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Além de querer implantar um governo autoritário, destrutivo, corrupto e anti-povo, Flávio Bolsonaro (PL) tem outro motivo para desejar, a todo custo, virar presidente: se livrar de investigações sobre o sem número de rolos em que está encalacrado desde que resolveu entrar para a política.

Com 45 anos de idade e 26 de vida pública, o hoje senador tem um currículo de fazer inveja aos políticos da velha direita: ele vem colecionando desde inquéritos e processos até fortes suspeitas envolvendo toda ordem de ilegalidade, especialmente aquelas ligadas ao uso dos cargos em benefício próprio e dos seus, à lavagem de dinheiro e à malversação de recursos públicos.

Conforme estabelece a Constituição, “o presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções”.

Ao conceberem esse mecanismo legal, os constituintes de 1988 não objetivavam garantir impunidade, nem proteger o ocupante do cargo, mas sim salvaguardar a instituição contra situações que pudessem criar desgastes e instabilidades ao País.

Considerando o fato de que Flávio já sinalizou querer mudar a Constituição e que o clã Bolsonaro tem vários membros que podem se revezar no cargo se a autocracia por eles almejada se instalar, caso Flávio vença agora, ele, seu pai e irmãos poderão ficar anos no poder sem que nada lhes aconteça.

Aqui, vale fazer um parêntese: essa é uma das fórmulas usadas para que as democracias acabem, conforme apontaram os professores de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em “Como as Democracias Morrem”. Hoje, já não é mais necessário colocar tanques nas ruas para impor um governo tirano; basta uma força política com muitos recursos financeiros — como tem acontecido recorrentemente com a extrema direita — se utilizar de sentimentos como o ressentimento, o medo e o ódio da população, com a ajuda indispensável das redes sociais, para criar as condições necessárias ao enfraquecimento das instituições democráticas e se instalar no poder.

Eleger Flávio, portanto, é uma perigosa via de mão dupla: além de abrir as portas para a destruição da jovem democracia brasileira e do País como um todo, ainda servirá para garantir impunidade a Flávio.

Para ficar apenas em alguns dos casos (porque contar tudo certamente cansaria o leitor e renderia um livro), listamos abaixo parte dos inquéritos, investigações e suspeitas que pairam sobre o senador, a partir dos mais recentes.

Sócio oculto

Flávio Bolsonaro é alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). O mais recente, aberto há poucos dias, investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, movimentações financeiras irregulares e possíveis vínculos econômicos ocultos entre ele e o advogado e empresário Willer Tomaz.

Este é um dos casos mais intrincados ligados a Flávio. O noticiário dos últimos dias trouxe uma série de novos acontecimentos que aprofundam ainda mais as suspeitas de ilegalidade e corrupção.

A revista piauí revelou documentos que levaram a Polícia Federal a investigar se Flávio seria sócio oculto da BestBet, empresa de apostas vinculada à Rede Loto. A suspeita é de que ele seja sócio oculto do negócio.

Além disso, documentos analisados pela PF indicam que Flávio figurava como “usuário master” (com amplos poderes) de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa ligada a Willer Tomaz e sediada na Ilha da Madeira (Portugal), considerado uma espécie de “paraíso fiscal”. A investigação procura esclarecer por que Flávio tinha essa vinculação bancária e se ela correspondia a alguma participação financeira não declarada.

“Dark Horse”

Outro caso bastante conhecido do público é o suposto financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro, “Dark Horse”, pelo qual Flávio é investigado no STF por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.

O uso da palavra “suposto” não é gratuito: até hoje não se sabe para que, de fato, Flávio pediu R$ 134 milhões para Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que se alimentava de fraudes inclusive com dinheiro público proveniente de servidores aposentados. Flávio, aliás, apresentou várias versões, todas mentirosas.

Desse total, Flávio recebeu ao menos R$ 60 milhões. Tanto o valor solicitado quanto o pago é considerado altíssimo para uma obra cinematográfica, principalmente de um filme que, tecnicamente, parece estar bem aquém de uma grande produção.

Uma das suspeitas é que esse dinheiro possa ter sido usado para outros fins — um deles, sustentar seu irmão, Eduardo Bolsonaro, enquanto ele fazia campanha contra o Brasil nos Estados Unidos.

