BYD Shenzhen parte da China com mais de 7.000 veículos rumo ao mercado brasileiro. Foto: Divulgação BYD

Durante décadas, comprar um automóvel novo no Brasil significou aceitar uma realidade aparentemente imutável: preços elevados, poucos modelos realmente acessíveis e reajustes constantes acima da inflação. Essa lógica começou a ser rompida com a rápida expansão das montadoras chinesas, sobretudo nos segmentos de veículos elétricos e híbridos.

A entrada de fabricantes como BYD, GWM, Geely, MG e outras alterou profundamente a dinâmica do setor. Em vez de apenas disputar participação de mercado, elas passaram a questionar a própria estrutura de preços da indústria instalada no país.

O resultado aparece nas concessionárias. Montadoras tradicionais reduziram preços de diversos modelos, ampliaram bônus na troca de usados, aumentaram descontos e iniciaram uma verdadeira guerra comercial para preservar clientes. O movimento rapidamente atingiu também o mercado de seminovos, onde veículos passaram a ser vendidos abaixo da Tabela Fipe para evitar acúmulo de estoques.

Depois de anos de aumentos sucessivos, o consumidor brasileiro finalmente passou a ver uma rara combinação de maior oferta, descontos relevantes e concorrência efetiva.

Como o Brasil deixou de ter carros populares

Até meados da década passada, o mercado brasileiro possuía uma ampla oferta de veículos de entrada.

Modelos compactos custavam o equivalente a pouco mais de vinte salários mínimos e representavam a principal porta de entrada da classe média para o automóvel zero-quilômetro.

Essa realidade desapareceu.

Hoje praticamente não existem carros automáticos abaixo de R$ 100 mil, enquanto os modelos mais simples já superam facilmente R$ 80 mil. O chamado “carro popular” praticamente deixou de existir.

Essa transformação decorre da combinação de diversos fatores.

O primeiro deles é a elevada carga tributária. Dependendo do modelo, entre 30% e 50% do preço final corresponde a impostos diretos e indiretos, incluindo IPI, ICMS, PIS/Cofins e outras incidências ao longo da cadeia produtiva.

Mas a tributação explica apenas parte do problema.

O peso do custo logístico e da cadeia produtiva

Produzir automóveis no Brasil continua sendo uma operação cara.

A indústria convive com logística predominantemente rodoviária, fretes elevados, energia mais cara, burocracia regulatória, elevado custo financeiro, tributação complexa, encargos sobre a folha salarial e forte dependência de componentes importados.

Além disso, diversos insumos — como aço, alumínio, semicondutores, borracha e componentes eletrônicos — são cotados em dólar. Sempre que o real se desvaloriza, o custo industrial aumenta.

Nos últimos anos também cresceram as exigências legais relativas à segurança veicular, controle de emissões e eficiência energética. Para as montadoras, tornou-se inviável produzir veículos de entrada com margens aceitáveis diante de tantos impostos e exigências tecnológicas. O resultado é um encolhimento do mercado: o tíquete médio de um carro de passeio saltou de R$ 72 mil em 2017 para mais de R$ 150 mil atualmente, tornando o automóvel um bem de luxo inacessível para a renda média do trabalhador brasileiro.

Itens como controles eletrônicos de estabilidade, múltiplos airbags, sistemas eletrônicos de assistência e motores mais sofisticados elevaram o custo mínimo de fabricação dos veículos.

Como consequência, as montadoras passaram a abandonar modelos extremamente baratos, cuja margem de lucro se tornou insuficiente para justificar sua produção.

Mas já houve declarações polêmicas de executivos dizendo que alguns produtos são absurdamente mais caros no Brasil “porque o brasileiro paga”. As empresas praticam o chamado posicionamento por preço (precificação aspiracional). Elas cobram mais caro no Brasil porque o produto é visto como um símbolo de status, e o consumidor local aceita pagar esse “prêmio”. Contudo, a estrutura tributária, produtiva e logística brasileira serve como a base que justifica e amplifica esse valor final elevado.

Pouca concorrência sustentou preços elevados

Outro fator importante foi a própria estrutura concorrencial do mercado brasileiro.

Durante muitos anos, poucas montadoras concentraram grande parte das vendas nacionais.

Embora competissem entre si, operavam em um ambiente relativamente protegido por tarifas de importação elevadas e por barreiras regulatórias que dificultavam a entrada de novos fabricantes.

Na prática, isso reduziu a pressão para cortes agressivos de preços.

