Foto: Marcelo Horn/Wikimedia Commons, via Le Monde Diplomatique Brasil

A promiscuidade entre o sistema financeiro e o mercado de drogas é histórico e global, mas vem sem mantendo firme e forte graças a uma cortina de fumaça bastante eficiente, cuidadosamente fabricada pela direita. A artimanha consiste, basicamente, em defender uma “guerra às drogas” que mira basicamente no que há de mais visível: os operadores do tráfico, que no final são a ralé desse sistema, e os usuários mais vulneráveis. 


Ao longo de décadas, essa fórmula tem se mostrado eficiente do ponto de vista de angariar apoio dos ricos, da classe média e de parte das classes mais baixas. Por outro lado, é totalmente inócua no real combate ao problema justamente por não chegar ao coração do sistema. Enquanto isso, milhares de pessoas seguem perdendo a vida, sendo presas às pencas e comunidades inteiras são impactadas e traumatizadas em função de operações que, na prática, apenas “enxugam gelo”. 


Em sua pesquisa docente “Narcoterrorismo: segunda grande crise política de guerras às drogas”, que desenvolve desde 2020, a doutora em Ciências Sociais e professora Joana das Flores Duarte, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), procura mostrar as entranhas desse sistema e como ele se liga ao discurso reabilitado por Donald Trump de intervir em países da América Latina sob a desculpa de combate ao tráfico.

Nesta entrevista ao Portal Vermelho, ela salienta que “se num cenário muito desfavorável, Flávio Bolsonaro (PL) se eleger presidente, passaríamos a ter uma relação servil com o governo Trump. E assim como Trump, a agenda da direita brasileira não tem interesse em combater o crime organizado”.

Confira abaixo os principais trechos dessa conversa.

Combate ao tráfico no Brasil
“O combate ao crime organizado é eficiente quando se trabalha com inteligência. E na minha avaliação, o Estado brasileiro mostrou que sabe fazer isso com o êxito da Operação Carbono Oculto, que não apenas atuou no que a gente chama de coração do crime organizado — ou seja, a estrutura financeira —, mas ainda fez isso sem conflito armado, utilizando somente a estrutura de inteligência das instituições do Estado brasileiro. Essa operação, em especial, mostra que não há razão para os EUA interferirem internamente no país, sob a falsa pretensão de combate ao crime organizado.

E aqui, cabe uma ressalva: do ponto de vista de como os EUA categorizam as organizações criminosas, o Brasil só tem de fato uma, que é o Primeiro Comando da Capital (PCC). Isso porque a nomeação vai se dar pela leitura internacional dos EUA de qual é o fluxo operacional daquela determinada organização dentro do mercado financeiro estadunidense e, portanto, de como ele vai se capilarizar e buscar as organizações financeiras estadunidenses para seus investimentos.



O Comando Vermelho (CV), por exemplo, não entra nessa classificação por parte do governo dos EUA porque não há, dentro do histórico de investigação das instituições estadunidenses, nenhuma menção ao CV como uma organização que já tenha se beneficiado da estrutura financeira norte-americana”.

“Organizações narcoterroristas”
“Essa forma, então, de tentar nomear essas duas grandes organizações, como chamamos, de organização terrorista vem de dois vetores muito próximos. O primeiro é a sanção ao PCC ocorrida ainda no governo de Joe Biden, em 2020, e o segundo tem a ver com as mediações paralelas feitas pelo governo Cláudio Castro (PL), do Rio de Janeiro, junto ao governo dos EUA, sem a participação do governo federal, para tentar classificar o CV dessa forma.

Esses dois movimentos distintos ganham força política neste momento porque servem para tentar criar, discursiva e ideologicamente, a narrativa de que as duas organizações são terroristas, o que justificaria uma intervenção externa”.

Joana Duarte. Foto: arquivo pessoal

Neocolonização pelo combate ao narcotráfico
“Do ponto de vista da nossa soberania, essa classificação pode resultar numa intervenção deliberada por parte dos Estados Unidos, de forma bélica e sem mediação ou diálogo com o governo brasileiro, o que é muito grave.

Quanto à questão econômica, esse tipo de interferência tende a reforçar papéis históricos de subordinação e dependência, ou seja, retira do Brasil o lugar que ele tem de autonomia e de potência dentro do contexto latino-americano. Os impactos econômicos se dariam, também, no que diz respeito à perda de confiança dos investidores estrangeiros em relação ao Brasil, que passaria a ser um país de vulnerabilidade para investimentos. E o país ficaria refém dos interesses dos EUA.

Portanto, uma intervenção desse tipo serviria, justamente, como uma forma de neocolonização dentro de uma lógica de buscar um novo discurso para um velho fenômeno. O raciocínio dos EUA é recriar uma relação de domínio na região buscando utilizar como subterfúgio aquilo que está mais aparente — e o Brasil tem hoje uma importância dentro do mercado de drogas. Então, classificam o Brasil como uma ameaça do ponto de vista geopolítico.

