O presidente do Chile, José Antonio Kast, durante seu discurso à nação. Foto: Presidencia de Chile

O presidente do Chile, José Antonio Kast, anunciou em15 de abril a realização do primeiro voo de deportação de imigrantes irregulares, marcado para a manhã desta quinta-feira (16).

A medida, apresentada durante seu primeiro discurso televisionado como chefe de Estado, segue a estratégia de espetacularização das políticas migratórias adotada por governos de extrema direita, como o de Donald Trump nos Estados Unidos.

Deportações como espetáculo midiático

“Amanhã, logo cedo, partirá o primeiro de muitos voos e ônibus que retirarão, de forma contínua, todos aqueles imigrantes irregulares que não devem permanecer em nosso país”, declarou Kast.

O primeiro voo deve levar entre 35 e 40 pessoas para Bolívia, Equador e Colômbia. O governo planeja realizar três voos por mês, expulsando cerca de 120 pessoas mensalmente e atingindo a meta de 1.400 deportações em um ano.

Historicamente, o Chile realiza voos fretados para deportação sem espetacularização. Em operações específicas, como no “Plano Colchane” em 2021, cerca de 138 migrantes foram expulsos em um único dia.

Associação simplista entre migração e crime

Kast justificou as deportações alegando que o Chile recebeu “mais de 300 mil imigrantes indocumentados, alguns deles ligados a redes de crime organizado que introduziram no Chile níveis de violência jamais vistos”.

Embora existam casos de imigrantes envolvidos em atividades criminosas, a generalização estigmatiza milhões de pessoas que buscam no Chile condições melhores de vida. Organizações de direitos humanos alertam que essa retórica alimenta a xenofobia e desvia o foco das verdadeiras causas da insegurança pública.

Estima-se que existam entre 300 mil e 337 mil estrangeiros em situação irregular no Chile. A maioria dos afetados por decretos de expulsão é de origem venezuelana, seguida por colombianos, haitianos, peruanos e bolivianos.

“Escudo Fronteiriço”: muros e valas contra pessoas

O presidente anunciou a implementação do “Plano Escudo Fronteiriço”, que inclui a instalação de valas, muros, tecnologia de vigilância e destacamento conjunto das Forças Armadas e polícias na fronteira norte. Kast vangloriou-se de que, no primeiro mês de governo, houve “redução nas entradas irregulares” e “aumento das saídas voluntárias”.

A militarização das fronteiras e a construção de barreiras físicas remetem a políticas fracassadas em outras regiões do mundo. Especialistas em migração apontam que muros não impedem o fluxo migratório, apenas o tornam mais perigoso, empurrando imigrantes para rotas mais arriscadas e fortalecendo redes de tráfico de pessoas.

Megarreforma neoliberal disfarçada de “reconstrução”

Enquanto anunciava as deportações, Kast também apresentou sua “megarreforma” econômica, denominada “Projeto de Lei para a Reconstrução e Desenvolvimento Econômico e Social”. O plano inclui mais de 40 medidas, com destaque para a redução do imposto corporativo de 27% para 23% — o que a oposição de esquerda classificou como “reforma tributária disfarçada” que beneficia os mais ricos.

A sobreposição do anúncio de deportações com medidas neoliberais revela uma tática política: criar cortinas de fumaça com temas sensíveis para aprovar reformas impopulares.

Queda de popularidade e contradições

Kast enfrenta queda significativa de popularidade nas pesquisas apenas um mês após assumir o cargo. O forte aumento nos preços dos combustíveis e a recusa do governo em adotar medidas de controle irritaram a população chilena.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) expressou preocupação sobre a realização de expulsões coletivas sem avaliações individuais adequadas. O governo chileno repete erros de outras nações e ignora lições históricas sobre os efeitos devastadores da xenofobia institucionalizada.

por cezar xavier