A Copa do Mundo de 2026 caiu nas graças do povo à revelia das decisões da Fifa e da administração de Donald Trump. Encerrada a primeira fase no último sábado (27), o gigantismo inflado de um Mundial com 48 seleções e três países-sede não conseguiu sufocar o futebol. O que se viu em campo foi a fartura de partidas intensas, classificações dramáticas e uma média de quase três gols por jogo, patamar que o torneio não alcançava desde a mítica edição de 1958.

Enquanto Messi, Mbappé e Vinicius Junior cumprem o script e empurram suas seleções rumo ao título, o charme do torneio se consolida nas margens. A expansão do calendário para 72 partidas na fase inicial permitiu o acolhimento de seleções que carregam a identidade do Sul Global, gerando uma solidariedade continental nas arquibancadas.

Mas o Mundial-2026 já entrou para a história como um megaevento marcado pela exclusão. A Copa refletiu a promiscuidade entre os interesses da Fifa, presidida por Gianni Infantino, e a política migratória do governo Donald Trump. Em nenhum Mundial recente houve tantos relatos de barreiras impostas a atletas, membros de delegações, profissionais de imprensa e torcedores.

O pequeno arquipélago contra os gigantes

É nessa atmosfera que emergem os heróis involuntários, figuras que explicam as tensões do mundo contemporâneo com muito mais precisão do que os eventuais campeões. É o caso de Josimar José Évora Dias, o Vozinha, goleiro de Cabo Verde que alcançou a celebridade numa idade em que a maioria dos jogadores já se aposentou. Aos 40 anos e sem contrato fixo, o atleta iniciou a Copa carregando o orgulho de um arquipélago de apenas 530 mil habitantes.

Vozinha rodou por Angola, Chipre, Moldávia e Eslováquia, construindo a carreira no anonimato das ligas periféricas, longe do centro do futebol global. Sua certidão de nascimento o identifica como Josimar, nome herdado do lateral brasileiro que fez história no Mundial de 1986. O pai queria Valdano, em homenagem ao argentino do Real Madrid, mas o registro civil de Cabo Verde não aceitou. O apelido Vozinha, que se converteu em nome público, nasceu na infância e o acompanhou por toda a vida.

Sem nenhuma participação em Copas, Cabo Verde chegou à disputa como quem entra de penetra numa festa de milionários. Mas, logo no primeiro jogo, recuou para sobreviver, suportou a pressão da favorita Espanha e arrancou um surpreendente empate. A primeira zebra dessa edição foi comemorada como uma vitória nas ruas cabo-verdianas.

Após brilhar com defesas espetaculares, Vozinha virou um fenômeno de massas e angariou mais de 17 milhões de novos seguidores nas redes sociais. A consagração esportiva, contudo, revelou o drama humanitário dos bastidores. Quando o goleiro chorou na entrevista pós-jogo e contou que a mãe, Ana Cândida, estava proibida de entrar nos EUA devido às severas restrições impostas pela Casa Branca, o mundo prestou atenção.

A comoção pública e a mobilização política forçaram o Departamento de Estado a abrir uma exceção diplomática, permitindo que a mãe do atleta finalmente testemunhasse, da arquibancada, a classificação inédita de Cabo Verde. A imagem da família unida pelo futebol foi um dos momentos mais bonitos do torneio – e a exceção iluminou a regra.

Lumumba na Copa

O segundo símbolo desta Copa não precisou tocar na bola para fazer história. Michel Kuka Mboladinga, o “Lumumba Vea”, da República Democrática do Congo, apareceu ao planeta como uma estátua viva nos estádios da América do Norte. Vestido com terno nas cores do país, ele é um cosplayer de Patrice Lumumba, líder da independência congolesa e ex-primeiro-ministro. Lumumba foi executado em 1961, com ajuda da CIA, e seu corpo sumiu – o que, para Mboladinga, é um passivo que ainda rege a espoliação do Congo.

