A reunião contou com intervenções iniciais da secretária de Relações Internacionais, Ana Prestes, e do dirigente Raul Carrion, seguidas de debate e encaminhamentos. O objetivo foi “situar politicamente o Fórum” sobre o caráter e as implicações da conferência, que acabou ampliando seu escopo temático para o combate ao imperialismo.

A participação do PCdoB na 1ª Conferência Internacional Antifascista não foi tratada como evento isolado, mas como parte de uma estratégia mais ampla de disputa política no plano internacional. “Se o encontro trata do antifascismo, que é uma das nossas bandeiras centrais, precisamos estar presentes”, sintetizou Ana Prestes. 

A avaliação apresentada ao Fórum foi enfática: se os comunistas não priorizarem um evento com esse perfil, corre o risco de subestimar uma arena estratégica de disputa ideológica.

Participaram da reunião representantes de diversas frentes: movimento sindical, juventude, entidades do movimento negro, mulheres e outras organizações da sociedade civil vinculadas ao campo progressista.

Por que participar?

A orientação defendida foi clara: garantir presença política qualificada — espaços de fala nas mesas, visibilidade programática e intervenção nas redes — mesmo diante de restrições materiais.

A ex-vereadora Jussara Cony relatou que o evento enfrenta limitações financeiras — a prefeitura de Porto Alegre é bolsonarista, o governo estadual tem perfil neoliberal e o apoio federal é restrito — o que exige esforço militante.

Para potencializar a presença digital, a orientação é transformar intervenções nas mesas — serão nove ou dez, segundo os organizadores — em conteúdo para redes sociais, com cortes e ampla circulação. A conferência também coincide com o período de aniversário de 104 anos do PCdoB.

Antifascismo como eixo estratégico

Ana situou a conferência dentro de um cenário internacional marcado pela ofensiva da extrema-direita. Citou a força do bolsonarismo no Brasil e os riscos de retorno da ultradireita ao governo federal.

Segundo ela, o antifascismo não é apenas uma palavra de ordem, mas um eixo estruturante da atuação do Partido no plano internacional. O PCdoB participa de articulações como o Fórum Antifascista promovido pelo Partido Comunista da Federação Russa, iniciativas venezuelanas de caráter internacional e espaços multilaterais como o Foro de São Paulo.

Nesse contexto, a conferência em Porto Alegre seria oportunidade de:

Projetar posições do partido no debate global;

Ampliar conexões com organizações estrangeiras;

Reforçar campanhas de solidariedade internacional;

Atrair novos militantes e simpatizantes.

Porto Alegre e o simbolismo político

Ana sublinhou o peso simbólico de Porto Alegre, cidade que sediou a primeira edição do Fórum Social Mundial, em 2001.

O legado do Fórum Social Mundial, segundo ela, reforça o caráter internacionalista do encontro e amplia seu poder de atração. Em um contexto de tensões globais, disputas geopolíticas e radicalização da direita, eventos com esse perfil tendem a ganhar maior centralidade.

A dirigente também mencionou o impacto de medidas do governo de Donald Trump, especialmente na política externa e comercial, como fator de mobilização política no continente.

Solidariedade a Cuba entra na pauta

Embora a conferência antifascista fosse o tema central, Ana Prestes propôs que o Fórum também compartilhasse informes sobre a campanha de solidariedade a Cuba, diante do agravamento das dificuldades econômicas na ilha.

Segundo ela, há duas frentes principais de atuação:

Pressão política para ampliar o apoio do governo brasileiro;

Mobilização material via arrecadações organizadas por entidades como Cebrapaz, UNE e CTB.

Ela relatou reunião virtual com mais de 60 partidos e organizações internacionais, na qual dirigentes cubanos destacaram o dia 21 de março como data de mobilização internacional. A orientação é organizar presença solidária — “por mar ou por ar” — em Havana.

Países como México, Brasil, Colômbia e Uruguai estariam entre os prioritários na articulação diplomática.

De evento restrito a articulação anti-imperialista

A intervenção de Raul Carrion, integrante da Comissão Organizadora da conferência, contou com um relato de caráter político e organizativo: explicar como o perfil inicial do evento foi alterado a partir da atuação da militância comunista.

