Em tom solene, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva interrompeu o fluxo do discurso na Convenção Nacional do PT, neste domingo (2), no Expo Center Norte, em São Paulo, para deixar registrado, de forma explícita e pública, o peso de uma conversa ocorrida há 37 anos com o saudoso João Amazonas. Ao usar a expressão “faço questão de reconhecer isso publicamente”, Lula resgatou um conselho de 1989 dado por Amazonas (1912-2002), então secretário-geral do PCdoB.

Naquele ano, quando Lula enfrentava momentos difíceis na campanha e pensava em desistir diante da queda nas pesquisas, foi o dirigente comunista quem o orientou a focar na classe trabalhadora e nas necessidades do povo simples. Essa decisão de priorizar quem mais precisa, em vez de tentar agradar às elites, não apenas garantiu a ida ao segundo turno naquela eleição histórica, mas lançou as bases para as transformações sociais que o Brasil vivenciou anos mais tarde, com a geração de empregos, a valorização do salário mínimo e a criação de programas de combate à fome.

A virada de chave sugerida por João Amazonas permitiu que Lula ultrapassasse Leonel Brizola por uma margem mínima e chegasse ao segundo turno contra o famigerado Fernando Collor de Mello.

“Falar diretamente para a classe operária”

Durante a convenção, deste domingo, Lula fez questão de citar as palavras exatas de João Amazonas. O presidente lembrou que o experiente líder comunista o incentivou a seguir em frente, afirmando que era preciso escolher o público e falar diretamente para a classe trabalhadora organizada. A lembrança demonstra como a orientação de Amazonas ajudou a moldar um projeto de país centrado na dignidade das famílias brasileiras.

A coerência do presidente ao reconhecer a inteligência tática do líder comunista vem sendo reafirmada ao longo de décadas. Em outubro de 2005, durante o 11º Congresso Nacional do PCdoB, Lula já havia detalhado essa conversa com grande emoção.

Naquela mesma oportunidade, Lula destacou que João Amazonas foi a primeira pessoa a convencê-lo de que a política exige a construção do possível por meio de alianças amplas. Para o trabalhador que busca melhores condições de vida, essa visão política pragmática e comprometida com a justiça social traduziu-se, ao longo dos mandatos progressistas, em políticas públicas concretas, expansão do acesso ao ensino superior, direitos trabalhistas e fortalecimento dos serviços públicos essenciais.

O ensinamento de Amazonas assentou-se em preceitos fundamentais: não abdicar da defesa dos trabalhadores, entender a política real para transformar a vida das pessoas e somar forças democráticas em favor do desenvolvimento nacional.