Saída definitiva de Cleitinho deixa Flávio Bolsonaro sem palanque em MG
O senador Cleitinho (Republicanos-MG) não é Jesus Cristo, mas teve a candidatura ao governo mineiro negada por três vezes. A primeira, de modo formal, na convenção estadual realizada por seu partido no último dia 25. Cleitinho faltou ao evento sob a alegação de que estava em luto pelo irmão Matheus Azevedo, que morreu em 18 de julho, aos 30 anos, vítima de complicações causadas pela leucemia.
A segunda negativa, mais constrangedora, veio a público nesta segunda-feira (3), num vídeo divulgado pelo presidente do Republicanos, Marcos Pereira. Aos prantos, sem conseguir concluir algumas frases, o senador admitia estar sem condições emocionais para enfrentar uma campanha eleitoral. A saída honrosa pareceu o último capítulo da novela.
Mas nesta terça-feira (4), em nova recaída, Cleitinho foi à convenção nacional dos Republicanos e pediu novamente para concorrer ao Palácio Tiradentes. Desta vez, Marcos Pereira se irritou com o apelo e abriu mão do tom paternalista. “Não podemos ir para um processo eleitoral como esse, num partido que é sério e que cresceu em 20 anos, numa instabilidade”, disse o dirigente. “Eu seria irresponsável com o povo em colocar Minas nas mãos de uma pessoa que hora pensa uma coisa e cinco minutos depois pensa outra.”
Na passagem bíblica, o apóstolo Pedro nega Jesus por covardia e fragilidade espiritual. No episódio atual, quem demonstrou fraqueza foi o próprio Cleitinho, mesmo à frente de todas as pesquisas de intenção de voto para o Palácio Tiradentes. O senador jamais foi um homem da confiança dos Republicanos. Suas críticas públicas a correligionários e o vaivém de seu discurso vinham irritando a cúpula partidária.
Enquanto partido e ex-candidato discutem a relação, a corrida ao governo ganha novos contornos, bem como a eleição presidencial. Com mais de 16,3 milhões de brasileiros aptos a irem às urnas em outubro, o estado é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil. Além disso, é um estado-pêndulo da política nacional – uma “amostra da nação”. Nas últimas 12 eleições presidenciais democráticas, o candidato eleito foi também o mais votado em Minas.
O primeiro efeito da saída de Cleitinho é o prejuízo à campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto. Flávio tentava costurar uma aliança para garantir palanque forte em Minas Gerais – o que dependia da manutenção da candidatura do senador mineiro ao governo. Sem ela, o projeto da extrema direita perde força e competitividade.
A última rodada da pesquisa Quaest, divulgada em 28 de julho, testou nomes do PL – os empresários Flávio Roscoe e Vittorio Medioli. Nenhum deles passava de 4%, mesmo no cenário que já previa a desistência de Cleitinho. O governador Mateus Simões (PSD) é do campo conservador, mas não está em cogitação. Ele apoiará a candidatura presidencial de Romeu Zema (Novo), de quem foi vice até abril e herdou o Palácio Tiradentes. Assim, a menos de duas semanas para o início oficial da campanha, Flávio Bolsonaro está isolado em Minas.
Outro elemento que deve afetar o projeto bolsonarista é o fortalecimento de candidatos ao governo estadual da base do presidente Lula. Na simulação da Quaest que exclui Cleitinho, os concorrentes que mais pontuam são Alexandre Kalil (PDT, 15%) e Patrus Ananias (PT, 13%). Só na sequência é que aparecem Mateus Simões (PSD, 9%) e Gabriel Azevedo (MDB, 6%). O número de votos não válidos ou indecisos segue alto, totalizando 50%.
Existe uma possibilidade real de a campanha local deslanchar sem que um candidato ao governo mineiro ligado ao bolsonarismo se viabilize. Dada a volatilidade do eleitorado, a disputa está aberta. Já na sucessão ao Planalto, o cenário pode estar mais favorável à esquerda, que venceu cinco das últimas seis eleições presidenciais em Minas. A reorganização da direita no estado se tornou um desafio adicional para a campanha de Flávio Bolsonaro.

