A filha e outros familiares receberam por Aurélio, com saúde debilitada, o troféu e homenagens

A 9ª edição do Dia da Luta Operária, celebrado nesta quinta-feira (9) em São Paulo, transcendeu a data cívica para se tornar um ato de resistência histórica e pauta urgente. Reunidas no edifício Getúlio Vargas, sede do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados (SindPD), as principais centrais sindicais do país prestaram homenagem a figuras centrais da militância trabalhista e debateram os rumos da classe obreira em um cenário de ofensiva conservadora.

O encontro foi organizado pelas centrais sindicais CSB, CUT, Força Sindical, União Geral dos Trabalhadores (UGT), Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST) e Intersindical –, com o apoio e participação do Centro de Memória Sindical, Instituto Astrojildo Pereira, Oboré, IIEP e do mandato do deputado estadual Antonio Donato (PT-SP), além de música ao vivo pelo grupo MPB Show.

O Troféu José Martínez: memória e cultura

O ponto alto da cerimônia foi a entrega do Troféu José Martínez, busto em bronze criado pelo artista Enio Skeff. A honraria foi conferida à família de Aurélio Peres. Metalúrgico e ex-deputado federal do PCdoB/SP, Peres foi uma figura central nos movimentos sociais, articulando a resistência contra a ditadura militar e a organização das bases católicas e operárias na periferia de São Paulo. Devido a problemas de saúde, Peres não pôde comparecer, mas sua filha representou a família no palco, emocionada com o reconhecimento da trajetória do pai.

Aurélio Peres teve sua trajetória reverenciada como uma das mais inspiradoras do sindicalismo de base. Ele despontou na década de 1970 na Zona Sul de São Paulo através da Pastoral Operária e como coordenador central do histórico Movimento Contra a Carestia (Custo de Vida). Eleito deputado federal pelo MDB, combateu firmemente a ditadura militar e participou da campanha das Diretas Já. Demonstrando um desprendimento raro, Peres retornou ao trabalho direto nas fábricas como operário após o término de seu mandato parlamentar.

A ex-deputada Ana Martins, que conheceu Aurélio em 1962, prestou um depoimento comovente sobre o homenageado: “O Aurélio foi seminarista, estudou teologia e filosofia, mas preferiu não ser padre para não se enquadrar na tradição conservadora. Ele ajudou o povo das periferias a entender o que era a ditadura por meio das lutas cotidianas”, relembrou, convocando os militantes mais jovens a visitarem as lideranças que pavimentaram o caminho dos direitos atuais.

A outra distinção máxima da noite foi para a cartunista e quadrinista Laerte Coutinho. Reconhecida por sua produção entre 1977 e 1986, que forneceu o imaginário visual para a comunicação sindical durante a redemocratização, Laerte enviou uma mensagem em vídeo agradecendo a homenagem e dedicando o prêmio aos colegas da Oboré. A premiação de Laerte foi celebrada pelas lideranças como um passo corajoso de oxigenação e combate ao machismo dentro do próprio ambiente sindical.

O contraponto operário ao feriado tradicional

Conforme lembrado pela mestre de cerimônias Mônica Veloso (vice-presidente da CNTM) e pelo deputado estadual Antônio Donato, a data de 9 de julho foi instituída oficialmente no calendário municipal pela Lei 16.634/17. A legislação nasceu para homenagear o centenário da Greve Geral de 1917 e o jovem sapateiro anarquista José Martínez, assassinado por forças policiais exatamente em 9 de julho daquele ano.

Nas palavras de Donato e de Antônio Neto, a celebração opera como um contraponto histórico e político fundamental: enquanto setores tradicionais paulistas celebram a derrota oligárquica de 1932, a classe trabalhadora ocupa o espaço público para disputar a narrativa e homenagear quem deu a vida pela redemocratização e pelos direitos sociais.

Neto abriu os discursos destacando o simbolismo do local. “Enquanto a direita e o exército celebram a tentativa de derrubada de Getúlio em 32, nós estamos aqui celebrando a memória da classe operária”, afirmou Neto, citando a necessidade de preservar a história para garantir a liberdade.

O deputado Antônio Donato reforçou o caráter de disputa narrativa da data. “Propus o dia da luta operária como um contraponto à celebração da oligarquia paulista”, explicou Donato, anunciando o desejo de transformar a data em um grande festival no próximo ano, quando a data completa sua décima edição.

A atualidade da luta operária foi trazida pelo historiador José Luiz Del Roio e pelo deputado Carlos Zaratini (PT). Ambos ligaram a greve de Chicago de 1886 à demanda contemporânea pelo fim da escala 6×1 e pela jornada de 40 horas semanais. “A redução do horário de trabalho é uma luta constante. A correlação direta daquela luta é o 5×2 de hoje”, defendeu Del Roio. Zaratini reforçou que a vitória na Câmara foi apenas o início de uma batalha que exige mobilização nas ruas.

Este ano, o evento também celebrou os 140 anos da Greve de Chicago (1886), nos EUA, origem do Dia Internacional do Trabalhador (1º de Maio), conectando o passado ao presente na luta pela redução da jornada de trabalho.

Sede da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), em São Paulo

Liberdade de Expressão e Unidade

O dirigente do PSTU, Zé Maria de Almeida, também homenageado, utilizou sua fala para denunciar o que classificou como ataques à liberdade de expressão, citando sua recente condenação judicial por críticas ao governo de Israel, e alertou sobre projetos de lei que tentam criminalizar greves. “Defender o direito de expressão é condição fundamental para organizar a luta da classe trabalhadora”, ponderou.

A cerimônia dedicou espaço para honrar, de forma póstuma, figuras que marcaram época nas entidades trabalhistas:

  • Nair Goulart (1951-2016): Primeira mulher a integrar a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de SP e a Secretaria de Mulheres da Força Sindical. Seu prêmio foi entregue por Ricardo Patah (UGT) ao filho de Nair, Thiago.
  • Rubens Romano (1930-2022): Emblemático presidente do Sindicato dos Comerciários de SP e fundador da Força Sindical, lembrado por sua busca constante pelo consenso. A homenagem foi conduzida por Renato Zulato (CUT).
  • Valdemar Rossi (1933-2016) e Célia Rossi (1941-2022): Casal símbolo da oposição sindical metalúrgica e das Comunidades Eclesiais de Base. Seus filhos relembraram o momento histórico em que Valdemar desafiou a censura e denunciou a tortura da ditadura diretamente ao Papa João Paulo II em 1980.
  • Paulo Frateschi (1950-2025): Sindicalista e fundador do PT. O ex-deputado Adriano Diogo deu um forte depoimento sobre o período em que dividiram a cela no DOPS sob o julgo do regime militar.
  • Idibal Piveta (1931-2023): Advogado que defendeu dezenas de presos políticos e que, sob o pseudônimo de César Vieira, comandou o Teatro União Olho Vivo, levando cultura às periferias.

O evento foi permeado por apresentações musicais que evocaram a resistência cultural, incluindo clássicos de Chico Buarque como “Construção” e “Cálice”, reafirmando que, 109 anos após a morte de Martínez e 140 anos após Chicago, a pauta do trabalhador segue viva e em disputa.

(por Cezar Xavier)