Renato Rabelo Renato insistia em promover quadros novos para tarefas centrais.

A história da luta da juventude e dos estudantes no Brasil não pode ser escrita sem o capítulo dedicado a Renato Rabelo. Falecido  em  fevereiro (14), Rabelo legou uma escola de pensamento estratégico e uma metodologia de afeto militante que contagiou as fileiras do PCdoB. Para além da clareza sobre as teses do socialismo com “a cara do Brasil”, o que emerge dos testemunhos de quem conviveu com ele é o de um dirigente que unia a lucidez da análise política à serenidade de um mestre.

Javier Alfaya e Ricardo Abreu, o “Alemão”, duas lideranças nacionais do Partido forjadas “na escola” de Renato, que por décadas foi responsável por orientar o movimento estudantil e a juventude, trazem o testemunho do lado humano e das contribuições teóricas e práticas de Rabelo.

Renato era um anfitrião político

Alfaya, ex-presidente da UNE e figura histórica do Partido, recorda com nitidez o primeiro contato em 1981. “Eu ainda era diretor de cultura da UNE e fui chamado para uma reunião com a Direção Nacional, na sede da Tribuna da Luta Operária”, rememora. A impressão inicial foi definitiva: “O que me impressionou no Renato foi essa postura que todos reafirmam: a tranquilidade e a serenidade, misturadas com uma lucidez muito vívida”.

Renato não era apenas um dirigente; era um anfitrião político. Alfaya recorda um jantar no apartamento de Renato,  em São Paulo, onde o próprio Renato revela o lado gourmet, aprendizado que trouxe como fruto do exílio na França. Entre bebidas e pratos preparados por Rabelo, as conversas sobre o futuro do Brasil exerciam uma pedagogia da convivência: a formação não se dava apenas em cursos de estratégia, mas também na partilha da mesa, no cuidado com quem vinha de longe, na atenção às inquietações íntimas da juventude militante. “Ele aprendeu a cozinhar com um chef na França e nos brindava com coisas bem elaboradas. Percebi quem era o Renato por esses pequenos — que são grandes — gestos”, conta Javier.

Foi de Renato a palavra de ordem “Javier é Brasileiro”

Um dos episódios mais marcantes da trajetória de Javier — nascido na Espanha e radicado na Bahia — foi a tentativa de expulsão do país sofrida em 1982, sob a ditadura, após assumir a presidência da UNE. Os militares pretendiam expulsá-lo sob a alegação dele ser estrangeiro. Foi a mente estratégica de Renato Rabelo que transformou um drama jurídico e uma perseguição política em bandeira de luta. “Ele me disse: ‘Vamos transformar sua defesa numa grande luta nacional. Você vai se destacar nela’. Sem nenhum blefe na voz”, relata Alfaya.

Partiu de Renato a ideia da campanha “Javier é Brasileiro”, que colocou o então presidente da UNE no centro de uma jornada pelo reconhecimento da nacionalidade e contra a então vigente Lei do Estrangeiro. A palavra de ordem foi pichada em muros por todo o país, unificando a juventude contra as leis de exceção e a perseguição política aos estudantes.

Ali se revelava uma marca da contribuição de Rabelo: transformar um caso individual em campanha pedagógica, na qual mobilização, solidariedade, comunicação e organização se entrelaçavam. Mais que um gesto de defesa, era uma aula prática de internacionalismo e de resistência, evidenciando que nenhuma lei arbitrária poderia determinar quem deve presidir a UNE — além dos próprios estudantes — nem definir quem “pertence” ao Brasil quando o critério é a luta pelo povo. A juventude aprendia, na prática, que toda campanha pode ser um espaço de formação política de massas.

Formação integral e ousadia política

Para Ricardo Abreu, o “Alemão”, a marca registrada de Renato pode ser sintetizada em três características: o formador integral, a sabedoria tática com horizonte estratégico e o construtor de novas gerações de dirigentes.​

A primeira dimensão aparece já na USP, nos anos 1980. “O que me chamava a atenção era o papel dele como formador integral. Ele não nos criticava abertamente de maneira dura; ele propunha cursos, como o de estratégia e tática, para que nós mesmos compreendêssemos nossos erros.” Após um erro de avaliação em uma disputa de DCE, em que o coletivo universitário ligado ao PCdoB decide não compor a chapa mais ampla de esquerda, Renato recusa a saída fácil da bronca. Propõe, em vez disso, um curso inteiro de estratégia e tática, com aulas ministradas por quase toda a direção nacional, para que a militância universitária reelabore, de forma consciente, seus equívocos.

