Vivemos em um mundo multipolar – Parte 2

Por Dilermando Toni*

Penso que o que se deve levar em conta não é simplesmente se uma potência é mais forte econômica ou militarmente que a outra, ou seja, só haveria multipolaridade no dia em que a China, por exemplo, superasse os EUA. É necessário sim, que sejam potências mundiais, com capacidade de aglutinar interesses comuns de países, que tenham poderio para influenciar os destinos do mundo e ainda que possam dissuadir, pelo potencial bélico nuclear, uma de atacar a outra.

Explico, frequentemente se fala no poderio bélico dos EUA, centenas de bases e centenas de milhares em tropas espalhadas pelo mundo, aviação imbatível, frotas fortíssimas nucleadas por poderosos porta-aviões, etc. Mas a pergunta que se coloca é se os EUA estariam dispostos a empregar tudo isso contra a China que atua em aliança estratégica com a Rússia? Ou por outra, porque não foi possível vencer a guerra na Síria, submeter o país e fazer o que fizeram no Iraque e na Líbia? Porque o presidente Al Assad não teve o mesmo fim de Sadam Hussein e de Gaddafi?

Mas vejamos algumas coisas no terreno da economia e das finanças. Agora para 2021 o PIB em valores correntes, ou seja, pelo câmbio nominal, dos EUA deve alcançar USD 22,6 trilhões enquanto o da China (Hong Kong inclusa) deve chegar a pouco mais de USD 17 trilhões, representando respectivamente 24% e 18% do PIB mundial, segundo o FMI. Mas, a China administra seu câmbio mantendo-o relativamente desvalorizado para tornar seus produtos mais competitivos e é por isso mesmo que, o que realmente interessa é o PIB, pela PPC, ou seja, a comparação do poder efetivo de compra, métrica mais recente utilizada internacionalmente e que visa acabar com as distorções existentes no critério dos valores correntes e desvendar o câmbio real. Nesse sentido, em 2021, o PIB da China deve chegar a USD 26,7 trilhões e o dos EUA a USD 22,7 trilhões, que representam 19% e 16% do PIB mundial PPC, também segundo o FMI.

A China cresceu a uma média de 10% anuais durante aproximadamente 30 anos, até a crise de 2007/08. Trajetória que mudou completamente a fisionomia do país, comparado ao que que foi a revolução industrial para a Inglaterra, ao desenvolvimento dos EUA após a Guerra de Secessão, ou ainda ao empuxo soviético durante pouco mais de uma década a partir do final dos anos 20 do século passado.

A China é credora dos EUA em mais de USD1 trilhão, comparando-se ao Japão, cada qual com 20% do total, segundo o Departamento de Tesouro dos EUA, em 2020. Acumula vultosas reservas internacionais de USD 3,232 trilhões mais USD 113,3 bilhões de reservas em ouro, segundo dados de agosto do corrente ano, fornecidos pelo Banco do Povo da China.  Além disso, como resultado de sua política da abertura vem recebendo investimentos externos assim como vem se tornando uma grande investidora em todo o mundo. De acordo com o World Investment Report publicado pela UNCTAD em 2021, em 2020 a China acumulava investimentos externos na ordem USD 1,918 trilhão. Por outro lado, os investimentos da China no exterior totalizaram USD 1,23 trilhão até 2019 aos quais se somam grandes recursos para projetos de construção sobretudo em países em desenvolvimento. Já os EUA, segundo o seu Bureau of Economic Analysis (BEA), tinha acumulado USD 6,15 trilhões de investimentos diretos ao redor do mundo em 2020, resultado das exportações de capital, uma das características econômicas centrais do imperialismo.

Para 2021 a China deverá registrar um saldo em conta corrente (transações correntes) de USD 273,5 bilhões enquanto dos EUA devem amargar um déficit de USD 876,35 bilhões, segundo o FMI. Isto graças ao saldo da balança comercial chinesa que é a maior vendedora e compradora de produtos do mundo.

Na questão tecnológica a China se firma também como potência de nível mundial.  Tem um projeto espacial avançado em andamento, mantem trabalhando em seu território 1/3 de todos os robôs existentes no mundo, põe em execução grandes projetos de construção de autoestradas, de trens de alta velocidade, de aeroportos, de redes de energia, de computadores quânticos, de equipamentos com tecnologia 5G. Essa área tecnológica tem se revelado extremamente sensível e onde se situam grandes disputas por mercados.

A integração da China com a Ásia, a Europa e a África ganha grande impulso através de um programa que vem sendo chamado de Iniciativa Cinturão Rota (BRI) em ação desde 2013. São projetos para a construção de vias marítimas, rodoviárias e férreas por dezenas de países, envolvendo muitos recursos. Nestes marcos é que recentemente foi assinado um acordo de fôlego com Irã. E ainda várias outras articulações econômicas, a exemplo dos Brics.

 

*Jornalista. Membro do Comitê Central do PCdoB.