Foto: divulgação

Com apenas 33 anos, Giovana Mondardo já tem dois mandatos de vereadora por Criciúma, em Santa Catarina, e uma longa trajetória de lutas. Na mais recente disputa eleitoral, foi a mais votada da cidade. Ela é daquelas lideranças políticas que cativam por trazer consigo a energia própria dos jovens, a sagacidade das mulheres e a força centenária dos comunistas — uma mistura que não se deixa intimidar frente às investidas da extrema direita. Agora, ela quer continuar essa luta em outra frente: a Câmara dos Deputados.

“Eu tenho dito que faço parte de uma nova geração de políticos catarinenses e acho que é fundamental o processo da renovação dos quadros, tanto em Santa Catarina quanto no Brasil, inclusive para enfrentar o momento atual”, salienta Giovana, nesta entrevista ao site do PCdoB.

Única vereadora de esquerda não apenas na Câmara Municipal de Criciúma, mas no Sul do estado — que segundo ela, não “é” mas “está conservador” — Giovana aprendeu, em seu cotidiano, a lidar com a extrema direita. “A gente vê que muitas vezes eles são violentos e amedrontadores mesmo, mas eu acho que essa condição aconteceria com qualquer um que tivesse as nossas ideias e pensamentos na Câmara de Vereadores— e neste momento, essa pessoa sou eu”, diz.

Mesmo num cenário adverso, seu mandato aprovou 40 leis e Giovana vem se notabilizando tanto por seu trabalho na autoria de projetos como, também, na fiscalização da cidade e na disputa de ideias. “Acho que a coragem é imperativa para quem se coloca à disposição para ser representante das forças populares em Santa Catarina”, argumenta com a tranquilidade de quem sabe que está do lado certo da história.

Confira abaixo os principais trechos da conversa.

Atuação na Câmara de Criciúma

“Sou a única vereadora de esquerda do Sul de Santa Catarina, onde fica Criciúma. Esse é um grande desafios: somos poucos na região. Ainda assim, este é o meu segundo mandato. Fui reeleita como a vereadora mais votada na última eleição, numa cidade conhecida por ser bastante conservadora.

Mesmo assim, a gente conquistou relevância e atribuo isso a alguns elementos. O primeiro, é a entrega: a gente tem mais de 40 leis aprovadas, boa parte voltada para defender as mulheres. Além disso, temos uma atuação muito presente de fiscalização nas comunidades e em toda a cidade, assim como desempenhamos papel importante na disputa de narrativa nas redes sociais.

Eu tenho dito que faço parte de uma nova geração de políticos catarinenses e acho que é fundamental o processo da renovação dos quadros, tanto em Santa Catarina quanto no Brasil, inclusive para enfrentar o momento atual”.

Santa Catarina e o conservadorismo

“Somos de esquerda num estado que ‘está’ conservador, o que atribuo ao período histórico que vivemos. Afinal, SC foi central para a consolidação do MST; foi o berço de Antonieta de Barros (primeira mulher negra eleita deputada estadual no País em 1934) e da revolucionária Anita Garibaldi. Também foi o estado que, em 2002, proporcionalmente deu mais votos para a primeira eleição do presidente Lula.

Atualmente, o estado passa por um momento de maior alinhamento com a direita e principalmente de uma disputa muito séria de consciências e de narrativas. E eu tenho me dedicado a fazer também essa disputa.

Nunca me concentrei somente no trabalho estrito de vereadora, mas também tenho me dedicado ao trabalho de dirigente partidária e, mais do que isso, me posiciono como uma catarinense que almeja que o seu estado seja melhor um dia. E poder fazer essa disputa de consciência nessa quadra histórica provavelmente é o principal desafio neste momento.

Nesse cenário, procuro lidar com a extrema direita no campo das ideias. A gente vê que muitas vezes eles são violentos e amedrontadores mesmo, mas eu acho que essa condição aconteceria com qualquer um que tivesse as nossas ideias e pensamentos na Câmara de Vereadores— e neste momento, essa pessoa sou eu. Por isso, acho que a coragem é imperativa para quem se coloca à disposição para ser representante das forças populares em Santa Catarina”.

Governo Jorginho Mello

“Para além do parlamento local, é preciso dizer que o governo de Jorginho Mello (PL) é o pior do Brasil. Ele que não conversa com o presidente da República e não se dispõe sequer a mandar um representante nas visitas de Lula ao estado, nem que seja para reivindicar aquilo que é estritamente necessário para o desenvolvimento de Santa Catarina. Ou seja, o compromisso dele é com o próprio projeto de reeleição e com a família Bolsonaro.

