Foto original: Joédson Alves/Agência Brasil

Para manter sua tradição, às vésperas do segundo turno de uma das mais importantes eleições presidenciais pós-redemocratização, a Globo joga com o futuro do País em troca de seus interesses. No caso, os relacionados aos prejuízos publicitários resultantes da proibição das bets e aos efeitos da nova escala de trabalho estabelecida com o fim da 6×1.

Segundo revelado pelo jornalista João Paulo Biage, do jornal O Povo, do Ceará, no menu do almoço que antecedeu a entrevista do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) ao canal, na sexta-feira (16), estavam temas como a insatisfação da Globo com as duas medidas, bem como a sinalização do senador para acabar com ambas, caso seja eleito. No encontro, estavam o presidente do Grupo Globo, João Roberto Marinho, e o vice-presidente de Relações Institucionais, Paulo Tonet.

Conforme apurado pelo jornalista, os executivos teriam levantado que a proibição das bets pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva atingiu as receitas do grupo, tanto por sua participação na MGMBet quanto pela perda de publicidade de empresas de apostas em seus canais e em eventos esportivos.

Neste caso, Flávio teria afirmado aos executivos que já existe um acordo no Congresso Nacional para permitir novamente as apostas on line. Essa modalidade de jogatina foi alvo de Lula devido aos graves problemas de saúde e econômicos que vinham causando a milhares de brasileiros.

Os representantes da Globo também teriam demonstrado inconformidade com o fim da escala 6×1, uma das prioridades do governo Lula aprovada pelo Senado na quarta-feira (14) e promulgada dois dias depois.

Para contornar a situação, a reportagem aponta que o grupo Globo teria atuado para aprovar uma emenda que deixaria os trabalhadores das empresas de comunicação fora dos benefícios decorrentes do fim da escala 6×1. Essa emenda, entretanto, foi rejeitada pela relatoria.

Não é segredo que Flávio sempre se posicionou contra reduzir o número de dias e horas trabalhadas. Ignorando o peso que a escala 6×1 e a jornada de 44 horas semanais têm sobre a grande maioria dos trabalhadores (em especial das mulheres), o senador sempre se vinculou aos interesses do empresariado, contrário à redução.

Na semana passada, numa jogada oportunista, o senador resolveu votar favoravelmente. Mas, na mesma semana, foi noticiado, na Folha de S.Paulo, que Flávio Bolsonaro afirmou a interlocutores que, se eleito, pretende mudar a legislação. Ele tem defendido a negociação entre patrões e empregados para trabalhar por hora, alternativa que criaria grande instabilidade, precarização e perdas salariais para os trabalhadores.

Reação de Lula

Tão logo a notícia do almoço veio à tona, ainda no dia 16, Lula reagiu. Durante ato na cidade de Ipatinga (MG), o presidente declarou: “Hoje é dia do Flávio fazer a entrevista dele. Sabe o que aconteceu agora de tarde? Ele foi almoçar com a direção da Globo. Ele foi almoçar com a direção da Globo no dia da entrevista dele”.

O presidente prosseguiu afirmando: “Certamente, a Globo está com raiva de mim porque eu acabei com bets e ela tinha a bet. Certamente, a Globo está com raiva de mim porque nós aprovamos o fim da escala 6×1. Certamente, ela está com raiva de mim porque sabe que eu vou dar o transporte gratuito no final de semana para o povo brasileiro”.

Já o coordenador de campanha de Lula, o senador Camilo Santana (PT-CE) disse que a campanha considera a reunião como “inoportuna” e “inadequada”, principalmente “no dia de hoje”.

Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, também criticou o encontro: “O candidato ser recebido no dia que tem uma entrevista nos deixa preocupados”.

Na ocasião, respondendo sem responder, a Globo emitiu nota dizendo que a visita de Flávio foi institucional e sem a participação de jornalistas.