Os mineiros costumam dizer que “quem não conhece Minas Gerais não conhece o Brasil”. No caso das disputas presidenciais, a frase pode ser ligeiramente ajustada: “Quem vence em Minas vence o Brasil”. Entre 1955 e 2022, todos os presidentes eleitos democraticamente venceram também em Minas Gerais – e foram nada menos que 12 pleitos. Por isso, há sete décadas, o segundo maior colégio eleitoral do País se orgulha de ser o estado-pêndulo da política nacional – uma espécie de “amostra da nação”.

Se essa tendência estatística se confirmar em 2026, o presidente Lula (PT) – que busca a reeleição – tem uma pequena vantagem. A mais nova rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta terça-feira (28/7), mostra Lula na liderança, com 30% das intenções de voto entre os eleitores mineiros. O senador Flávio Bolsonaro (PL) tem 29% – uma diferença dentro da margem de erro.

Já o ex-governador de Minas Romeu Zema (Novo) aparece isolado na terceira posição, com 12%, seu melhor desempenho entre as 27 unidades federativas do País. Os demais candidatos somam 9%. Há 11% de indecisos, além de 9% que dizem que votarão em branco, anularão o voto ou não votarão.

Na projeção de segundo turno, Lula está numericamente à frente de Flávio Bolsonaro (38% a 35%). Estatisticamente, há um empate técnico entre os dois candidatos. O equilíbrio é similar ao da eleição de 2022 em Minas, quando Lula venceu o pai de Flávio, Jair Bolsonaro (PL), por 50,21% a 49,79% dos votos válidos.

A pesquisa também reforça um desafio estratégico para a oposição. Apesar de aparecer competitivo nas simulações presidenciais, Flávio Bolsonaro ainda não conseguiu construir um palanque consistente em Minas, que se tornou o “calcanhar de Aquiles” do bolsonarismo. Além da indefinição sobre quem será seu candidato a governador, a situação é agravada por uma sucessão de crises nacionais que o isolaram politicamente, incluindo a perda de apoio de parte do Centrão.

Essa conjuntura torna a situação de Lula e do campo progressista mais favorável. Enquanto a direita se debate com a falta de um candidato viável para representá-la em Minas, a chapa de Lula se consolida na campanha. A melhor notícia, nesse sentido, é que a ex-prefeita de Contagem, Marília Campos (PT) – uma das maiores forças da nova política mineira –, lidera a corrida pelas duas vagas ao Senado. Seus índices variam de 18% a 20% das intenções de voto.

O dado mais revelador do potencial de sua candidatura, no entanto, está nas taxas de rejeição e conhecimento. De acordo com a pesquisa, 56% ainda não conhecem Marília no estado, indicando uma enorme margem de expansão à medida que a campanha oficial começar e apresentar suas propostas para o eleitorado mineiro. Além disso, ela marca apenas 19% de rejeição.

Marília está numericamente à frente do ex-senador Aécio Neves (PSDB), que tem 16%. No principal cenário, o que tem mais candidatos, há um múltiplo empate na terceira posição, entre Carlos Viana (PSD, 11%), Marcelo Aro (PP, 10%), Domingos Sávio (PL, 9%) e Eros Biondini (PL, 8%).

Uma das maiores “travas” históricas do campo progressista é justamente essa disputa. Minas Gerais jamais elegeu um senador filiado ao PT, embora o partido já tenha governado o estado (com Fernando Pimentel, entre 2015 e 2018) e vencido cinco das últimas seis eleições presidenciais em Minas. Além disso, o último senador mineiro eleito com o apoio direto do PT foi Hélio Costa (PMDB), em 2002.

Na corrida ao governo estadual, o deputado federal Patrus Ananias (PT) – que oficializou sua candidatura na última segunda-feira (27) – estreia em pesquisas da Quaest com 10% a 13% nos cenários testados, num cenário de empate técnico com outros postulantes. O desempenho de Patrus confirma a capacidade de competitividade do campo progressista em Minas.

Sua entrada na disputa também altera a configuração do campo progressista em Minas. Ex-prefeito de Belo Horizonte e ministro responsável pela implantação do Bolsa Família, ele reúne atributos que tradicionalmente dialogam com parcelas importantes do eleitorado mineiro, sobretudo nos grandes centros urbanos e nas regiões de menor renda. Como ainda inicia sua campanha, sua taxa relativamente baixa de rejeição sugere espaço para crescimento ao longo da disputa.

O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) permanece na primeira colocação com 35%, mas há uma indefinição em torno de sua candidatura. O parlamentar tem dado sucessivas declarações públicas indicando que pode desistir da eleição ao Palácio Tiradentes para permanecer no Senado. Caso essa decisão se confirme, a sucessão mineira será redesenhada, abrindo espaço para uma disputa ainda mais acirrada entre os demais candidatos.

A campanha de Patrus já apresenta um movimento de aceleração: ele figura como a principal alternativa da esquerda e do campo democrático, com potencial de atrair votos tanto do eleitorado lulista quanto de setores independentes que buscam um projeto de desenvolvimento social para o estado. A rejeição ao ex-ministro é baixa, o que amplia sua margem de crescimento nos próximos meses.

A pesquisa também revela que uma parcela expressiva do eleitorado permanece indecisa, enquanto brancos, nulos e eleitores que afirmam não saber em quem votar ainda representam um contingente significativo. O quadro reforça que a sucessão ao governo deverá ser fortemente influenciada pelo desempenho das campanhas nos próximos meses.

Mais do que fotografar o momento eleitoral, a pesquisa revela que Minas Gerais continuará ocupando posição central na disputa nacional de 2026. O estado combina uma sucessão estadual ainda indefinida, uma corrida ao Senado aberta e uma eleição presidencial extremamente equilibrada. Nesse cenário, Lula preserva competitividade no estado, Patrus entra na disputa pelo governo com espaço para crescer e Marília Campos desponta como um dos principais nomes na disputa pelas duas vagas ao Senado.

Realizada entre os dias 23 e 26 de julho, a pesquisa Genial/Quaest ouviu 1.482 eleitores em Minas Gerais. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número MG-03490/2026.