E vale dizer que ele é muito ‘submetido ao espírito do tempo’ — porque o Jorginho Mello já transitou em outros ambientes da política e já esteve ao lado da presidenta Dilma Rousseff. Ele é o que a gente chama de camaleão político que, agora, está na extrema direita para tentar fazer com que seu projeto pessoal e individual se consolide.

Além disso, é um governador que deixa de investir em bilhões em educação básica, é totalmente descomprometido com um projeto de desenvolvimento para Santa Catarina e que tem memória curta. Santa Catarina é pujante e referência como a menor taxa de emprego do país porque tivemos investimentos substanciais nas empresas catarinenses. No último período, cerca de R$ 5 bilhões de capital privado foram investidos no estado, ou seja, que não é por conta do governo dele que o estado se desenvolveu nesse campo”.

Foto: Câmara Criciúma

Pré-candidatura à Câmara dos Deputados

“Acho que um dos pontos que me dá boas condições para entrar nessa disputa é justamente a atual representação desqualificada do estado de Santa Catarina no Congresso Nacional. Na Câmara, dos 16 deputados, apenas dois são do campo de esquerda e essa sub-representação faz com que a gente perceba, inclusive, o impacto que isso causa no dia a dia do desenvolvimento do nosso estado.

Somente na região Sul, temos 33% de deputados federais do estado — só da minha cidade são quatro. E nenhum deles se propõe a se comunicar com o governo federal para sanar os problemas da região. Dito isso, eu entendo que essa sub-representação — do ponto de vista da qualidade dos mandatos — é o que faz com que a gente fique atrás no que diz respeito ao desenvolvimento do estado. Considerando tudo isso, eu quero ser a ponte de comunicação entre o governo do presidente Lula e a região Sul do estado e ajudar a resolver os problemas da minha região”.

Trabalhadores, mulheres e juventude

“Além dessas questões, quero representar a defesa de uma pauta popular, a favor dos trabalhadores e das mulheres, em especial nesse momento grave que vivem as brasileiras. Quero lutar contra o rebaixamento das políticas públicas e apresentar propostas mais substanciais. Não é natural essa onda de feminicídio assolando o Brasil e a gente precisa constituir novas e melhores propostas não só legislativas, mas também no sentido de estabelecer incentivos e arranjos necessários para superar a violência e a cultura do machismo.

Ao mesmo tempo, quero também representar a juventude. Um dos desafios é o de olhar para educação não só como uma forma de permitir o acesso ao ensino superior, mas também de criar condições para que esses jovens deixem o mercado precário de trabalho. É preciso dar condições para a gente colocar dinheiro no bolso e comida no prato, mas principalmente qualidade de vida e desenvolvimento social para os jovens”.

Enfrentar o sequestro do orçamento

“O presidente Lula conseguiu estabelecer um novo tempo no Brasil, com mudanças econômicas e sociais importantes. Por isso, entendo que parte dos nossos principais desafios está no Congresso Nacional. A gente está vivendo um momento em que o sequestro do orçamento pelo Congresso tem inviabilizado o presidente Lula de implantar uma agenda popular e progressista mais profunda porque o governo acaba, muitas vezes, ficando submetido às chantagens do Congresso — foi o caso da tentativa de troca da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil pela anistia aos golpistas.

É preciso mostrar à sociedade que essa mudança na condução do orçamento — que aconteceu no governo de Michel Temer (MDB) e que se fortaleceu no governo de Jair Bolsonaro (PL) — impacta diretamente na implantação de uma agenda progressista e popular, capaz de estabelecer um novo projeto nacional de desenvolvimento para o Brasil que melhore a vida das pessoas. Não é natural que um deputado muitas vezes tenha mais dinheiro disponível via emendas do que um ministério. Isso é distópico. Não dá para aceitar que o Congresso Nacional negocie com o projeto que foi eleito nas urnas para executar as políticas públicas que o Brasil precisa.

Acho também que outro importante desafio é a disputa de narrativa. E certamente a guerra cultural que a gente vive terá desdobramentos muito sérios no período eleitoral. Eu entendo que as questões econômicas vão ser protagonistas e acredito que o governo do presidente Lula já esteja dando condições para que a gente possa superar esse momento, virar essa página e colocar a extrema direita na lata de lixo da história”.