Em louvor ao comunismo: dez pães de queijo e uma ideia perigosa
O estado de Minas Gerais, no interior do Brasil, é a terra do pão de queijo – iguaria feita de polvilho de mandioca e queijo, crocante por fora e macia por dentro. É em torno desse quitute que se passa uma fábula sobre a ética comunista. No “fundão” de Minas, havia um bar com fama de assar o melhor pão de queijo da região. Certo dia, entrou um jagunço – homem rude e armado – e perguntou quantos pães de queijo havia à venda. Ao saber que eram dez, decretou: “Vou levar todos que você tem”. O dono do bar retrucou: “Acha que só o senhor gosta do meu pão de queijo? Nada disso. Pode levar no máximo dois. Todo mundo aqui tem o direito de comer”.
Gosto desse episódio porque, para mim, os princípios do comunismo antecedem sua transformação em ciência. Sem jamais ter lido Marx e Engels, o dono de um boteco remoto pode praticar, intuitivamente, a ética comunista. É uma ética anterior ao Manifesto Comunista, publicado em 1848. O texto situou a luta de classes no centro de uma explicação materialista da história e apontou o socialismo científico como alternativa ao capitalismo. O Manifesto deu explicação histórica e material a uma pergunta muito mais antiga: por que alguns podem tudo e outros podem tão pouco?
Essa inquietação atravessou séculos e revoltas – dos escravizados que se levantaram sob Espártaco em Roma aos camponeses revolucionários de Thomas Müntzer na Alemanha, passando pelos levantes indígenas e quilombolas nas Américas. Naturalmente, nem toda aspiração à igualdade conduz ao comunismo. Mas há nelas a intuição de que o mundo não precisa ser organizado para que poucos concentrem riqueza, poder e o direito de decidir o destino dos demais. Por isso, “igualdade” é uma palavra perigosa – uma bomba de oxigênio num mundo asfixiado pela hierarquia. Quando levada a sério, a igualdade é um ataque direto ao establishment, em qualquer latitude e sob qualquer temperatura.
A história da defesa da igualdade é também a história de sua criminalização. Antes de ser derrotado politicamente, quem ameaça a ordem precisa ser derrotado moralmente: ele se torna perigoso, subversivo, estrangeiro, inimigo da família, da religião, da pátria ou da civilização. Cada época encontra seu vocabulário para dizer a mesma coisa. Perseguir quem fala em igualdade é a semente mais antiga do anticomunismo – uma propaganda que, no fundo, não precisa nem de comunistas para existir; precisa apenas de alguém que ameace a ordem.
O anticomunismo moderno tem uma lógica própria e objetivos muito concretos – mas também bebe na fonte da tradição de transformar a aspiração à igualdade em ameaça. No Brasil, a propaganda anticomunista foi o combustível ideológico com que nossas elites legitimaram golpes de Estado em 1937 e 1964. Em ambos, construiu-se ou ampliou-se o fantasma de uma revolução comunista iminente. Quem dera que o Brasil estivesse tão perto dela quanto fizeram parecer os que usaram o medo do comunismo para destruir a democracia.
Se a igualdade sempre foi perseguida, militar sob a sua bandeira nos anos 1990 exigia uma dose dobrada de convicção. Minha história com o comunismo data de um momento em que, para muita gente, essa palavra parecia pertencer ao passado. Comecei a militar no Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em 1995, ainda adolescente. Era o auge do que Francis Fukuyama chamou de “fim da história”. A fumaça da queda do Muro de Berlim ainda pairava no ar, o bloco socialista no Leste Europeu havia desmoronado e uma onda de capitulação varria partidos comunistas. O capitalismo celebrava sua vitória.
No Brasil, os ventos sopravam na mesma direção – 1995 foi o ano em que o neoliberalismo desembarcou de vez, com o início do governo privatista de Fernando Henrique Cardoso. Quando decidi entrar para um partido comunista, não tinha plena consciência do peso histórico da escolha, embora soubesse que a derrota de uma experiência histórica não significava a derrota definitiva de uma ideia. Mas ser comunista, ali, era ir na contramão da história. Depois vieram os cinco mandatos progressistas de Lula e Dilma Rousseff, e a América Latina viveu a “onda rosa”. Nada disso parecia natural em 1995.
Diferentemente da maioria dos jovens que ingressam no PCdoB, meu caminho não passou primeiro pelo movimento estudantil, sindical ou popular. A porta de entrada foi o próprio Partido, onde encontrei uma forma de interpretar o mundo, uma história à qual me vincular e uma organização coletiva. Com o tempo, além da militância de base, atuei na Comunicação e virei dirigente. Hoje, sou editor-adjunto de seus portais e secretário de Comunicação do PCdoB na cidade de São Paulo. O Partido atua nas frentes institucional, social e de ideias. Foi nesta última que encontrei minha principal trincheira.
Marx e Engels nos legaram uma ciência – um método para ler as sociedades, suas contradições e as forças que as transformam. Mas o comunismo não vive apenas nos livros. “Cada passo do movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas”, escreveu Marx em 1875, numa carta a Wilhelm Bracke, no contexto de sua crítica ao Programa de Gotha. A teoria existe para compreender a realidade e transformá-la. O programa aponta uma direção; o movimento real é a caminhada – uma greve vencida, um direito conquistado, uma consciência despertada, um pão de queijo repartido.
Toda trajetória militante é particular, mas ninguém luta sozinho. Em algum momento, descobrimos que aquilo que parecia uma indignação individual tem causas sociais – e que, portanto, as respostas também precisam ser coletivas. O comunismo, mesmo como ciência, pode – e deve – ser profundamente mundano: é caminhando que se acumulam forças, se elevam consciências e se aprende a lutar.
Esta é também a convicção que o PCdoB reafirmou em seu 16º Congresso: a luta pelo comunismo não nos afasta das batalhas concretas do presente. Ao contrário. É por acreditarmos que outra sociedade é possível que disputamos cada avanço democrático, cada direito social, cada espaço de soberania nacional e cada conquista dos trabalhadores. O horizonte dá sentido à caminhada.
Minha trajetória é apenas uma pequena parte dessa história coletiva. A militância é o elo que transforma uma percepção individual em força histórica. Sou comunista porque me recuso a acreditar que o capitalismo seja o último capítulo da aventura humana. Hoje, aos 46 anos, continuo a pensar como o dono do pequeno boteco do “fundão” de Minas Gerais: se há dez pães de queijo e uma pessoa quer levar todos, alguma coisa está errada. Os outros também têm o direito de comer. O comunismo é a intuição mineira de que o pão de queijo fica ainda mais gostoso quando você sabe que seu vizinho também vai comer um.
* Publicado originalmente na edição de outubro da Marxistische Blätter (Artigos Marxistas), revista teórica ligada ao Partido Comunista Alemão (DKP). A edição teve como tema “Em Louvor ao Comunismo” e teve colaboradores de diversas regiões do mundo e da própria Alemanha. A cada um deles, a revista solicitou um artigo sobre o que o comunismo lhe significava pessoalmente.




