Palácio Tiradentes, na Cidade Administrativa | Foto: Cristiano Trad

Há eleições que definem uma geração. E há eleições que definem se haverá geração alguma para ser definida. 2026 é essa eleição. Não é exagero retórico, não é alarmismo de campanha: é a leitura fria de um tabuleiro em que a extrema direita avança simultaneamente nas ruas, nos parlamentos e nas urnas do Brasil e do mundo, e que no dia 4 de outubro vai bater na nossa porta com força inédita.

Nesse cenário, Minas Gerais não é apenas mais um estado na conta eleitoral do presidente Lula. É o segundo maior colégio eleitoral do país, com quase 16 milhões de eleitores, historicamente capaz de definir presidências. Comer um pão de queijo e tomar um bom café na Nice, sim, define as eleições.

Minas é também o palanque mais complexo, fragmentado e mais urgente que o campo democrático precisa consolidar, e que, a menos de cinco meses do primeiro turno, ainda não tem nome definido para o governo do estado.

Para entender o tamanho do desafio, é preciso primeiro entender o que Romeu Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD) fizeram com Minas Gerais. Nos últimos oito anos, o estado foi transformado em vitrine nacional do neoliberalismo mais agressivo: um projeto sistemático de desmonte do Estado, privatização do patrimônio público e transferência dos custos do chamado “ajuste fiscal” para a população trabalhadora.

As principais estatais sofreram tentativas insistentes de privatização. Para remover qualquer obstáculo a esse projeto, Zema e Simões aprovaram, com apoio de sua base na ALMG, a PEC do Cala Boca, que retirou da Constituição Estadual a obrigatoriedade de consulta popular antes da venda de estatais. A dívida pública cresceu 63% nesse período, e o Propag, mesmo tendo sido um instrumento para barrar o regime de recuperação fiscal de Zema, aprofunda as privatizações e congela investimentos. A contradição é escancarada: o mesmo governo que diz não ter recursos para saúde, educação e valorização do funcionalismo acumula bilhões em renúncias fiscais para grandes empresários.

Na educação, o desmonte de Zema e Simões ganhou contornos simbólicos. O leilão das escolas, realizado na Bolsa de Valores de São Paulo, sintetizou em uma só imagem o projeto político deste governo: escolas públicas tratadas como ativos financeiros. A tentativa de militarização das instituições de ensino, derrotada nas assembleias escolares pela mobilização do movimento estudantil, reapareceu maquiada de transformação de escolas estaduais em Colégios Tiradentes, descaracterizando ambas as instituições de ensino. A Uemg e a Unimontes seguem sucateadas e sob pressão política direta — Simões chegou a ameaçar intervenção na nomeação da reitoria da Uemg, o que causou forte resistência da comunidade acadêmica neste período.

Regiões inteiras do interior permanecem abandonadas, marcadas por desigualdade estrutural e ausência de políticas de desenvolvimento. O modelo mineral opera como opera há décadas: sob a lógica do saque, com os lucros concentrados em grandes corporações e os impactos sociais e ambientais jogados nas costas do povo mineiro. Os crimes de Mariana e Brumadinho não foram esquecidos, e não podem ser. Minas Gerais não aguenta mais quatro anos desse modelo.

Do outro lado, além de Simões, ronda a sombra de Cleitinho (Republicanos): o populismo barato embrulhado em linguagem de buteco. O senador construiu sua imagem de “aliado do povo” defendendo o fim da escala 6×1, mas na primeira oportunidade real de provar isso assinou a PEC da escala 7×0, proposta articulada por Flávio Bolsonaro (PL) que na prática significa o fim da CLT com roupagem técnica.

Aliado de Nikolas Ferreira (PL), que também é contra o fim da escala 6×1, Cleitinho sabe muito bem de que lado está quando os direitos da classe trabalhadora entram em jogo. Hoje, oscila entre entrar ou não na disputa pelo governo estadual, e a tendência que se desenha é a de que ele não dispute.

