30 anos de Carajás: a impunidade e a violência no campo seguem intactas
Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra na Curva do S, no Pará, em memória ao massacre de Eldorado do Carajás que ocorreu no local em 1996. Foto: Ícaro Matos/MST
Passados 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1996, quando 21 trabalhadores rurais tombaram na Curva do S, o episódio permanece como uma das maiores feridas abertas da história recente do campo brasileiro. Para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o significado político da tragédia segue atual: a urgência da reforma agrária e a denúncia de um modelo que concentra terra, renda e poder.
Segundo a dirigente Viviane Brígida, da coordenação nacional do MST no Pará, o tempo não foi capaz de alterar estruturalmente a realidade que levou ao massacre. “Pouco mudou”, resume em entrevista. A avaliação aponta para uma continuidade histórica marcada por desigualdade fundiária, ausência de políticas públicas e violência recorrente.
Longe de ser um episódio isolado, a chacina policial foi a expressão máxima de um projeto de Estado que entregou a Amazônia a latifúndios, mineração e agronegócio, enquanto criminaliza quem luta pela terra. Três décadas depois, a pergunta que ecoa das margens da PA-150 segue sem resposta: a quem pertence a terra?
A ferida aberta da impunidade e a dívida do Estado
A condenação judicial do Estado brasileiro não se traduziu em justiça plena. Até hoje, famílias das vítimas e sobreviventes aguardam indenização e acompanhamento médico adequado.

“Nem todas as famílias foram indenizadas, nem todas foram assistidas pelo Estado brasileiro”, denuncia Brígida.
Dos 164 policiais que compunham a tropa, apenas o coronel Mário Pantoja e o major José Oliveira foram responsabilizados criminalmente, enquanto a investigação falhou em individualizar condutas, favorecendo a absolvição da maioria.
A morosidade judicial e a ausência de reparação convertida em política pública perpetuam o ciclo de violência. O Estado, que historicamente fomentou a grilagem e a entrega de terras públicas a grandes grupos, mantém-se como coautor da desigualdade agrária, enquanto a cultura da impunidade segue blindando mandantes e executores.
Do latifúndio ao agronegócio: um modelo que intensifica a violência
Na análise do MST, o conflito no campo brasileiro é, essencialmente, um conflito de modelos. De um lado, o agronegócio voltado à exportação e à concentração fundiária; de outro, a defesa da reforma agrária, da agroecologia e da produção de alimentos.
A crítica se estende ao impacto ambiental. A degradação da natureza, associada à expansão de grandes empreendimentos, é vista como parte do mesmo processo que gera exclusão social. Daí o lema adotado nas mobilizações de 2026: “basta de violência contra os povos e a natureza”.
“O massacre não foi um episódio isolado, mas é resultado desse modelo imposto para o campo brasileiro, um modelo que exclui, que explora e que degrada a terra”, analisa a dirigente.
O Sul e Sudeste do Pará, transformados em fronteira de expansão econômica nos anos 1970, hoje concentram o ápice dos conflitos agrários. A mineração, a pecuária extensiva e a monocultura de soja avançam sobre territórios tradicionais, enquanto o “hidronegócio” disputa águas da bacia amazônica. A violência, antes dirigida principalmente aos Sem Terra, agora atinge indígenas, quilombolas e ribeirinhos, ampliando o espectro da violência.
“Esse cenário na Amazônia não mudou após 30 anos. Pelo contrário, isso se intensificou”, alerta Brígida. Casos posteriores, como o massacre de Pau D’Arco, reforçam essa continuidade. A região segue figurando entre as mais violentas do país em disputas agrárias.
Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) confirmam a tendência: entre 1985 e 2024, mais de 1,8 mil pessoas foram assassinadas em conflitos no campo, sendo 44% na Amazônia. A expansão do agronegócio não rompeu com as oligarquias rurais; antes, as consolidou como “feudos do século XXI”, onde títulos irregulares são validados pelo Estado e a violência atua como mecanismo de controle territorial.
Memória, resistência e a Jornada de Abril
Se o massacre pretendia conter a organização camponesa, o efeito histórico foi o oposto. O MST se consolidou nacionalmente e internacionalizou sua pauta, transformando o 17 de abril em símbolo global de luta camponesa.
Diante do ciclo de violência, o MST responde com memória. Em 2026, a Jornada de Luta por Reforma Agrária (13 a 17 de abril) carrega o lema “Basta de violência contra os povos e a natureza”.
As atividades incluem a 20ª edição do Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra na Curva do S e a retomada simbólica da “marcha interrompida” de Curionópolis ao local do massacre.
“Esse ano completa 20 anos de acampamento pedagógico e estamos realizando jornadas universitárias, anunciando que os camponeses são a solução”, destaca Brígida. A referência a mártires históricos como Chico Mendes, Dorothy Stang, José Cláudio e Maria, insere Eldorado em uma linha contínua de conflitos no campo brasileiro.
O movimento, hoje presente em 24 estados e no Distrito Federal, mantém mais de 100 mil famílias acampadas no Brasil, sendo 30 mil apenas no Pará, com destaque para o acampamento Terra e Liberdade, que abriga mais de 5 mil famílias.
A demanda é clara: desapropriação imediata de áreas improdutivas, investimento em agroecologia, crédito para agricultura familiar e reconhecimento da Reforma Agrária Popular como projeto civilizatório para a Amazônia.
“A gente busca dignidade para o camponês, para que ele possa ter minimamente uma vida digna nesse estado de coisas, de violências permanentes que no campo brasileiro existe”, conclui a dirigente.
Trinta anos depois da Curva do S, o massacre de Eldorado do Carajás permanece mais do que um marco de dor: é um espelho das contradições brasileiras e um chamado à ação estrutural. Enquanto o Estado não enfrentar a matriz fundiária que gera violência e não romper com a cultura de impunidade, a memória dos 21 mártires seguirá sendo combustível para a resistência.
A resposta dos Sem Terra, construída em marchas, acampamentos e na defesa da agroecologia, é invariável: a terra pertence a quem nela trabalha. E a luta, como a história demonstra, não se encerra com o tempo; ela se renova.
por cezar xavier