E como parte desse enredo, os EUA vendem a ideia de que estariam aqui para fazer esse controle, ‘já que o Brasil não deu conta’. Trump tem uma estratégia para a América Latina muito bem definida e por isso tem investido contra Venezuela, Cuba, Colômbia, México e Brasil. Trata-se de um circuito de grandes fluxos marítimos, não apenas de drogas, mas também de exportação de commodities, o que se encaixa em sua agressiva agenda geopolítica comercial”.

Eleições 2026 no Brasil
“O tema da segurança pública certamente terá muita força no debate eleitoral deste ano. E, na minha avaliação, esse vai ser um grande desafio para a esquerda, porque também nesse campo há quem insista em projetos obsoletos que reproduzem o discurso da política de guerra às drogas, que é da direita, e que não considera os impactos em saúde pública e o papel produtivo e logístico estratégico que a América Latina tem.

Se, num cenário muito desfavorável, Flávio Bolsonaro (PL) se eleger presidente, passaríamos a ter uma relação servil com o governo Trump. E assim como Trump, a agenda da direita brasileira não tem interesse em combater o crime organizado. Basta a gente observar a aliança histórica que vem sendo feita entre Bíblia e bala no Congresso, por exemplo, e a relação dos neopentecostais com o crime organizado. A terceira maior facção criminosa no Brasil e em ascensão, o Terceiro Comando Puro (TCP), se autodenomina neopentecostal e detém uma região que batizou de Complexo de Israel”.

Falso combate ao crime
“Num cenário como este, com a extrema direita no poder, não teremos o combate ao crime organizado de fato. Pelo contrário: é um cenário em que se tem um falseamento da realidade. Teremos o adensamento dessa política de guerra às drogas por meio do investimento bélico — ou seja, de operações policiais em territórios historicamente destituídos de direitos, com desaparecimentos forçados, pessoas presas de forma arbitrária e aumento da população carcerária, cenário que já observamos aqui, mas em termos de política de Estado avalio que teríamos uma realidade similar à de El Salvador, por exemplo.

Toda essa lógica obsoleta de guerra às drogas será reforçada num governo de direita como forma de ocultar os benefícios advindos da segunda grande crise da política de guerra às drogas, que resultou na internacionalização do mercado global de drogas por meio das instituições financeiras mundiais, uma forma ilícita, mas bem-sucedida, de enriquecimento de boa parte desse campo político.

Quando demarca o discurso histórico da política de guerra às drogas nos moldes do que foi usado nos anos 1980, em tese a direita está ocultando o verdadeiro interesse em jogo, que é o controle dos fluxos financeiros desse mercado ilegal, cuja taxa de crescimento hoje, segundo algumas estimativas internacionais, corresponde a quase 3% do PIB mundial”.

O uso dos sistema financeiro pelo tráfico
“Se antes as organizações criminosas usavam, sobretudo, o sistema financeiro e paraísos fiscais dos EUA para lavar dinheiro, agora se observa um novo desenho: as organizações criminosas passam a usar o sistema financeiro local (como faz o PCC, por exemplo) e/ou outros eixos financeiros fora do circuito estadunidense, como os da Europa e Emirados Árabes Unidos (EAU). E hoje há uma tentativa, por parte dos EUA, de recuperar esses fluxos perdidos. 

É nesse contexto que Donald Trump investe de maneira agressiva contra países da América Latina que tenham organizações ligadas ao mercado global de drogas, como a Colômbia, México e o Brasil, com o discurso de combate ao narcotráfico”.

HSBC e Wells Fargo
“Historicamente, a gente encontra muitos exemplos de agências financeiras dos Estados Unidos vinculadas a ações fraudulentas, que incorporam mecanismos de corrupção e de lavagem de dinheiro. O HSBC e a Wells Fargo são dois grandes exemplos.

O HSBC começou a ser investigado no início dos anos 2000 por lavagem de dinheiro dos cartéis mexicanos, movimentando cifras na casa dos bilhões. Após o pagamento de multa bilionária, o HSBC aceitou pagar US$ 101,5 milhões para concluir a investigação. Ainda segundo o próprio banco, o total de irregularidades cometidas foi de US$ 63,1 milhões de sanção e US$ 38,4 milhões de reparação.

No caso do Wells Fargo, as investigações mostraram que entre 2002 e 2016 foram abertas mais de três milhões de contas sem consentimento dos clientes, gerando cobranças indevidas e tomada de bens. Mas, além disso, muitas dessas contas foram usadas para lavar dinheiro do mercado de drogas. Neste caso, o banco pagou multa de US$ 185 milhões de dólares e em 2020 o Departamento de Justiça dos EUA aceitou o acordo de R$ 3 bilhões para encerrar a investigação criminal.

Nesse quadro, temos a seguinte situação: o governo que fiscaliza o sistema financeiro (que, aliás, é bem pouco regulado) e que vai sancionar essas instituições por realizarem operações corruptas, fraudulentas e ligadas ao mercado de drogas, vai ser o mesmo governo que vai se beneficiar com os recursos resultantes dessas sanções. E na medida em que essa instituição paga a multa, recebe o perdão e retoma a mesma atividade ilícita que ela tinha anteriormente. Portanto, de um jeito ou de outro, tanto os EUA quanto suas instituições financeiras se beneficiam dos lucros gerados pelo mercado global de drogas ”.