Mas isso não simplifica o tabuleiro para o campo progressista: ao contrário, revela que a direita mineira se rearranja para montar um palanque ainda mais unitário entre si, enquanto nós ainda não temos resposta à altura. É justamente aí que mora o perigo. Uma disputa sem Cleitinho não é uma disputa mais fácil. É uma disputa em que a direita também está brigando, e com muitas incertezas, o que abre uma quadra histórica importante para o campo democrático. Nem mesmo Mateus Simões, candidato de Zema, conseguiu decolar apesar de toda a máquina sendo girada para isso.

É nesse contexto que a saída de Rodrigo Pacheco da disputa ao governo estadual representa muito mais do que a desistência de um nome: representa a explicitação de uma crise de construção política que o campo progressista precisa encarar de frente. Pacheco era o caminho mais óbvio, mais confortável. Sem ele, o campo democrático é forçado a fazer o que talvez devesse ter feito antes: construir uma candidatura de verdade, com enraizamento popular, capaz de disputar com a máquina que Zema e Simões vêm montando. Esse vácuo não é uma derrota, é um chamado. E a resposta precisa vir rápido, porque o tempo que o campo progressista perde se olhando no espelho é tempo que a direita usa para consolidar suas candidaturas, financiar sua estrutura e ocupar o espaço que estamos deixando vazio.

A batalha pelo Senado Federal é parte dessa mesma disputa e não pode ser tratada como questão secundária. O Intercept Brasil escancarou o plano em curso: a extrema direita tem o Senado como alvo prioritário, e com razão estratégica, pois quem controla o Senado controla a aprovação de ministros do STF, os julgamentos de impeachment e os limites do que qualquer governo pode ou não fazer.

Em Minas, as duas vagas precisam estar no centro da estratégia do campo popular e democrático. Garantir pelo menos uma delas é condição, não opção. E a ex-prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), precisa estar no centro dessa disputa, com trajetória, enraizamento popular e disposição para fazer o enfrentamento que o momento exige.

Mas é na briga pelo governo do estado que está o nó central da eleição mineira. Não existe palanque de Lula em Minas sem uma candidatura ao governo consolidada, competitiva e com capacidade de mobilizar o campo democrático para além das suas fronteiras habituais. Uma candidatura que saiba falar com o trabalhador de Betim, com o jovem de Montes Claros, com o agricultor familiar do Triângulo e com quem vive sob o risco das barragens. Isso não se constrói com acordos de cúpula de última hora nem com o nome que sobrou depois que os outros desistiram. Isso se constrói com uma frente ampla de verdade.

O campo democrático em Minas não vai vencer essa eleição para o governo do estado na base da divisão, com candidaturas ego-tripantes ou com a velha lógica do “eu ou o caos”. Vai vencer construindo uma frente que aglutine partidos, movimentos sociais, sindicatos, entidades estudantis, lideranças progressistas e setores do centro comprometidos com a democracia, capaz de apresentar um projeto concreto de reconstrução para Minas.

Essa Frente deve ser detentora de um projeto que recoloque o Estado como instrumento de desenvolvimento e proteção social, defenda as estatais estratégicas, amplie o investimento em educação pública e ciência, enfrente o modelo mineral predatório e reconstrua a esperança de regiões inteiras que Zema e Simões escolheram abandonar. A ampliação da bancada na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa de Minas é parte da mesma batalha, porque no Congresso que se vem, cada voto vai importar e cada cadeira vai pesar.

Minas Gerais está em disputa. O Brasil está em disputa. E essa não é uma eleição que se perde e depois se tenta de novo. O futuro é agora, e Minas tem papel central para a reeleição de Lula e para que seu governo seja capaz de realizar as mudanças estruturais que o Brasil precisa para garantir desenvolvimento soberano, justiça social e democracia de verdade.