Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Um estudo da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) mostra a influência de fatores socioeconômicos na baixa qualidade alimentar e na dificuldade de ter atividades físicas por crianças no meio urbano brasileiro. Um dos elementos de impacto é a sobrecarga de mães nos cuidados com os filhos, o que as leva, muitas vezes, a terem de oferecer produtos ultraprocessados para dar conta de tudo o que o dia a dia demanda.

Os dados apontam que, há ao menos duas décadas, a obesidade é maior do que a desnutrição entre as crianças brasileiras, desde os primeiros anos de vida. Segundo o Ministério da Saúde, a proporção de crianças de cinco a 14 anos com sobrepeso saltou de 11% para 21% entre 2000 e 2021. Em 2023, 13,5% dos que tinham de zero a cinco anos apresentavam excesso de peso; entre os adolescentes, o índice é de 31%.

De acordo com o estudo, a rápida urbanização “acentua esse cenário ao evidenciar desigualdades e impulsionar ambientes não saudáveis”. Nesses contextos, explica, “crianças e adolescentes têm sido cada vez mais expostos ao marketing agressivo de alimentos ultraprocessados, amplamente disponíveis e vendidos a preços mais acessíveis”.

O Unicef alerta ainda para o fato de que “os padrões alimentares e de atividade física são, em grande parte, resultado de condições
ambientais e sociais que restringem consideravelmente as escolhas individuais”.

Uma das bases para a pesquisa foram pesquisas qualitativas e quantitativas realizadas em famílias de classe baixa, em bairros de cidades de três regiões distintas, mas todas com famílias de baixa renda: Guamá, em Belém (PA); Ibura, no Recife (PE) e Pavuna, no Rio de Janeiro (RJ).

A amostra dos responsáveis pelas crianças é composta por 70% de mulheres e 84% de pretos e pardos. A maioria, 40%, tem entre 31 e 40 anos, seguido de 28% de 25 a 30 anos; 50% têm o ensino médio completo. No que diz respeito ao trabalho e à renda, 55% estavam ocupados e 45%, desempregados. A renda familiar majoritária, 94%, é de até três salários mínimos e 65% eram beneficiários do Bolsa Família; 80% tinham apenas um filho de dois a seis anos e 20% tinha mais de um nessa faixa.

Com base nos dados levantados, a pesquisa trouxe três importantes achados no que diz respeito ao contexto das famílias que, se não são novidade, reforçam dinâmicas que seguem influenciando os hábitos alimentares de maneira negativa.

O primeiro é que as mães são as principais responsáveis pelo cuidado e alimentação das crianças; o segundo é que o consumo de ultraprocessados é visto como conquista geracional e o terceiro aponta a violência como elemento transversal aos contextos estudados.

Sobrecarga materna, conquista geracional e violência

Quanto à primeira constatação, o levantamento aponta que as falas obtidas na pesquisa demonstravam “a sobrecarga materna, o que favorecia a oferta de produtos ultraprocessados às crianças dada a sua praticidade e longevidade, além do medo de desperdício financeiro na compra de alimentos in natura que poderiam estragar ou não ser bem aceitos pelas crianças”.

Mesmo entre as mulheres que moram com um companheiro, o estudo indicou que “não havia divisão equitativa de tarefas com o cônjuge para cuidar das crianças”.

Fonte: Unicef

O estudo também mostrou que responsáveis advindos de situações economicamente mais precárias que os impossibilitou de ter acesso a guloseimas típicas da infância — como bolachas, iogurtes, salgadinhos e determinados doces — tendem a querer dar aos seus filhos esse tipo de produto num cenário de melhora na renda.

“O aumento relativo de renda que se deve, inclusive, ao Bolsa Família e à urbanização nas últimas décadas, permitiu que as mães conseguissem ofertar aos filhos alimentos aos quais não tiveram acesso, associando os ultraprocessados a produtos que marcam uma infância feliz, que conquistam pelo sabor, cor, aroma e personagens infantis”, explica a pesquisa.

Outro ponto verificado é que a violência à qual muitas dessas famílias estão submetidas em suas comunidades dificultam que essas crianças possam brincar na rua, fator que muitas vezes as obrigam a ficar em casa, o que também contribui para a obesidade.

Fonte: Unicef

Quanto ao contexto alimentar, o estudo destaca, entre outros aspectos, que nos bairros estudados há consumo regular de alimentos in natura, inclusive carnes e hortaliças, sendo os principais produtos consumidos arroz, feijão, frango e ovos. “Ainda assim, o consumo de ultraprocessados também é igualmente elevado: 62% têm de quatro a nove alimentos ultraprocessados em casa e 37% têm até três dos dez alimentos, entre os perguntados no questionário, sendo que 7% não têm esse tipo de alimento em casa”, indica.

