15º Congresso: Live aborda crise do capitalismo e o mundo em transição

Com foco na discussão sobre a crise do capitalismo e o mundo em transição, tendo o socialismo como alternativa, a mais recente edição do programa Olhar 65 fez um recorte internacional das teses debatidas no âmbito do 15º Congresso do PCdoB. A live, realizada na sexta-feira (17), recebeu os dirigentes nacionais do PCdoB e especialistas na área internacional Ana Prestes, Luís Fernandes e Márcio Cabreira, com a apresentação do secretário nacional de Comunicação, Adalberto Monteiro, e do jornalista Osvaldo Bertolino.

Um dos principais pontos do debate foi o declínio relativo dos Estados Unidos no cenário geopolítico mundial e sua derrota no Afeganistão. “Nossa avaliação é a de que ainda há um pouco talvez do que o Gramsci fala: um momento de transição em que o velho não morreu e o novo ainda não nasceu. O que assistimos nas últimas décadas é um declínio relativo do poderio e da hegemonia estadunidense e essa saída ou essa expulsão dos EUA do Afeganistão, após 20 anos de invasão e ocupação, pode ser um elemento importante para ilustrar esse declínio relativo”, analisou Ana Prestes.

Ela destacou que os Estados Unidos ainda são “o principal poderio militar do mundo, em disputa com a China — por parte dos EUA — e temos a China buscando se desenvolver. E em seu desenvolvimento, ela está se projetando internacionalmente, mas os EUA ainda são uma economia muito forte, talvez ainda a mais forte, podendo ser ultrapassada. Estamos ainda neste momento de indefinição ou de uma multipolarização que ainda não se estabeleceu, como defendemos que seja a ordem mundial”.

Márcio Cabreira acrescentou que a saída dos norte-americanos do Afeganistão “de fato demonstra um declínio progressivo, mas demonstra, sobretudo o caráter americano e o velho formato de ocupações que eles produzem mundo afora e que deixam claro quais são seus interesses econômicos”.

O dirigente salientou que essa saída o explicita “um esgotamento dos seus negócios e do seus interesses” que são “interesses econômicos poderosos que a gente bem conhece, que movimentam bilhões de dólares e que talvez no Afeganistão tenham se esgotado e, agora, eles sairão à procura de novas praças que sejam mais rentáveis e lucrativas para os seus interesses econômicos, para suas empresas, em especial as que atuam na indústria bélica”.

Para Luís Fernandes, a forma como se deu a retirada “configura uma derrota humilhante dos EUA porque até então, a situação era meio encoberta, como se o país tivesse cumprido sua missão. Foi a guerra mais longa da história dos estadunidenses, 20 anos. No entanto, as imagens do aeroporto de Cabul, de desespero dos cidadãos estrangeiros e setores da elite da sociedade afegã que haviam colaborado com as forças de ocupação, mostram que os Estados Unidos foram vencidos e evocam muito às imagens da sua derrota na guerra do Vietnã”.

Porém, diz Luís Fernandes, a derrota que os norte-americanos sofreram na guerra do Vietnã “motivou uma reconfiguração exitosa da hegemonia norte-americana deflagrada a partir do Reagan e que se convencionou, depois, chamar de agenda neoliberal, permitindo que os EUA vencessem a Guerra Fria”.

Ele avalia que a guerra perdida hoje no Afeganistão se dá num contexto totalmente diferente: “não se vislumbra uma perspectiva de recomposição da hegemonia norte-americana capaz de retomar uma agenda de centralidade e hegemonia, com ocorreu nos anos 1980”.

China socialista

Outro ponto destacado do programa foi a ascensão e a importância que a China vem adquirindo no cenário mundial. Na avaliação de Márcio Cabreira, o fato de a China ser dirigida pelo partido comunista chinês trouxe, entre outras coisas, a possibilidade de planejamento da nação frente às necessidades e complexidades do país. Para ele, o segredo está na “capacidade do PCCh compreender o que sociedade está querendo construir e os números apontam para um sucesso” deste tipo de aposta.

Luís Fernandes enfatizou que a ascensão da China se dá no âmbito de um processo de multipolarização em curso no mundo. “E a tese, baseada na nossa tradição teórica de elaboração, identifica a fonte central dessa multipolarização na qual se insere a ascensão chinesa que é o desenvolvimento desigual do capitalismo na era do imperialismo”.

O desenvolvimento desigual, explicou Luís, aponta para “o impacto do advento do capital financeiro sobre o dinamismo das economias capitalistas centrais, apontando que elas tendem à decomposição, a perdas de dinamismo. E é isso que estamos vendo no mundo: a perda de dinamismo econômico com consequências geopolíticas das potências capitalistas que dominaram o sistema internacional no século passado. Na multipolarização as alternativas que surgem como novos polos são variadas, não são só socialistas, há polos capitalistas surgindo também com graus diferenciados de autonomia em relação aos EUA, arranjos político diferenciados e é nesse contexto que se situa a ascensão chinesa”.

Para Luís Fernandes, “o fato de a China ter renovado o seu modelo socialista, de ter aprendido com os erros que acabaram sendo fatais na experiência pretérita da URSS e de ter inovado no seu mecanismo de desenvolvimento econômico, na montagem de uma base econômica com múltiplas formas de propriedade, mantendo forte poder de planejamento, intervenção e direção do Estado, controlando centralizadamente o câmbio, além de um conjunto de instrumentos de preservação de sua soberania, mostram que além da orientação socialista, o país tem um forte componente anti-imperialista, e essa combinação é que vem sustentando essa ascensão fulgurante da China”.

Assista a íntegra

Leia aqui as teses do 15º Congresso do PCdoB

Por Priscila Lobregatte