Situações nada republicanas

Há, ainda, outros casos recentes no mínimo questionáveis e nada republicanos que implicam Flávio Bolsonaro.

Também por meio da revista piauí, veio à tona a participação de Flávio (já como senador) numa festa, em 17 de julho de 2020 (ou seja, em plena pandemia), realizada em uma embarcação no Lago Paranoá, em Brasília, com empresários, lobistas e três garotas de programa. Willer Tomaz também estaria presente.

O evento teria sido promovido pelos empresários Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, ligados à Precisa Medicamentos, empresa envolvida nas negociações da vacina Covaxin.

Os empresários buscavam aproximação com o governo Jair Bolsonaro para viabilizar negócios, incluindo o fornecimento de vacinas contra a Covid-19 (tais negociações podem estar por trás, inclusive, da demora na compra do imunizante). Segundo a reportagem, Danilo Trento teria retirado um Rolex do próprio pulso e presenteado Flávio Bolsonaro na ocasião.

Mas, o homem que diz defender a “família tradicional” também teria vivido outros episódios envolvendo sexo e negócios. No final de setembro, matéria do PlatôBRmostrou as relações entre Flávio, lobistas e figuras interessadas em fazer jogadas que lhes rendessem vantagens durante o governo de Jair Bolsonaro. Nesse contexto teriam ocorrido os eventos privê com garotas de programa, o que teria causado uma crise em seu casamento.

Sala 2601

Outra situação suspeita diz respeito à revelação, pelo ICL Notícias, de que uma empresa de Flávio e Carlos Bolsonaro (chamada Bravo Grafeno) compartilha endereço com pelo menos 16 empresas ligadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, e utiliza serviços contábeis prestados por um antigo sócio dele. O endereço é a sala 2601 do bloco D, do Edifício Connect Towers, em Águas Claras (DF).

Uma dessas empresas pertencentes ao Careca, a Prospect, recebeu mais de R$ 204 milhões de nove entidades investigadas, segundo o relatório da CPMI do INSS.

A ilha de Richarlison

Segundo noticiado, o jogador de futebol Richarlison afirma ter investido aproximadamente R$ 10 milhões, entre 2020 e 2021, na aquisição de direitos sobre uma mansão na Ilha Comprida, no Rio de Janeiro (numa área da União, o que já é controverso).

Como se não bastasse esse “pecado original”, Flávio, que ficou encantado com a casa, teria feito de tudo para adquiri-la, após sua proposta de compra ter sido recusada.

O jogador acusou o senador e Willer Tomaz (novamente ele) de terem conseguido os direitos sobre o imóvel por meio de uma manobra judicial e administrativa.

Os clássicos

Mas, falar da carreira de Flávio Bolsonaro é também lembrar daqueles que já se tornaram seus clássicos. Um deles é o caso da rachadinha, ocorrido quando Flávio era deputado estadual.

O Ministério Público do Rio de Janeiro investigou a suspeita de que funcionários do seu gabinete devolvessem parte dos salários, em esquema associado a Fabrício Queiroz. Flávio e outros envolvidos foram denunciados em 2020 por crimes como peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Posteriormente, decisões judiciais anularam provas importantes, e a denúncia foi rejeitada.

Nesse contexto, o Ministério Público também examinou transações de compra e venda de imóveis realizadas por Flávio, investigando se poderiam ter servido para ocultar recursos provenientes das rachadinhas ou lavar dinheiro.

Outro clássico é o da franquia de loja de chocolates, da qual Flávio era sócio de Alexandre Ferreira Dias Santini (aquele que, mais tarde, em disputa com o ex-sócio, revelou o caso das festinhas publicado pelo PlatôBR).

Os investigadores suspeitavam de possíveis inconsistências financeiras e utilização do negócio para lavagem de dinheiro, dado o altíssimo volume de recursos envolvendo a loja. O caso foi atingido por decisões judiciais que invalidaram provas da investigação das rachadinhas. Apesar dos recursos do MP para rever decisão, o processo não foi adiante.

A lista poderia ser maior se consideradas, ainda, as relações de Flávio com milíciase com policiais que atuam à revelia da lei, situações estas que ainda não renderam investigações ou processos diretamente contra o senador. O que se sabe, no entanto, é que o Brasil não pode ficar nas mãos de alguém com esse tipo de ligação e com tantas ilicitudes nas costas, que quer usar a presidência para se safar.