Dois anos depois, privatização da Sabesp acumula críticas
Explosão no Jaguaré foi apenad um dos graves acidentes causados pela nova Sabesp
A nova edição do Entrelinhas Vermelhas, exibida nesta quinta-feira (2), recebe o presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo), José Faggian, para fazer um balanço de quase dois anos da privatização da Sabesp promovida pelo governo Tarcísio de Freitas. Em entrevista ao apresentador André Cintra, o dirigente sindical sustenta que as promessas de redução de tarifas, melhoria dos serviços e universalização do saneamento não se concretizaram.
Segundo Faggian, a companhia foi privatizada apesar de apresentar lucro, elevada cobertura dos serviços e capacidade de cumprir as metas de universalização previstas para 2033. Na avaliação do dirigente, o objetivo central da operação foi ampliar a rentabilidade para investidores privados.
Assista a íntegra da entrevista:
Demissões, terceirização e aumento dos acidentes
Um dos principais temas da entrevista é o impacto da privatização sobre os trabalhadores. De acordo com Faggian, a Sabesp possuía aproximadamente 12,5 mil empregados próprios quando começou o processo de venda. Após sucessivos programas de demissão voluntária, quase metade do contingente deixou a empresa, sendo substituído apenas parcialmente por novas contratações e pelo avanço da terceirização.
O presidente do Sintaema associa essa redução do quadro à deterioração das condições de trabalho e ao aumento de acidentes graves registrados nos últimos meses, incluindo explosões, mortes de trabalhadores e ocorrências envolvendo redes de gás. Segundo ele, faltam treinamento, equipamentos adequados e pessoal experiente para executar atividades consideradas de alto risco.
Lucros crescem enquanto serviço é alvo de críticas
Outro ponto destacado é a mudança na lógica de gestão da companhia. Conforme o dirigente sindical, enquanto o lucro anual da empresa teria saltado de cerca de R$ 3 bilhões para aproximadamente R$ 9 bilhões, aumentaram também as reclamações sobre falta d’água, qualidade do abastecimento, atendimento aos consumidores e reajustes tarifários.
Faggian afirma ainda que os salários da alta administração cresceram significativamente após a privatização, contrastando com a redução da participação dos trabalhadores na riqueza produzida pela empresa.
“Enel da água” e preocupação com novas tarifas
Durante a conversa, o presidente do sindicato compara a situação da Sabesp ao desempenho da concessionária de energia Enel, afirmando que a empresa caminha para reproduzir problemas semelhantes de atendimento e qualidade dos serviços. Ele também alerta para possíveis reajustes mais elevados nas tarifas de água a partir de 2027, em razão das novas regras de remuneração dos investimentos previstas após a privatização.
Na avaliação do dirigente, os efeitos mais intensos da mudança de controle ainda deverão ser sentidos pela população nos próximos anos.
Debate nacional sobre o futuro do saneamento
A entrevista amplia a discussão para além de São Paulo. Faggian argumenta que diversos países vêm retomando o controle público dos serviços de saneamento após experiências malsucedidas de privatização e critica o avanço do modelo privatista no Brasil, citando processos em diferentes estados.
Ao encerrar o programa, o sindicalista defende que o debate sobre empresas públicas e privatizações ocupe lugar central nas eleições deste ano, sustentando que a experiência da Sabesp deve servir de referência para a população avaliar diferentes projetos para o Estado brasileiro.
(por Cezar Xavier)

