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Enquanto a guerra em Gaza aprofunda a militarização da sociedade israelense, o Partido Comunista de Israel tenta reorganizar uma frente política capaz de impedir um novo governo de Benjamin Netanyahu e conter o avanço da extrema direita religiosa no país.

Em entrevista para o Portal Vermelho, a secretária de Relações Internacionais do partido, Reem Hazzan, afirma que a esquerda antiocupação vive hoje uma disputa pela própria sobrevivência política dentro de Israel, marcada por repressão policial, perseguições parlamentares, fechamento de sedes partidárias e tentativas crescentes de silenciar vozes críticas à guerra.

Segundo ela, o Partido Comunista de Israel (PCI) e a frente Hadash — coalizão política árabe-judaica de esquerda que reúne comunistas, setores antiocupação e movimentos por igualdade entre palestinos e judeus — tentam construir uma ampla articulação antifascista para barrar um novo governo liderado por Benjamin Netanyahu, Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich nas próximas eleições israelenses. 

Reem Hazzan, dirigente do Partido Comunista de Israel, durante mobilização com bandeira palestina em Haifa; Reem afirma que a repressão contra palestinos e setores antiocupação se intensificou após 7 de Outubro. Foto: Reprodução

“Precisamos isolar a direita — e não sermos isolados por ela”, afirma.

Para Reem, a guerra em Gaza aprofundou uma tendência política que já vinha sendo construída há décadas dentro de Israel: a normalização do militarismo, da supremacia étnica e da repressão contra a esquerda antiocupação.

“O fascismo cresce sobre o desespero”, afirmou. 

Segundo a dirigente comunista, tanto israelenses quanto palestinos passaram a viver sem qualquer horizonte político concreto.

“A população israelense já não consegue enxergar outra solução além da violência e do militarismo”, disse. “E a sociedade palestina está totalmente desesperançada porque também não vê horizonte político.” 

Netanyahu, Oslo e a destruição da solução política

Reem sustenta que Benjamin Netanyahu trabalhou sistematicamente, desde os anos 1990, para inviabilizar os Acordos de Oslo — assinados entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) com a promessa de construção de um futuro Estado palestino.

Segundo ela, o atual primeiro-ministro israelense compreendeu desde cedo que uma solução política para a questão palestina enfraqueceria o papel estratégico de Israel como principal aliado militar dos Estados Unidos no Oriente Médio.

“Netanyahu trabalhou sistematicamente para destruir Oslo, para destruir qualquer chance de paz”, afirmou. 

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A dirigente comunista argumenta que o fortalecimento do Hamas e das forças armadas de resistência palestina ocorreu em paralelo ao enfraquecimento deliberado das alternativas políticas e diplomáticas defendidas pela esquerda palestina e pela própria Autoridade Palestina.

“Ele trabalhou constantemente para aprofundar isso. E, dessa forma, fortaleceu o Hamas e as forças armadas de resistência, em vez de fortalecer a diplomacia e o processo político que a OLP e a Autoridade Palestina tentavam seguir”, afirmou. 

Segundo Reem, esse processo também contribuiu para o colapso da chamada esquerda sionista israelense.

Ela afirma que esses setores falharam em enfrentar a ocupação, os assentamentos e a guerra nos momentos decisivos.

“A esquerda sionista demorava muito para aderir às nossas posições contra a guerra”, disse. “Quando eles finalmente diziam ‘somos contra a guerra’, a guerra já tinha terminado.” 

PCI, Hadash e a frente antifascista

Reem explica que o Partido Comunista de Israel atua eleitoralmente através da Hadash, a Frente Democrática pela Paz e Igualdade, coalizão árabe-judaica presente na Knesset desde 1949.

“Nunca deixamos de ter representação”, afirmou. 

O deputado Ayman Odeh, uma das principais lideranças da Hadash, discursa no Parlamento israelense; parlamentares antiocupação relatam perseguições e tentativas de silenciamento após 7 de Outubro. Foto: Reprodução

Atualmente, a Hadash mantém três parlamentares na Knesset e busca reorganizar a chamada Lista Conjunta, aliança entre partidos árabes e antiocupação que chegou a eleger 15 deputados no passado.

