram a vitória!

Na segunda-feira pós primeiro turno, a partir de Niterói, o movimento estudantil tomou as ruas. A mobilização rapidamente se transformou em uma onda vermelha, capaz de sensibilizar amplos setores da população, desdobrando-se em gigantescas manifestações espalhadas por todo o país (lembrando as jornadas histórica das Diretas Já! e do Fora Collor!) em defesa da democracia, das conquistas sociais e da soberania.

Antes que a direção política formal da campanha reagisse ao resultado desfavorável do primeiro turno, o povo tomou a iniciativa. Esse dado trouxe à tona uma capacidade de mobilização social que não estava sendo suficientemente percebida nem organizada pelo núcleo de poder e a coordenação da campanha.

Nas redes sociais, o deputado federal André Janones desempenhou papel importante com a formação do chamado Exército do Lula. Sua atuação demonstrou como a mobilização digital, articulada à disposição popular, poderia alterar o ritmo da campanha. Temos que destacar também o papel das mídias independentes (ICL, 247, etc.) e centenas de sites progressistas.

Estas duas frentes bem sucedidas pontuaram a relevância das forças políticas e sociais externas, capazes de produzir respostas mais rápidas e eficazes. As robustas reações populares nas redes e nas ruas a favor da reeleição do presidente Lula alicerçaram o caminho para as corretas correções de rumo da campanha, culminando com a sensacional e histórica virada.

A vitória demonstra que a correlação de forças políticas não é imutável e que a mobilização social, a capacidade de articulação e a disposição democrática de participação da população podem alterar o curso de uma eleição.

Superar a ausência de comando político amplo e unificado para consolidar e mobilizar a base política popular e institucional.

Entretanto, o resultado também revela a profundidade da divisão política brasileira. A votação expressiva de Flávio Bolsonaro (48,21% dos votos válidos) demonstra que a extrema-direita permanece uma força política e social de grande dimensão, com forte presença institucional: elegeu a maior bancada do Senado e da Câmara de Deputados, além de governos estaduais importantes, e demonstrou capacidade de mobilização e influência sobre parcelas significativas da sociedade.

Não estamos, portanto, diante do encerramento da disputa entre democracia e autoritarismo. Este é o dilema do momento histórico que vivemos. Estamos diante de uma nova etapa, na qual a vitória eleitoral precisa ser transformada em capacidade de governar, ampliar direitos, fortalecer as instituições e construir uma maioria social capaz de sustentar um projeto democrático e popular.

É nesse contexto que devemos avaliar criticamente a experiência do terceiro mandato de Lula e extrair as lições necessárias para o quarto período. Um governo pode apresentar resultados positivos e, ainda assim, enfrentar dificuldades para construir uma maioria parlamentar estável, defender suas decisões e organizar um apoio social em torno de seu programa.

Esse foi um dos paradoxos deste terceiro mandato que, mesmo com a  existência de realizações importantes, coexistiu com derrotas parlamentares expressivas e dificuldades persistentes de articulação política e capitalização dos feitos. Lula enfrentou dificuldades estruturais, um Congresso mais poderoso, limitações fiscais, hegemonia do pensamento neoliberal e uma sociedade profundamente polarizada. Ao mesmo tempo, implementou políticas relevantes e promoveu iniciativas de reconstrução institucional, econômica e social.

A principal insuficiência que identifico foi a ausência de um núcleo político amplo, representativo e permanente, capaz de integrar os partidos aliados e lideranças à formulação das decisões estratégicas e organizar uma ação coordenada da base política, diante dos obstáculos impostos pelo Congresso e pela extrema-direita.

Essa questão é uma das chaves para compreender as dificuldades enfrentadas pelo terceiro governo Lula e os desafios políticos para a continuidade do projeto do nosso campo político.

Por isso, o próximo governo precisa superar a estreiteza do comando político e estabelecer uma estrutura permanente de coordenação, capaz de incorporar os aliados às decisões, antecipar conflitos, aperfeiçoar os encaminhamentos e integrar a ação parlamentar à mobilização social.

A liderança de Lula continua sendo um fator decisivo. Mas a experiência demonstra que a autoridade presidencial, por maior que seja, não substitui a necessidade de organização política e participação coletiva.

A frente ampla que derrotou a extrema-direita precisa se transformar em uma coalizão capaz de governar, realizar o seu programa e sustentar uma alternativa democrática e popular para o Brasil.

A grande lição da vitória de 2026 é que a amplitude da frente eleitoral precisa ter a mesma dimensão na condução política do governo. A democracia foi defendida nas ruas, nas redes e nas urnas; agora, precisa ser fortalecida por um governo com maior capacidade de diálogo, organização e direção política.

O desafio não é apenas governar com mais eficiência. É construir uma força política capaz de enfrentar a extrema-direita, ampliar direitos, promover o desenvolvimento nacional e transformar a vitória eleitoral em conquistas duradouras para o povo brasileiro.

Davidson Magalhães é dirigente macional do PCdoB