Um cartaz com a imagem do líder cubano Fidel Castro durante a comemoração do Dia do Trabalhador, em 1º de maio de 2025, na Praça da Revolução, em Havana

No dia em que Fidel Alejandro Castro Ruz completaria 100 anos, o Entrelinhas Vermelhas desta quinta-feira (13) dedica sua edição à trajetória, ao pensamento e ao legado do líder da Revolução Cubana. A conversa com o diplomata Benigno Pérez Fernández, cônsul-geral de Cuba no Brasil e ex-vice-ministro das Relações Exteriores, percorre episódios históricos e chega aos desafios enfrentados atualmente pela ilha.

A entrevista integra o especial pelos 100 anos de Fidel e procura responder a uma pergunta que, para o diplomata, tem uma resposta no presente: quem é Fidel?

Pérez estabelece um paralelo entre Fidel e José Martí, duas figuras que, em momentos diferentes, marcaram profundamente a história cubana. Para ele, a dimensão de Fidel ultrapassou as fronteiras nacionais.

“Fidel já não é de Cuba. Eu acho que Fidel é do mundo, sobretudo da América Latina”, afirma.

A ideia central da entrevista é que a morte de Fidel, em 2016, não encerrou sua influência política. Ao contrário, seu pensamento continuaria sendo referência para uma Cuba submetida a circunstâncias que o diplomata considera particularmente difíceis.

Assista a íntegra da entrevista:

“Revolução” como síntese de um pensamento

Entre os vários discursos de Fidel, Pérez escolhe um trecho pronunciado em 1º de maio de 2000 e o apresenta como uma espécie de testamento político. É o conhecido “Conceito de Revolução”, que sintetiza valores como igualdade, liberdade, solidariedade, ética, independência e soberania.

Para o diplomata, o texto permanece atual porque coloca a ética e a soberania no centro da ação política. Revolução, nessa perspectiva, não seria apenas mudança institucional, mas também uma postura diante da sociedade e dos demais seres humanos.

Uma das lembranças apresentadas por Benigno Pérez é particularmente simbólica. Ele recorda que Fidel pediu, antes de morrer, que seu nome não fosse utilizado em escolas, ruas ou monumentos.

A Assembleia Nacional cubana aprovou posteriormente uma legislação para respeitar essa vontade.

O diplomata também relata um encontro ocorrido em 2005, quando era embaixador no Equador. Durante uma cúpula do Movimento dos Países Não Alinhados, o então presidente equatoriano Alfredo Palacio, médico, solicitou uma audiência com Fidel.

Segundo Pérez, a simplicidade do ambiente surpreendeu o presidente equatoriano: uma cama, uma pequena televisão e duas cadeiras. A lembrança é utilizada para ilustrar uma das características que o entrevistado considera centrais na personalidade de Fidel: a distância entre sua projeção internacional e seu modo pessoal de viver.

O túmulo também expressaria essa concepção. Fidel está enterrado no Cemitério de Santa Ifigênia, em Santiago de Cuba, sob uma pedra com uma pequena placa.

Unidade, ética e a recusa da derrota

Na interpretação de Pérez, outra grande contribuição de Fidel foi a capacidade de construir unidade política.

Ele lembra que diferentes organizações participaram da luta contra a ditadura de Fulgencio Batista — o Movimento 26 de Julho, o Diretório Revolucionário e o Partido Socialista Popular — e que a Revolução posteriormente conduziu à formação do Partido Comunista de Cuba.

“Uma das grandes conquistas de Fidel: somar e não dividir”, resume.

“Você não está derrotado”

A entrevista recupera ainda uma das histórias mais conhecidas da Revolução: o encontro entre Fidel e Raúl Castro em Cinco Palmas, depois da dispersão dos guerrilheiros que chegaram a Cuba no Granma.

Raúl teria cinco homens e sete fuzis. Diante da situação aparentemente desesperadora, Fidel respondeu, segundo a narrativa: “Agora sim ganhamos a guerra.”

Para Benigno Pérez, essa passagem resume o chamado “otimismo revolucionário”: não uma ingenuidade diante das dificuldades, mas a convicção de que uma derrota só se torna definitiva quando se aceita que ela é definitiva.

É nesse ponto que a memória histórica se conecta diretamente ao presente cubano.

A guerra que Fidel previu

A entrevista também recupera uma carta atribuída a Fidel, escrita em 1958, antes da vitória revolucionária. Nela, o líder cubano antecipava que, depois da guerra contra Batista, enfrentaria uma disputa ainda maior com os Estados Unidos.

Décadas depois, Pérez interpreta a passagem como demonstração da capacidade de Fidel de projetar cenários políticos para além do presente.

“Fidel viajava ao futuro e voltava”, sintetiza o diplomata.

No centenário de seu nascimento, portanto, o debate proposto pelo Entrelinhas Vermelhas não se limita a perguntar o que Fidel fez. A pergunta mais provocadora é outra: o que de suas ideias permanece capaz de orientar o futuro?

por cezar xavier