Daiana Santos: “Nós não vamos recuar”
Em um Congresso ainda marcado por estruturas tradicionais de poder, a deputada federal Daiana Santos (PCdoB-RS) constrói sua atuação política a partir de outro percurso. Antes dos gabinetes, vieram a luta popular, o movimento comunitário, o movimento de mulheres e o movimento negro — espaços que continuam organizando a forma como ela exerce o mandato em Brasília.
“A agenda do trabalho e dos direitos das mulheres faz parte da minha trajetória política muito antes de chegar ao Congresso Nacional. Eu venho da luta popular, do movimento comunitário, movimento de mulheres, movimento negro”, afirma.
Daiana diz que o mandato se estrutura na escuta permanente de trabalhadoras, movimentos sociais e centrais sindicais. “Mulheres que estão na ponta enfrentando jornadas exaustivas, a desigualdade salarial e violência”, resume.
Ao fazer um balanço da atuação parlamentar, a deputada afirma que a principal marca do mandato tem sido transformar reivindicações históricas em iniciativas concretas dentro do Congresso.
“Hoje, fazemos um balanço muito positivo porque conseguimos transformar essas pautas em projetos concretos. Temos atuado fortemente na redução da jornada de trabalho, no enfrentamento à violência política de gênero, na defesa da igualdade salarial e na ampliação de políticas públicas para mulheres, especialmente mulheres negras, periféricas e LGBTI+.”
O trabalho como centro da disputa
Nos últimos meses, o debate sobre o fim da escala 6×1 recolocou os direitos trabalhistas no centro da política nacional. Na Câmara, Daiana ocupa posição estratégica nessa discussão: é 1ª vice-presidenta da comissão especial que debate as PECs 221/19 e 8/25, voltadas à redução da jornada de trabalho no Brasil.
Além disso, é autora do PL 67/2025, projeto com teor semelhante ao apresentado posteriormente pelo governo Lula: os dois textos preveem a adoção como teto da escala 5×2 e da jornada de 40 horas semanais, com dois dias de descanso e sem redução salarial.
Para a deputada, a discussão sobre jornada de trabalho precisa partir da realidade das mulheres brasileiras.
“Essa pauta é central para as mulheres trabalhadoras porque são elas que vivem a dupla e muitas vezes a tripla jornada. Nós sabemos que, no Brasil, cerca de 12 milhões de mulheres são mães solos e muitas dessas enfrentam essa escala desumana de trabalho.”
Segundo Daiana, existe uma sobrecarga invisível que continua recaindo majoritariamente sobre as mulheres.
“Além do trabalho formal, existe o trabalho doméstico, o cuidado com os filhos, com a família e com a casa, que ainda recai majoritariamente sobre as mulheres.”
Na avaliação da parlamentar, reduzir a jornada significa também disputar qualidade de vida e dignidade.
“Reduzir a jornada é garantir mais qualidade de vida, saúde mental, tempo de convivência familiar e dignidade.”
Seu projeto nasceu diretamente do diálogo com trabalhadores e movimentos sociais.
“O PL 67/25 nasceu justamente desse diálogo com centrais sindicais, movimentos sociais e trabalhadores do comércio e dos serviços. Nós construímos essa proposta ouvindo quem sente na pele os impactos da escala 6×1.”
Ela afirma que o mandato vem participando de seminários, audiências públicas, mobilizações e debates em diferentes estados para fortalecer a articulação em torno da proposta.
Hoje, a principal prioridade de sua atuação parlamentar é justamente a implantação da escala 5×2 no Brasil.
“Essa medida tem um impacto direto na vida das mulheres trabalhadoras, especialmente das mães solo, das trabalhadoras do comércio e das mulheres periféricas, que vivem jornadas desgastantes.”
Igualdade salarial e enfrentamento das desigualdades
Outra frente central do mandato está ligada ao debate sobre igualdade salarial. Daiana avalia que o avanço do projeto “Trabalho Igual, Salário Igual” representa uma tentativa de enfrentar desigualdades históricas presentes no mercado de trabalho brasileiro.
“O avanço desse debate é muito importante porque a desigualdade salarial entre homens e mulheres ainda é uma realidade no Brasil, e ela se agrava quando falamos das mulheres negras.”
O projeto busca combater desigualdades motivadas por gênero, raça, orientação sexual e identidade de gênero.
“Nós entendemos que não basta garantir o acesso ao mercado de trabalho; é preciso garantir condições dignas, igualdade salarial e valorização profissional.”
A deputada lembra que a proposta já foi aprovada na Comissão dos Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara e encaminhada para a Comissão do Trabalho. A expectativa agora é que o texto siga posteriormente para a Comissão de Constituição e Justiça.
A violência política como tentativa de expulsão
Ao falar sobre os desafios enfrentados pelas mulheres na política, Daiana aponta a violência política de gênero como um dos principais obstáculos para a ocupação de espaços de poder.
“Sem dúvida, a violência política de gênero é um dos maiores desafios. Muitas mulheres ainda são desencorajadas a ocupar espaços de poder porque enfrentam ataques, ameaças, deslegitimação e violência cotidiana simplesmente por serem mulheres.”
A situação se agrava quando envolve mulheres negras, lésbicas e periféricas. Como resposta, a deputada apresentou o PL 68/2025, que amplia medidas de proteção e apoio para mulheres em espaços de liderança política, sindical, comunitária e social.
Daiana afirma que a violência política não aparece apenas como debate teórico dentro do Congresso. Ela relata já ter sido alvo de ataques racistas, lesbofóbicos e ameaças de morte, especialmente nas redes sociais.
“Isso não afeta apenas emocionalmente; é uma tentativa de silenciar mulheres que ocupam espaços historicamente negados para nós.”
Na avaliação da parlamentar, a violência política de gênero opera como mecanismo de expulsão das mulheres da vida pública, “pelo medo, pelo constrangimento e pelo ódio”. Segundo ela, isso “impacta o cotidiano porque exige uma vigilância permanente sobre a nossa segurança e saúde mental”.
Política como permanência e enfrentamento
Ao longo da entrevista, Daiana retorna diversas vezes à ideia de dignidade — no trabalho, na vida das mulheres e também na política.
Sua atuação no Congresso parece organizada justamente nessa tentativa de aproximar a institucionalidade das experiências concretas de quem vive a desigualdade salarial, a precarização do trabalho e a violência cotidiana.
No fim da conversa, ao comentar os ataques que sofreu e o ambiente hostil enfrentado por muitas mulheres na política, a deputada mantém o tom de enfrentamento que atravessa toda a entrevista:
“Nós não vamos recuar. Seguiremos no enfrentamento e construindo mecanismos de proteção para que mais mulheres possam ocupar os espaços de decisão com dignidade e segurança.”




