A importância da ciência na geração da mais-valia – parte II

“O primeiro pecado da humanidade foi a fé; a primeira virtude foi a dúvida.”

Carl Sagan

Por Renato Gomes dos Reis*

Cabe agora iniciar um outro ponto de análise sobre a produção da mais-valia relativa que é fulcro na análise do capital na obra marxiana, em particular as obras Grundrisse, Manuscritos e em O Capital, sob o signo da mais-valia relativa tem-se as condições para a consecução de uma contínua expansão do trabalho excedente, esse modo de produção foi um diferencial relativamente aos anteriores, acabou também por suplantar as limitações da mais-valia absoluta, limitada à extensão da jornada de trabalhos e das próprias condições do esforço humano estabelece os limites de extração dessa modalidade. Como leciona Marx nos Manuscritos: “Admitamos, portanto, que a jornada de trabalho global tenha atingido seus limites normais. É somente então que se verá a tendência do capital a produzir mais valia, i.e., tempo de sobre-trabalho, nas suas modalidades particulares e características” (Marx 1979, p. 243). Quanto a mais-valia, teve sua epigênese nas intrínsecas formas de evolução do capitalismo, cujo objetivo era atacar a tendência de decrescimento da taxa de lucro, fenômeno inerente ao sistema (MARX, 2008), cuja ação, recai sobre a intensidade do trabalho em um mesmo determinado tempo, podendo ser gerada de duas formas, pelo método, que seria a organização ou pelos instrumentos, que são a tecnologias. Dialeticamente, por um lado tem-se como meta a redução do tempo de trabalho incorporado nos produtos, por outro, busca-se a efetivar a redução do tempo de trabalho incorporado na força de trabalho. O sistema capitalista tem como premissa uma integração econômica e tecnológica entre as empresas, objetivando a consecução da redução do tempo de trabalho, as empresas veem-se obrigadas a possuir em conta a tecnologia empregada em outras, dessa forma tendo por fim diminuir, cada vez mais, o tempo de trabalho incorporado à fabricação. O processo descrito induz uma necessidade maior de qualificação cuja diretriz é a execução de um de executar um trabalho mais complexo, a complexidade do trabalho despende uma quantidade de tempo de trabalho superior ao trabalho simples, assim como na demonstração de um teorema, implica o uso do trabalho complexo sua maior intensividade, tendo como produto, uma diferença qualitativa, que configura-se como o crescimento do componente intelectual do trabalho em detrimento do componente manual.

Dessa maneira, os capitalistas exploram dois componentes, sendo que nos primórdios do capitalismo, existia uma maior atribuição de importância do componente manual, no período atual vale a recíproca, caracterizando a nova forma assumida pela exploração calcada na mais-valia relativa (SANTOS, 1992).

O intento era buscar, ainda que de forma superficial e além disso, perquirir nas diversas questões atuais como a inovação, a mudança técnica, a ciência e tecnologia, conhecimento e trabalho intelectual, são passíveis de serem descritas com precisão científica sob a égide da obra marixana.

O que se conclui é que o trabalho manual vem perdendo espaço e relevância no contexto contemporâneo, contudo, o elemento principal é que o outro polo componente do trabalhador coletivo, o trabalho intelectual mostra-se diretamente associado a todas as mudanças, logo, o trabalho, em seu todo, não perdeu sua importância e relevância para a sociedade.

As preocupações de hoje já estavam na obra de Marx, contudo sendo que seu trabalho na economia política traz à baila, nos Grundrisse e os Manuscritos, sendo que a questão da inovação é muito presente em grande parte da obra de Marx, também é fulcro de dois fenômenos descritos na obra do pensador, a lei tendencial da queda da taxa de lucro e da lei geral da acumulação capitalista.

A lógica do sistema impele os capitalistas a aumentar suas taxas de lucro acima da taxa média, vão lançar mão da mudança técnica e da inovação para assegurar melhores condições técnicas de produção.

Questões ligadas à ciência e tecnologia são pontos que tem muitas sutilizas na teoria de Marx, uma vez que enveredam na seara do trabalho produtivo e improdutivo. Sob sua ótica, o pensamento marxiano direciona a discussão para o ponto em que tange o avanço das forças produtivas, e a maior produtividade e potencialidade na geração de valores-de-uso, ocorre uma liberação de um contingente, cada vez maior, de pessoas que possam se dedicar à produção de ciência e de outras atividades, como as artes. Contudo, este trabalho aplicado na ciência, quando transformado em modificações na base produtiva permitem o aumento da capacidade de geração de riqueza de uma sociedade. Logo, a ciência aplicada à tecnologia produtiva se torna uma fonte de riqueza.

Discorreu-se também sobre o atual paradigma produtivo, sobre o conhecimento e o trabalho intelectual, pode-se analisar o conhecimento como uma mercadoria, tendo como consequência, algo a ser produzido e que gere lucro. Corrobora com as descrições dos subciclos que descrevem a natureza intrínseca do trabalho-conhecimento como um objeto fetichista (REIS, 2001).  É possível traçar um paralelo entre o processo histórico de acumulação primitiva do capital com um de acumulação primitiva de conhecimento sob a égide da nova etapa da produção. Assim tal qual a cooperação foi um processo de subsunção real do trabalho em geral, destarte, a é a acumulação de conhecimento e apropriação dos meios necessários a geração de novos conhecimentos pode constituir-se em um ponto fundamental para a subsunção do trabalho intelectual ao capital, dando continuidade à sua lógica de expropriação sobre o trabalho, seguindo por um novo tipo de paradigma.

 

Bibliografia

SANTOS, O. J. (1992) – Escola e trabalhadores: o campo básico da prática dos trabalhadores. In: Pedagogia dos conflitos sociais. Papyrus. São Paulo.

REIS, R. G. A ciência como trabalho produtivo e o socialismo científico. Classe Operária. V. 203. P. 13.

MARX, Karl. Manuscrits de 1861-1863. Cahiers I a V. Paris: Editions Sociales, 1979.

_________. Manuscritos econômico-filosófico. Tradução Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2008.

*Renato Gomes dos Reis é membro do Comitê Municipal de Birigui-SP