Parte do estudo também se dedicou a entender o tipo de conhecimento que os responsáveis pelas crianças têm sobre os alimentos. Entre os achados estão o desconhecimento sobre o termo “ultraprocessados”, o fato de que certos ultraprocessados são vistos como saudáveis, mesmo não sendo, e que grande parte desconhece a rotulagem frontal (lupa) nas embalagens ou não a considera no momento de compra.

Papel das políticas públicas

No que diz respeito às políticas públicas associadas à alimentação, o estudo destacou o papel de medidas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), do governo federal — que incentiva refeições saudáveis em instituições públicas, como as escolas —, bem como a importância dos profissionais da saúde e das escolas como fontes de divulgação sobre alimentação saudável.

“A maioria das crianças das famílias entrevistadas está frequentando a creche (80%): 86% em instituições públicas, enquanto 14% frequentam creches privadas. Em creches e escolas públicas, as crianças fazem boa parte das refeições na própria instituição, como café da manhã, almoço e lanche. Nesse sentido, mães se preocupam menos com a responsabilidade de ‘enviar comida’ para os filhos, sabendo que já comerão na escola”.

De acordo com a pesquisa quantitativa, 50% das crianças recebem almoço da escola e 68%, lanche. “Nas instituições públicas, os alimentos são ofertados de acordo com o Programa Nacional de Alimentação Escolar que, enquanto política pública, regula o cardápio escolar e quais alimentos serão oferecidos, prezando por produtos saudáveis e variados, em parte provenientes da compra direta de produtores de agricultura familiar”, afirma o estudo.

Outro ponto salientado é que há, por parte desses responsáveis, um alto grau de confiança nos profissionais de saúde e da educação. Médicos têm 92% de confiabilidade; profissionais da UBS local têm 86% e os profissionais de educação, 76%, o que reforça a importância desses trabalhadores para ajudar na melhora da orientação alimentar.

Além disso, o estudo constata que redes comunitárias, projetos sociais e doações informais têm papel pontual no combate à insegurança alimentar, mas contribuem para estimular a alimentação saudável.

Conclusões e recomendações

O estudo aponta, por fim, que hábitos de alimentação e prática de atividade física “não se definem apenas por escolhas individuais, mas pelos ambientes social, econômico e cultural em que as famílias vivem. Rotinas familiares, padrões de consumo, acesso a redes de apoio e oportunidades disponíveis nos territórios moldam diretamente os comportamentos de crianças e seus responsáveis”.

Entre as principais barreiras identificadas, diz, “estão a associação do consumo de alimentos ultraprocessados a forma de demonstração de afeto e conquistas geracionais, a priorização desses produtos nas compras cotidianas por conveniência e preço percebido, além da baixa compreensão da rotulagem frontal de alimentos e lacunas de informação”.

Fonte: Unicef

Além disso, o estudo também evidencia desafios estruturais, “como a sobrecarga das mães no cuidado com as crianças e a falta de espaços seguros e adequados para o livre brincar e a prática de atividade
física em comunidades urbanas”.

Por outro lado, a pesquisa também evidencia, segundo o Unicef, os caminhos que podem ser fortalecidos. “A cultura alimentar brasileira baseada em refeições caseiras, como o arroz e feijão, permanece como um pilar da qualidade da dieta. Políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar ampliam o acesso a refeições mais saudáveis, enquanto profissionais da saúde e da educação são reconhecidos pelas famílias como fontes confiáveis de informação. Redes comunitárias, associações locais e a convivência entre vizinhos também favorecem o brincar e a atividade física entre crianças”, diz o documento.

Quanto às recomendações, o estudo sugere, entre outras, o fortalecimento da agenda regulatória de alimentos ultraprocessados e da manutenção e segurança de espaços públicos para atividade física e da orientação alimentar para famílias nos serviços de saúde, bem como o apoio às iniciativas de expansão de creches e escolas em tempo integral.

Além disso, aponta para a importância de fortalecer iniciativas comunitárias e lideranças locais na promoção da alimentação saudável e da atividade física e, no nível familiar e individual, destaca a promoção de conhecimento para a melhor compreensão e uso da rotulagem frontal entre cuidadores e o desenvolvimento de estratégias de comunicação e mudança de comportamento para apoiar famílias
na promoção de hábitos saudáveis.