Segundo Carrion, a concepção inicial restringia o debate ao antifascismo sob a ótica de uma contraposição genérica entre “democracias” e “autocracias”. A decisão do PCdoB foi não se retirar, mas disputar o conteúdo político do encontro.

Carrion relatou que o primeiro movimento foi defender que não há debate consequente sobre fascismo sem abordar o imperialismo. A partir dessa intervenção, o nome do evento foi alterado, incorporando a expressão “pela soberania dos povos”. “O evento hoje é antifascista e anti-imperialista”, resumiu Carrion.

Mais que uma mudança semântica, a alteração implicou reconfiguração da programação:

Inclusão de mesa específica sobre o Brasil e a ameaça da ultradireita;

Criação de mesa anti-imperialista;

Inserção do tema dos trabalhadores;

Ampliação da presença de representações de Cuba e Venezuela.

Ampliação da presença comunista

Se inicialmente os comunistas não estariam representados nas mesas principais, agora contará com nove ou dez intervenções distribuídas ao longo da programação. 

Entre os destaques apresentados:

Mesa sobre solidariedade e luta anti-imperialista, com participação de Socorro Gomes e convidados internacionais como representantes da Venezuela e de centros de pesquisa críticos ao imperialismo;

Mesa sobre trabalhadores e enfrentamento ao neoliberalismo, com presença sindical;

Debate sobre o Brasil e a ameaça da ultradireita, com participação de Nádia Campeão;

Mesa sobre educação, ciência e tecnologia para a soberania, com participação da UNE e articulação para presença de quadros vinculados ao Ministério da Ciência e Tecnologia;

Conferência sobre Palestina, com representação diplomática palestina e debatedores ligados à causa.

Carrion enfatizou que o evento prevê aprovação de uma “Carta de Porto Alegre” e, possivelmente, um plano de ação internacional antifascista e anti-imperialista — não como nova organização, mas como articulação entre iniciativas já existentes, como o Foro de São Paulo.

Houve informe de realização de reuniões preparatórias em estados como São Paulo (dia 26, na capital) e Fortaleza. A orientação é estimular pré-conferências e atos de lançamento em outras regiões, ampliando a base social da iniciativa.

Também foi aprovada a realização de uma plenária virtual na semana anterior ao evento, reunindo todos os militantes confirmados. A referência evocada foi a experiência organizativa dos Fóruns Sociais Mundiais, nos quais reuniões diárias de coordenação garantiam coesão política.

Mesas autogestionadas: foco estratégico

Um dos pontos considerados estratégicos foi a proposição de duas mesas autogestionadas sob iniciativa comunista — atividades que dependem integralmente da mobilização dos próprios organizadores:

Venezuela e Cuba, reforçando a solidariedade e o enfrentamento às sanções;

Socialismo e alternativas ao imperialismo, reunindo partidos comunistas e fundações.

A disputa por locais e horários ocorre conforme a ordem de inscrição.

Ana Prestes foi enfática: mesas autogestionadas exigem público garantido, organização prévia e foco estratégico. A orientação é priorizar poucas iniciativas, evitando dispersão e esvaziamento.

Dimensão política do momento

No debate subsequente, foram sugeridas medidas práticas:

Circular nacional orientando a militância a participar;

Mobilização prioritária nos estados do Sul e Sudeste, pela proximidade geográfica;

Plenária virtual prévia com delegações do partido;

Organização visual (bandeiras, materiais e possível estande);

Produção de material próprio de comunicação para circular durante o evento.

Carrion acrescentou a proposta de um jornal ou boletim específico para distribuição na conferência, como instrumento de afirmação programática.

Disputar para transformar

A reunião evidenciou que a participação na conferência não é protocolar. Trata-se de uma postura política estratégica, que transformou um evento inicialmente limitado em espaço mais amplo de articulação anti-imperialista.

Ana Prestes ressaltou o respeito internacional acumulado por dirigentes comunistas no processo preparatório, o que amplia a capacidade de influência no encontro.

A síntese política da reunião aponta para uma estratégia ativa: disputar conteúdo, garantir visibilidade e transformar a Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos em palco de afirmação do projeto político comunista no cenário global contemporâneo.

(por Cezar Xavier)