O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), em São José dos Campos (SP), para acompanhar a apresentação da Unidade Geradora de Energia Elétrica UGE 1000BR, movida pela turbina TR-5000 — o primeiro propulsor do mundo movido 100% a etanol. Desenvolvida em parceria com a empresa Aero Concepts e baseada na turbina TR-5000, a inovação coloca o Brasil no seleto grupo de apenas seis países que dominam o ciclo completo de produção de turbinas a gás, sendo o primeiro a adaptá-la integralmente ao combustível renovável.

O comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Marcelo Damasceno, destacou o caráter estratégico do projeto, classificando-o como uma tecnologia de “uso dual”. O mesmo conhecimento que permite o desenvolvimento de sistemas propulsivos para drones e mísseis de cruzeiro – essenciais para a dissuasão e defesa nacional – agora se materializa em um gerador compacto de 1.000 quilowatts (capaz de abastecer cerca de 3.600 residências), contido em um contêiner de 20 pés e pronto para ser deslocado a áreas remotas ou de calamidade.

O resgate histórico da indústria de defesa

Em seu discurso, Lula deu o tom analítico e político do evento, ancorando o avanço técnico em uma narrativa de soberania nacional. Ele enfatizou que a reconstrução da indústria nacional de defesa não visa a guerra, mas é um requisito indispensável para a manutenção de uma nação soberana dona do seu próprio nariz.

O presidente rememorou a “fragilidade melancólica” das Forças Armadas no início de seu primeiro mandato, citando a frota aérea precária (como os antigos “Sucatão”) e navios de pesquisa inadequados. Para ele, equipar as Forças Armadas não é um gasto, mas um investimento vital para proteger os 16.800 km de fronteiras secas, a vastidão marítima, o pré-sal e as riquezas minerais do país.

A linha do tempo da turbina TR-5000 reflete as idas e vindas das políticas de incentivo à tecnologia no país. O projeto teve início em 2006, durante o primeiro governo Lula, mas foi posteriormente paralisado. Ao retornar à presidência, ele questionou o andamento do motor e, ao saber que faltavam recursos, determinou o aporte de verbas para a sua conclusão.

O avanço foi viabilizado pelo investimento de R$ 134 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), integrado a um pacote de R$ 300 milhões destinados ao IAE em sua terceira gestão. Luiz Fernandes, representando o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), pontuou que o resultado só foi possível porque o governo federal proibiu o contingenciamento e o bloqueio das verbas do fundo. Fernandes ressaltou que a iniciativa faz parte de uma estratégia de autonomia para blindar o Brasil contra bloqueios tecnológicos internacionais.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, vislumbrou na inovação a solução ideal para os sistemas isolados de energia na Região Norte. Silveira apontou que o país gasta anualmente R$ 12,6 bilhões com óleo diesel para abastecer 196 localidades isoladas na Amazônia. A substituição do combustível fóssil pela turbina a etanol reduzirá drasticamente as emissões de carbono, gerando economia e utilizando a matriz limpa e renovável do agronegócio nacional.

“Não tem sentido um país do tamanho do Brasil não ter o suporte de ser dono do seu nariz”, afirmou Lula, enfatizando que a dependência de uma “vírgula de tecnologia” estrangeira deixa o país vulnerável a bloqueios e chantagens geopolíticas. A conquista da turbina a etanol foi apresentada como um antídoto a essa vulnerabilidade, equiparável em importância histórica ao desenvolvimento do avião Bandeirante, que deu origem à Embraer.

Energia limpa para a Amazônia e minerais críticos

Lula celebrou com orgulho a conquista científica obtida no Vale do Paraíba: “O Brasil passar a ser o sexto país a produzir turbina não é pouca coisa. E não é uma turbina qualquer, é uma turbina movida a etanol”. O presidente também mandou um recado claro sobre o futuro da exploração mineral no país, afirmando que o recém-criado conselho de minerais críticos e terras raras não permitirá que o Brasil seja mero exportador de matéria-prima: “Quem quiser explorar terras raras vai ter que fazer o processo de transformação aqui dentro”.

“Nós não queremos Forças Armadas para pagar aposentadoria. Queremos Forças Armadas para cuidar da soberania desse país”, bradou o presidente, destacando a necessidade de proteger os 16,8 mil quilômetros de fronteira seca, a Amazônia, as riquezas minerais e as reservas de petróleo na camada do pré-sal.

Escala industrial e independência global

O desenvolvimento do protótipo contou com a parceria da empresa brasileira Aero Concepts. Seu diretor de operações, Alexandre Roma, garantiu que a empresa está pronta para produzir o equipamento em escala industrial caso haja encomendas governamentais. Roma explicou que, no passado, o projeto sofria com a dependência externa de matérias-primas que suportam altas temperaturas (como superligas de níquel), mas que a empresa adquiriu insumos avançados da China para garantir a total independência fabril do motor.

O vice-presidente Geraldo Alckmin traçou um panorama histórico da industrialização do Vale do Paraíba. Alckmin comparou a potência fabril da região ao Vale do Ruhr na Alemanha e traçou um paralelo poético: assim como os lucros do café no século XIX germinaram a genialidade de Alberto Santos Dumont, a atual infraestrutura do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e da Embraer pavimentam o caminho para que a agroindústria eleve o Brasil à vanguarda da transição energética mundial.

(por Cezar Xavier)