“Foi um curso maravilhoso, em que o Comitê Central praticamente inteiro deu aulas para a juventude da USP”, recorda Alemão. A mensagem implícita era clara: não basta corrigir a linha; é preciso elevar o nível de compreensão política dos quadros, ligar teoria, prática e vida cotidiana. Esse método  moldou dezenas de dirigentes da UJS, da UNE e da UBES.

A segunda característica é o que Alemão chama de “sabedoria política”: a capacidade de combinar ousadia tática com horizonte estratégico. Um dos exemplos é a própria trajetória da UNE. Em determinado momento, diante de uma correlação de forças adversa, a orientação de Renato é a de que o campo ligado ao PCdoB e à UJS não deveria forçar uma vitória a qualquer custo, se isso implicasse rachar a entidade. “Era melhor conquistar a vice-presidência, recompor a direção e preservar a unidade estudantil”, resume Alemão nas conversas. Para Renato, derrotas táticas negociadas, que mantivessem a UNE como frente ampla, podiam valer mais do que vitórias apertadas que isolassem a juventude comunista.

Essa mesma visão se expressa nos anos 1990, na campanha pelo “Fora Collor”. Enquanto parte da esquerda hesitava, Renato foi pioneiro ao orientar que a juventude saísse na frente com essa palavra de ordem, apostando que a indignação difusa poderia se transformar numa onda de massas. “Renato era como um surfista que se acostumou com onda pequena, mas sabia que a onda grande estava vindo. Ele nos preparou para surfar aquela onda de maneira espetacular”, diz Alemão. A juventude organizada não só surfou a onda como deu rosto e ritmo às mobilizações dos caras-pintadas, projetando o PCdoB e a UJS como protagonistas daquele ciclo histórico.

A terceira característica é a de construtor de gerações. Alemão lembra que, muito jovem, assumiu sucessivas secretarias nacionais — juventude, movimentos sociais, relações internacionais, organização, finanças — porque Renato insistia em promover quadros novos para tarefas centrais. “Ele tinha essa visão de formação de novas gerações”, conta. Não se tratava apenas de “dar oportunidade”, mas de criar condições para que jovens dirigentes comandassem áreas estratégicas, com liberdade para pensar, debater e errar, dentro de uma disciplina consciente.

Da Viração e da Caminhando à UJS

Renato defendeu que movimentos como a Viração e a Caminhando, que na época abrigavam os estudantes, precisavam ser organizados em uma entidade nacional de juventude. Dessa discussão interna no Partido, nasceu a decisão de fundar a União da Juventude Socialista, em 1984. A ideia central, como recorda Alemão, era que a juventude comunista não poderia ser apenas uma estrutura fechada de militantes orgânicos: deveria agregar estudantes, jovens trabalhadores, ativistas culturais que tivessem simpatia pelo socialismo, mesmo sem filiação ao PCdoB.

Essa concepção de juventude ampla dialogava com a prática de Renato desde a clandestinidade: chegar primeiro às lutas concretas, politizá‑las e, só depois, apresentar o programa socialista. “Foi uma decisão corretíssima incluir na UJS aqueles que ainda não eram do partido, mas tinham simpatia pela luta por um Brasil soberano e democrático”, sintetiza Alemão. A UJS se tornaria, assim, uma das maiores organizações de juventude da América Latina, porta de entrada de milhares de jovens que talvez nunca tivessem dado o passo direto para o Partido, mas encontraram ali o primeiro vínculo com a política transformadora.

Na prática, isso significava organizar núcleos, formar quadros, discutir tática e, ao mesmo tempo, perguntar sobre o trabalho, os estudos, as famílias. O dirigente de juventude que ensinava a enfrentar um governo neoliberal era o mesmo que insistia para que o jovem militante não abandonasse a universidade ou o emprego.

Juventude ampla, unidade de esquerda e o chão da família

A fundação da UJS  carrega, portanto, o DNA de Renato Rabelo. Ele defendia uma juventude que não fosse apenas um “gueto” de comunistas, mas um espaço amplo que incluísse todos os que tivessem simpatia pelo socialismo, pela democracia e pela soberania nacional. Essa concepção de frente ampla na juventude dialogava diretamente com a atuação posterior na construção de alianças de esquerda em torno de Lula e de um projeto de Brasil soberano.

Renato também foi mestre da transição geracional. Mantinha a firmeza da disciplina, mas com defesa intransigente da liberdade de pensamento, promovendo quadros jovens para a direção nacional e secretarias importantes e indicando Luciana Santos para sucedê‑lo na presidência do partido em 2013, já num cenário de escalada golpista. Ao mesmo tempo, encontrava na família a base silenciosa dessa entrega pública: ao lado da esposa, Conceição Leiro Vilan, a Conchita, e dos filhos, André e Nina, o dirigente se permitia ser apenas pai, companheiro e avô.