Ao mesmo tempo, o consumidor brasileiro acostumou-se a pagar valores elevados por veículos com menor conteúdo tecnológico quando comparados a modelos vendidos em mercados mais competitivos.

Em vários casos, automóveis produzidos no próprio Brasil passaram a ser comercializados por preços menores no Paraguai, Chile e outros países da região, beneficiados por sistemas tributários mais simples e ambientes de maior competição. Não se exportam impostos. Ao sair do país, o veículo é desonerado de IPI, ICMS, PIS e Cofins. Se um consumidor tentar trazer esse mesmo carro de volta ao Brasil, ele será tributado novamente com Imposto de Importação (35%), IPI, ICMS e PIS/Cofins, fazendo o preço final mais do que dobrar.

O modelo chinês mudou as regras do jogo

A competitividade das montadoras chinesas não decorre apenas de incentivos públicos.

Grande parte da vantagem vem da escala de produção.

A China tornou-se o maior fabricante mundial de automóveis e desenvolveu uma cadeia produtiva altamente verticalizada, produzindo internamente baterias, motores elétricos, semicondutores, sistemas eletrônicos e boa parte dos componentes utilizados em seus veículos.

Essa integração reduz custos logísticos, elimina intermediários e permite ganhos expressivos de produtividade.

Outro diferencial está na velocidade de desenvolvimento dos produtos.

Enquanto fabricantes tradicionais trabalham com ciclos relativamente longos de renovação, empresas chinesas atualizam plataformas, softwares e equipamentos com muito mais rapidez, aproximando o automóvel da lógica da indústria eletrônica.

O resultado aparece nas concessionárias brasileiras: veículos equipados com mais tecnologia, maior nível de equipamentos, longas garantias e preços frequentemente próximos — ou inferiores — aos praticados por modelos nacionais equivalentes.

Por que as concessionárias passaram a preferir marcas chinesas

A transformação não ocorre apenas do lado do consumidor.

Também mudou a lógica econômica das concessionárias.

Nas marcas tradicionais, a rentabilidade costuma depender do cumprimento de metas de vendas e de bonificações concedidas pelas fábricas. Muitas vezes, o lucro obtido diretamente na venda do veículo é bastante reduzido.

Já diversas fabricantes chinesas trabalham com margens comerciais mais elevadas, investimento inicial menor para abertura das concessionárias e menor dependência de programas de incentivo.

Na prática, muitas revendas passaram a ganhar mais dinheiro vendendo menos unidades, mas com maior rentabilidade por veículo.

Isso explica a corrida de grandes grupos brasileiros para obter representação das novas marcas asiáticas.

A reação das montadoras tradicionais

Diante desse novo ambiente competitivo, as fabricantes estabelecidas passaram a fazer algo pouco comum no mercado brasileiro: reduzir preços.

Toyota, Volkswagen, Fiat, Honda e outras empresas ampliaram campanhas promocionais, ofereceram bônus elevados na troca por usados e reposicionaram tabelas de diversos modelos.

Essa reação produziu um efeito em cascata.

Como o preço dos veículos novos caiu, os seminovos também precisaram ser reavaliados. Revendedoras passaram a aceitar margens menores para evitar estoques elevados, aumentando as oportunidades para quem pretende comprar.

Embora os juros elevados ainda dificultem o financiamento, a maior competição devolveu ao consumidor um poder de negociação que praticamente havia desaparecido nos últimos anos.

Um novo equilíbrio para o mercado

A ofensiva das montadoras chinesas representa mais do que uma disputa entre fabricantes.

Ela expõe limitações estruturais da indústria automobilística brasileira e evidencia que parte dos preços historicamente praticados era sustentada por um ambiente de baixa concorrência, elevada proteção tarifária e altos custos internos.

A produção nacional continuará sendo estratégica para emprego, inovação e desenvolvimento industrial. Ao mesmo tempo, a presença de novos concorrentes tende a acelerar ganhos de eficiência, pressionar fabricantes tradicionais a rever estratégias de preços e ampliar a oferta de veículos eletrificados.

Para o consumidor, o resultado imediato já é perceptível: mais opções, maior conteúdo tecnológico e preços mais competitivos. O desaparecimento do carro popular ainda não foi revertido, mas a intensificação da concorrência sugere que o mercado brasileiro pode finalmente caminhar para uma realidade em que eficiência produtiva, inovação e disputa por clientes tenham peso maior do que a proteção de um mercado historicamente fechado.

(por Cezar Xavier com informações de O Globo e UOL)