Segundo Reem, o objetivo central da esquerda israelense hoje é impedir o retorno ao poder da coalizão formada por Netanyahu, Ben-Gvir e Smotrich.

“Hoje a principal prioridade é impedir que fascistas religiosos messiânicos continuem governando Israel, matando palestinos e reprimindo a esquerda e os palestinos dentro de Israel”, afirmou. 

Embora defina o Partido Comunista como antissionista, Reem afirma que a organização considera necessário construir alianças táticas com setores da esquerda sionista dispostos a combater a ocupação e os assentamentos.

“Se existem grupos da esquerda sionista que concordam conosco nesses pontos, então trabalharemos junto com eles”, disse. 

Candidatos da frente Hadash, coalizão ligada ao Partido Comunista de Israel, durante as prévias internas realizadas em maio de 2026; bloco tenta reorganizar a esquerda antiocupação para as próximas eleições israelenses. Foto: Reprodução

“Para um judeu israelense, isso significa enfrentar o que o Estado diz”

Ao falar sobre a organização interna do partido, Reem destaca que uma das características centrais do PCI é justamente a convivência política entre militantes palestinos e judeus antiocupação.

Segundo ela, o internacionalismo continua sendo um dos pilares da organização.

“Para um palestino é relativamente mais fácil ser comunista e antiocupação”, afirmou. “Mas é muito diferente para um judeu israelense enfrentar aquilo que o Estado inteiro diz que ele deveria apoiar.” 

Como exemplo, Reem cita Yoav Goldrin, membro do Comitê Central do Partido Comunista Israelense e da central sindical Histadruto, que participou da entrevista ao lado dela.

Militantes do Partido Comunista de Israel e da frente Hadash participam de ato. Foto: Reprodução

“Ele vem de uma família em que praticamente todos morreram na Shoah (extermínio de judeus perpetrado por Hitler na segunda guerra mundial). Mas, em vez de seguir o caminho do mainstream israelense e ir para o Exército, ele decidiu recusar o serviço militar, entrar para a juventude comunista e lutar ao nosso lado”, afirmou. 

Segundo Reem, uma nova geração de jovens militantes judeus e palestinos tem aderido à recusa do serviço militar obrigatório em Israel.

“Todos os nossos jovens camaradas recusam o serviço militar obrigatório”, disse. 

Repressão, interrogatórios e perseguição parlamentar

A dirigente do PCI afirma que a repressão contra comunistas e setores antiocupação se intensificou drasticamente após o início da guerra em Gaza.

Segundo ela, pela primeira vez na história, uma sede do Partido Comunista foi fechada por ordem policial.

“Nosso escritório em Haifa foi fechado para impedir a exibição do documentário ‘Jenin, Jenin’”, relatou. 

Ela própria foi detida para interrogatório, enquanto outros militantes do partido foram presos diversas vezes desde outubro de 2023.

“As histórias que circulam sobre tortura nos centros de detenção israelenses são verdadeiras”, afirmou. 

Reem também relata perseguições parlamentares contra deputados da Hadash dentro da Knesset.

“Nossos parlamentares recebem ameaças constantemente”, disse. 

Segundo ela, um dos deputados da bancada chegou a ser suspenso das atividades parlamentares, podendo apenas votar no plenário.

“Quando o preço do leite sobe, sobe para mim e para ele”

Para Reem, uma das maiores dificuldades da esquerda israelense hoje é romper as camadas de nacionalismo que encobrem os conflitos sociais dentro do país.

“A luta de classes fica encoberta por camadas de nacionalismo, religião e interesses imperialistas”, afirmou. 

Segundo ela, parte central do trabalho político do Partido Comunista consiste justamente em demonstrar que trabalhadores palestinos e judeus compartilham problemas materiais semelhantes.

“Quando o preço do leite sobe, sobe para mim e para ele”, afirmou. “Quando a universidade fica mais cara, isso atinge trabalhadores palestinos e judeus.” 

Apesar da radicalização da sociedade israelense e da repressão crescente contra a esquerda antiocupação, Reem afirma que o PCI continuará tentando disputar politicamente a sociedade israelense.

“Nós acreditamos que nosso principal papel é transformar a sociedade israelense: torná-la mais favorável à paz e menos favorável à guerra e ao militarismo”, afirmou.