Gabriel Nascimento: O Comunista e as políticas identitárias

Aproxima-se o 14º Congresso do mais importante e antigo partido da República, o Partido Comunista do Brasil. Rebatizado em 1962, esse partido sobrevive a chuvas e tempestades da história, não por sua capacidade de ler o tradicional e ser a vanguarda, mas pela capacidade de ser a vanguarda e ler o tradicional. Sem vanguardismo ou esquerdismos. No entanto, o PCdoB tem elegido nas suas fileiras o tema da questão nacional como grande tema a ser debatido e aprofundado. Essa defesa não é de agora, mas tem agora o seu contexto mais finalístico. No entanto, ao que parece, um outro tema, que parece se opor a esse tema, é o tema das questões identitárias. Como sou especialista em Linguística Aplicada e estudei identidade no mestrado e também agora no doutorado, venho aqui tratar um pouco da questão sob o olhar de um jovem comunista negro, pesquisador e oriundo das lutas e causas do PCdoB.

Não é fácil falar de políticas identitárias no Brasil. Traz alguma suspeição pensar políticas identitárias sem lhe identificar a genealogia. Genealogia pode ser um termo desconhecido de boa parte de nós, mas o seu sentido moderno, também herdado de Marx, como boa parte do sentimento moderno, tem a ver com a linha de continuidade que é traçada na história de modo a construir ou não rupturas. Localizar a genealogia de uma dada coisa é ativar o pensamento sobre as representações sociais que inundam o sentido do primeiro capítulo de A ideologia alemã, onde Marx e Engels destroçam o pensamento filosófico até então imbuído de metafísica que só descrevia o mundo, e não intervinha nele. No século XX a genealogia, que á tinha ganhado a grande pegada de Nietzsche, passa pelas grandes digitais de um grande filósofo ex-marxista francês, Michel Foucault. Retomo, portanto, aqui seu sentido no marxismo e sua genealogia a partir de então.

Identificar a genealogia das questões identitárias é separar a sua importância no Brasil, na Europa e Estados Unidos. Rever o que lá aconteceu nos faz tecer boas considerações de como a questão deve ser tratada pelas nossas fileiras. Algumas acusações sobre as questões identitárias, e sua localização como pós-modernas, não fazem o menor sentido no Brasil, onde as questões identitárias têm outro sentido histórico, e é disso que estou tratando neste artigo.

A genealogia das questões identitárias na Europa se traduz pela capacidade do capital de aglutinar esses movimentos, de alguma forma abandonados pelos partidos comunistas tradicionais europeus, e da cooptação secularizada deles. A fragmentação política de cada um foi o que gerou essa tenebrosa internacionalização das lutas dos direitos humanos no mundo ocidental. Como vocês devem ter sentido falta, não mais estamos falando de classe aqui. Foi por isso que eu, pesquisador negro, resolvi retomar classe social no meu trabalho de mestrado. Ao retomar classe social, o primeiro passou foi localizar em que genealogia eu estava recuperando classe social. Era, portanto, no Brasil, onde a maioria dos filhos da classe brasileira vem da chamada “ralé brasileira”, cuja maioria tem cor preta e é feminina. Portanto, estamos falando de classe, raça e gênero de maneira muito intrínseca ao recuperar classe social no Brasil. Em meu doutorado defendo, partir de uma longa pesquisa bibliográfica em andamento, no entanto, que o capitalismo fundou as noções modernas de duas categorias, classe raça. Na Europa a categoria fundante foi raça, enquanto que, com o colonialismo, no Brasil a categoria fundante foi raça. Portanto, o sentido moderno de classe entre nós, no Brasil, vem do sentido de raça, e não o contrário.

Isso nos leva, portanto, ao sentido das questões identitárias no Brasil. Enquanto na Europa e Estados Unidos as questões identitárias se confundem com a guinada pós-moderna, entre nós elas têm sentido inicial, agora suplementado, nas lutas sociais das maiorias minorizadas, negros, mulheres e trabalhadores, desde sempre. Basta recordar nosso camarada Clóvis Moura, para quem o negro nunca se ausentou das lutas políticas populares neste país. Identidade, ao contrário do europeu e do pensamento pós-moderno, entre nós é vista como o mecanismo social, cultural, econômico e político pelo qual a modernidade europeia nos denominou e que por nós tem sido, por nossa força política e luta, suplementado e ressignificado como arma política. Essa vertente tem sido chamada na América Latina como decolonial. Trata-se da crítica à modernidade europeia através da crítica ao seu maior aparelho político, cultural e econômico, o capitalismo. Portanto, ao contrário dos pós-modernos, cujo contexto eurocêntrico, centra fogo na desconstrução das meta narrativas, entre elas o marxismo, nós decoloniais latino-americanos fazemos uma outra crítica à modernidade europeia. A nossa crítica racial e de gênero está mais interligadas do que a luta da questões identitárias no horizonte europeu.

Assim, faz-se necessária essa primeira operação de divisão das genealogias, para produzir noções básicas. No Brasil, o PCdoB não pode deixar de disputar essas bases: o movimento negro e sua unificação, o feminismo emancipacionista ou a luta LGTB também emancipacionista. Não se trata das facetas da estética cultural per si¸mas de uma luta localizada, anticapitalista e socialista. Criticar apenas essa questão pode gerar equívocos medonhos, como confundir a genealogia das questões identitárias aqui com as questões idenitárias na Europa e Estados Unidos, que levaram aos mais recentes conflitos ou na área de imigração, ou no racismo e fascismo latentes. Atenção, esses fenômenos não são culpa das questões identitárias, mas de sua cooptação e generalização no mundo eurocêntrico. Tenhamos cuidado ao produzir críticas sem contextualizá-las, sendo essa a base epistêmica do pensamento marxista.

Este é um dos primeiros artigos que pretendo escrever para esta tribuna. No próximo devo localizar a questão racial.

 *Gabriel Nascimento é professor da UFSB, doutorando em Letras pela USP e mestre em Linguística Aplicada pela UnB. Autor de “O Maníaco das onze e meia” e “Este fingimento e outros poemas”, é diretor da Associação Nacional de Pós-graduandos e membro da direção nacional da União da Juventude Socialista.