Colômbia: mil líderes populares já foram mortos após o 'Acordo de Paz'

Manifestação na capital Bogotá exige um basta aos massacres de lideranças populares | Foto: AFP

No último sábado (22), menos de 24 horas depois de ter atingido a trágica cifra de mil lideranças, defensores dos direitos humanos e ex-combatentes das FARC assassinados após a assinatura dos Acordos de Paz, a Colômbia registrou 17 mortos em três massacres marcados pela covardia. Nesta mesma semana, o Alto Comissariado da ONU para os direitos Humanos havia documentado 33 massacres na Colômbia somente neste ano.

No mais recente deles, ocorrido em La Guayacana, no município de Tumaco, departamento (estado) de Nariño, no sul do país, indivíduos armados retiraram as vítimas de casa, para logo serem executadas. Com nome e sobrenome, seis perderam a vida no ato: Diego Runi Acosta, de 17 anos; Jorge Alexander Cortés, de 22; Dubéi Herney Quiroz, de 22; Eduardo Ernesto Quiroz, de 24; Jesús Casanova, de 37, e Edward Ever Quiroz, de 50. Uma adolescente de 16 anos continua desaparecida.

No final da tarde da sexta-feira, em Arauca, fronteira com a Venezuela, cinco pessoas foram assassinadas na zona rural da capital do departamento. As vítimas ainda não foram identificadas.

Horas mais tarde no município de Tambo, departamento de Cauca, foram mortos seis camponeses: Heiner Collazos, Arcadio Collazos, Yoimar Ordóñez, David Tulande, Nicolás e Yulber Edilson Flor, por homens encapuçados que os retiraram de uma reunião, os ataram e acabaram com suas vidas.

Conforme o prefeito de Tambo, Carlos Vela, “em 2020 já foram registrados 49 assassinatos, o que ultrapassa em mais de 300% o ano de 2019”.

O banho de sangue deste final de semana em Tumaco, somado ao da semana passada em Samaniego – quando morreram oito universitários -, fez com que o governador de Nariño, Jhon Rojas, solicitasse a presença do presidente Iván Duque, a fim de que se adotem “ações contundentes” e se dê um basta ao que está ocorrendo. Conforme Rojas, o fundamental é “investimento social e reativação econômica para que, efetivamente, tenhamos futuro”.

Desde a assinatura do Acordo de Paz com o governo, em novembro de 2016, o partido Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC) – anteriormente Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – já soma 218 militantes e dirigentes assassinados pelas milícias fascistas e por agentes da Força Pública.

A brutalidade da política de “terrorismo de Estado” de Duque fez com que, apesar da pandemia, organizações estudantis e juvenis fossem às ruas da capital, Bogotá, para exigir um basta às matanças.

“A barbárie dos criminosos não tem limite. Rechaçamos com veemência o ocorrido e solicitamos às autoridades que esclareçam os acontecimentos o quanto antes”, assinalou a Defensoria do Povo, entidade pública encarregada de velar pelo respeito aos direitos humanos no país.

A estas tragédias recentes se soma o assassinato, no dia 13 de agosto, em Cauca, do jornalista indígena Abelardo Liz, da emissora Nación Nasa Estério, no final de uma manifestação que terminou em enfrentamentos com a força pública. Abelardo tinha 34 anos e estava registrando um protesto do qual participaram comunidades indígenas, quando recebeu três disparos de onde se encontravam oficiais do Exército.

A Fundação para a Liberdade de Imprensa (FLIP) documentou e condenou a ação, da mesma forma que o Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ), que solicitaram uma investigação rigorosa sobre a responsabilidade dos militares colombianos no caso.

Em um comunicado conjunto, o escritório da Organização das Nações Unidas (ONU) na Colômbia e a Missão de Verificação que acompanha o processo de paz manifestaram sua preocupação “pela continuidade dos homicídios de defensores e defensoras de direitos humanos, lideranças sociais e de ex-combatentes das FARC, em 2020”.

“Estes fatos violentos, com graves impactos humanitários, estão ocorrendo em territórios com a presença de grupos armados ilegais e outras organizações que geram violência, economia ilegais, pobreza e caracterizados por uma presença limitada do Estado”, advertiu a ONU. Portanto, as Nações Unidas consideram que “é fundamental avançar e aprofundar a implementação integral do Acordo de Paz, especialmente seu capítulo 3.4 sobre garantias de segurança, que oferece mecanismos e instrumentos de prevenção, proteção e segurança”.

Numa lista pormenorizada, o Instituto para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz), identifica que somente de primeiro de janeiro deste ano até agora foram assassinados 194 líderes sociais e defensores dos direitos humanos, oito de seus familiares e 41 assinantes dos Acordos de Paz ou ex-combatentes das FARC.