China diz na ONU que EUA ‘se olhe no espelho’ antes de apontar o dedo

"Milhões de americanos gritaram ‘Não consigo respirar’, lembrou em seu discurso o embaixador Zhang | Foto: John Minchillo-AP

Em um embate com o regime Trump na 75ª Assembleia Geral da ONU, o embaixador chinês Zhang Jun chamou os EUA a “se olharem bem no espelho”, antes de apontarem o dedo para os outros sobre ‘direitos humanos’.

“Na verdade, são os Estados Unidos que deveriam trabalhar para proteger os direitos básicos de seu povo. Mais de 200 mil americanos perderam suas vidas para a Covid-19. O que os EUA precisam é tratar os doentes e salvar vidas, não espalhar ‘vírus político’ e causar problemas em todos os lugares”, afirmou Zhang.

“São os Estados Unidos que devem eliminar a discriminação racial e permitir que seu povo respire. Existe discriminação racial sistemática nos EUA, violência policial e impunidade judicial. Milhões de americanos gritaram ‘Não consigo respirar’ e ‘A vida dos negros é importante’”.

“Eu gostaria de dizer aos Estados Unidos: culpar a China não pode encobrir seu débil histórico de direitos humanos”, disse Zhang.

A investida de Washington a pretexto dos ‘direitos humanos’ em “Hong Kong e Xinjiang” é apenas outra frente da guerra de Trump contra a ascensão econômica da China, que vai da imposição de tarifas, banimento do 5G da Huawei e proibição de aplicativos a provocações com porta-aviões nucleares no litoral chinês e atropelo ao princípio de ‘Uma Só China’, acatado por todos os presidentes norte-americanos desde Nixon.

“São os Estados Unidos que deveriam impedir os crimes de guerra e devolver a paz ao mundo”, salientou Zhang, que destacou que “em seus 244 anos de existência, os Estados Unidos não estiveram em guerra por apenas 16 anos”.

O embaixador da China na ONU denunciou que os EUA “são o país mais beligerante do mundo” e que bombardeou outros países e atirou contra civis, causando um grande número de vítimas, refugiados e deslocados. “Suas mãos estão manchadas com o sangue de civis inocentes”, acrescentou.

“São os Estados Unidos que devem implementar seriamente as obrigações internacionais de direitos humanos”, enfatizou.

“Os Estados Unidos estão praticando o unilateralismo e fugindo de suas próprias responsabilidades. Retiraram-se do Conselho de Direitos Humanos, recusaram-se a ratificar tratados de direitos humanos, sancionaram funcionários do Tribunal Penal Internacional e impuseram sanções unilaterais a outros países”, denunciou Zhang.

Foi isso que “interrompeu gravemente a cooperação internacional em direitos humanos”, complementou, exigindo que Washington atenda “ao clamor mundial por justiça”.

O embaixador Zhang convocou o comitê da ONU a “prestar atenção à discriminação racial e à brutalidade policial nos Estados Unidos, discutir o assunto e adotar uma resolução sobre isso”.

Como é público e notório, recentemente, sob pressão de Washington e em meio aos maiores protestos contra o racismo nos EUA em meio século, um organismo da ONU deixou de citar nominalmente os EUA e investigar a questão, apesar de apelos nesse sentido de entidades democráticas norte-americanas e até de um vídeo com o irmão do cidadão negro assassinado, George Floyd.

Zhang também lamentou o papelão a que se sujeitaram vários governos ocidentais, de patéticos coadjuvantes na cruzada de Trump contra a China, como o Reino Unido e a Alemanha, deixando de lado os fatos, violando a justiça e prejudicando a cooperação.

O embaixador chinês advertiu a esses governos que ao se engajarem na cegueira seletiva e padrões duplos em socorro de Washington, “se tornam seus cúmplices”, numa “hipocrisia total”. “Permitam lhes dizer o seguinte: deixem de lado a arrogância e o preconceito, e recuem agora”.

A China recebeu a solidariedade de mais de 70 países, enquanto Trump reuniu, a seu redor, 39. Naturalmente, a mídia imperial ignorou solenemente que 70 são mais do que 40, e se referiu aos últimos como se fossem a ‘comunidade internacional’.

Zhang também repeliu a insistência dos EUA de provocar confrontos entre os estados-membros da ONU e alertou que o mundo hoje está em “um momento crítico diante grandes desafios” em meio às comemorações do 75º aniversário das Nações Unidas. Ele lembrou que os líderes mundiais “pediram solidariedade e cooperação na luta contra a Covid-19 e no enfrentamento de outros desafios globais”.

Zhang rechaçou as “fake news” e o “vírus político” com que procuram enlamear a China e interferir em seus assuntos internos, e advertiu que seu país “se opõe firmemente a isso”.

“Os atos desprezíveis dos Estados Unidos estão em total desacordo com a tendência da história. O mundo está progredindo. As pessoas e o mundo querem solidariedade e não divisão, cooperação e não confronto, benefício mútuo e não jogo de soma zero”, reiterou Zhang, acrescentando que os EUA “estão do lado errado da história e vão contra a comunidade internacional”.

“Eu gostaria de dizer aos Estados Unidos: seus clichês são completamente falsos. As conquistas da China no desenvolvimento dos direitos humanos são amplamente reconhecidas e não serão negadas por suas mentiras e enganos”, destacou.

Zhang enfatizou, ainda, que adoção pela China de medidas eficazes para combater o terrorismo, salvaguardar a segurança nacional e promover o desenvolvimento econômico e social “é firmemente apoiada por todos os chineses e pode resistir ao teste do tempo e da história”.

“Gostaria de dizer aos Estados Unidos: seu esquema político nunca terá sucesso. Os países em desenvolvimento têm o direito de defender sua soberania, alcançar o desenvolvimento e manter a segurança. É hora de acordar para o fracasso de suas sucessivas tentativas. Culpar os outros não vai resolver seus problemas, nem esconder seus fracassos”, concluiu.