Pode parecer exótico ir a um estádio vestido como o principal líder político de seu país e permanecer como uma estátua viva, quase indiferente ao jogo, enquanto a torcida não para de se manifestar. Mas, desde a Copa Africana de Nações de 2025, Mboladinga recorre ao personagem para apoiar sua seleção e protestar durante as partidas. Agora, ele viajou ao Mundial a convite da própria delegação congolesa.

Enquanto a multidão gritava e consumia o espetáculo, ele lembrava que há sangue sob a história do futebol global. O impacto da performance cresce ainda mais porque o megaevento acontece nos próprios EUA, país que passou décadas interferindo politicamente na África e se envolveu no complô para eliminar Lumumba.

Sem cartazes nem discursos, sua presença foi um poderoso ato de memória e soberania, que remeteu à resistência anticolonial na África e à independência congolesa traída. No jogo entre Congo e Colômbia, Mboladinga cutucou a comunidade internacional, pondo simultaneamente dois dedos da mão direita na têmpora e a mão esquerda sobre a boca. Com o gesto, ele acusou o silêncio sobre as guerras e a espoliação no Congo.

Ao Wall Street Journal, Mboladinga explicou que sua imobilidade é uma forma de dar resistência emocional à equipe. “Assim como Lumumba sacrificou a própria vida pelo nosso país, minha imobilidade é um pequeno preço a pagar pela profunda preocupação que tenho com esta equipe”, afirmou.

Enquanto Vozinha teve sua história recompensada, a de Mboladinga acabou marcada por uma barreira. Os EUA negaram seu visto de entrada para o jogo decisivo do Congo contra o Uzbequistão, sob alegações sanitárias (o surto de ebola no país africano) que a Fifa preferiu ignorar. Se o torcedor mais famoso dessa Copa imobiliza o corpo para denunciar o silêncio, a Fifa imobiliza a própria voz diante do visto negado.

O Congo superou a ausência de seu mais célebre torcedor e se classificou pela primeira vez à segunda fase de uma Copa. Dentro ou fora do estádio, Mboladinga virou celebridade. Na África, foi tratado como herdeiro simbólico de Lumumba. Nas redes sociais, milhões de pessoas compartilharam sua mensagem de resistência.

A geopolítica em campo

A lista de heróis improváveis desta Copa é maior. Vale citar o árbitro Omar Abdulkadir Artan, primeiro representante da Somália numa Copa e eleito melhor juiz africano de 2025. Quando ele foi impedido de entrar nos EUA mesmo com visto válido, a Fifa, resignada, limitou-se a declarar que “não se envolve nos processos de imigração dos países-sede”.

O caso de Artan não foi isolado. Ao longo da Copa, relatos de restrições e constrangimentos envolvendo países hostilizados por Trump se multiplicaram, enquanto Infantino e os dirigentes da Fifa preferiam tratar cada episódio como mera questão burocrática.

A postura invariavelmente omissa da entidade enterra definitivamente o mito de sua independência. O histórico já incluía convivência com regimes autoritários, da Itália fascista em 1934 à ditadura argentina em 1978. Ainda assim, a Fifa preservava a imagem de instituição capaz de circular acima das fronteiras tradicionais da geopolítica.

Com 211 associações afiliadas, a Fifa se orgulhava de reunir mais membros do que a ONU (Organização das Nações Unidas). Dentro dessa engrenagem, até países periféricos, como o Brasil, conseguiam eventualmente exercer influência concreta. Tudo isso parece ter ficado para trás. A proximidade institucional e financeira com Washington expôs um grau de alinhamento inédito ao poder da nação anfitriã.

Na Copa da diáspora, da exclusão e das fronteiras vigiadas, a resistência se fez nas traves com Vozinha e no cimento das arquibancadas com Mboladinga. Diante de tentativas políticas de reduzir nações inteiras a meras estatísticas ou mão de obra, os heróis improváveis do Mundial-2026 demonstraram que o colonialismo nunca saiu completamente de campo. Mas o futebol ainda preserva a força de expor as fraturas do planeta.