Negros e jovens continuam sendo os que mais morrem em intervenções policiais
A sétima edição do relatório “Pele Alvo”, da Rede de Observatórios de Segurança, reafirma uma das faces mais cruéis do racismo no Brasil: 86% das pessoas mortas em intervenções policiais no ano passado eram negras. Além disso, a maioria (57%) era de jovens entre os 18 e os 29 anos. O número de mortes por esse tipo de ação letal (4.330) cresceu 6,4% em 2025 — em sete anos, o total foi de 28.799.
A rede acompanha o cenário de violência em nove estados: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo e usa dados das secretarias de Segurança Pública. Somente no Rio, palco da maior chacina policial da história — nos complexos da Penha e do Alemão, com a morte de 122 pessoas — o aumento desse tipo de ocorrência foi de quase 14%.
A análise dos dados mostra o forte grau de desproporção entre as vítimas de diferentes raças nessas abordagens. O Amazonas tem a pior relação, com 96% dos mortos sendo negros, um aumento de 6 pontos percentuais frente ao relatório anterior. Em seguida estão Pernambuco e Bahia (94%) e Pará (93%).
Considerando a taxa de mortes decorrentes de ações policiais por 100 mil habitantes (brancos e negros), a Bahia tem a pior correlação, com 11 mortes para cada 100 mil — os brancos respondem por 2,9. O Pará vem em seguida com oito mortos negros (e 2,4 brancos) a cada 100 mil habitantes. A terceira pior relação está no Rio, com 6,3 negros e 1,1 brancos mortos dessa maneira a cada 100 mil habitantes.

Nesse universo, os jovens também são os principais alvos. Os que têm até 29 anos continuam sendo os que mais morrem dessa forma, respondendo por quase 65% (ou 2.804).
“O traço mais cruel e inadmissível da letalidade estatal reside na interrupção precoce e violenta do amanhã de uma geração que mal começou a ser desenhada. O escândalo de 310 mortes de garotos de 12 a 17 anos nos nove estados monitorados pela Rede de Observatórios expõe uma realidade estarrecedora que precisa ser colocada definitivamente no centro das atenções”, salienta o relatório.
O documento prossegue dizendo que “longe de ser um mero efeito colateral ou um desvio burocrático, a aniquilação de vidas tão jovens por agentes de segurança pública consolida-se como a expressão mais grave de uma política de Estado racista e falida, focada na produção da morte em vez da preservação da vida”.

Metrópoles do medo
São Paulo e Rio de Janeiro, dois dos principais estados do País, são os maiores símbolos da falência do modelo de segurança pública que vem sendo majoritariamente aplicada desde a redemocratização e defendida pela direita: violento, punitivista, policialesco e de baixíssima efetividade no combate ao crime organizado.
A metrópole paulista registrou 834 mortes decorrentes da violência policial em 2025. Embora o número seja muito menor do que o registrado, por exemplo, na Bahia (1.570), trata-se de uma quantidade alarmante. No estado, a população negra é de 40%, mas esse estrato representa 65% dos mortos pela polícia. Quase 99% são homens, de 18 a 29 anos (42%) ou de 30 a 39 anos (28%). Cerca de 30% dessas mortes ocorreram na capital.
O relatório aponta para uma contradição importante na cidade de São Paulo: se por um lado as câmeras do Smart Sampa comunicam-se diretamente com a polícia para ações imediatas, as do programa Olho Vivo, instaladas em uniformes e viaturas policiais, são frequentemente interrompidas em momentos decisivos. “No fim, há câmeras e câmeras: umas reforçam a ideia de eficiência, outras, quando mal utilizadas, escondem abusos”, pondera o relatório.
Nesse sentido, a adoção correta das câmeras poderia ter poupado muitas vidas. Após sua implantação, o número de mortes causadas por policiais caiu sensivelmente: de 814 em 2020 para 419 em 2022. A partir do governo Tarcísio de Freitas, iniciado em 2023, os números voltaram a crescer: 510 mortes naquele ano, 812 em 2024 e 834 em 2025. “O retorno dos índices negativos evidencia que a redução era possível, mas foi abandonada”, diz o documento.
Outro caso emblemático é o do Rio de Janeiro, que teve 800 mortes por intervenção policial somente em 2025. A principal ocorrência foi no final de outubro, quando 122 perderam a vida no Alemão e na Penha, em operação comandada pelo governo do estado, na época a cargo de Cláudio Castro. Desses, 117 eram civis e cinco, policiais.
Do total de casos registrados no ano passado, 88% das vítimas eram negras, numa população em que esse segmento representa praticamente 58% do total. O perfil segue o mesmo dos demais, com a maioria de homens (96%) e jovens de 18 a 29 anos (409); 56% dessas mortes ocorreram na capital.
Conforme o levantamento, o alto número de mortes provocadas por policiais expressa “os efeitos concretos de uma política baseada na letalidade” e a concentração desses óbitos na capital “evidencia que a adoção de práticas marcadas pela necropolítica serve para mascarar a ausência de combates estruturais ao crime organizado”.
Norte e Nordeste
Assim como ocorre nos grandes centros do Sudeste, no Norte e no Nordeste também é alto o índice de letalidade policial, sobretudo contra negros e jovens.
Para ficar em alguns dos cenários mapeados pela Rede, no Amazonas, a quantidade de mortes decorrentes da intervenção policial oficialmente registrada, 43, se manteve no mesmo patamar de 2024, sendo o menor registrado desde 2020. No entanto, houve um aumento de 35% de casos no interior do estado, que agora concentra quase 63% do total, distribuídas em 16 municípios — antes, eram dez.
Esse aumento pode ter relação com o avanço de facções criminosas pelos interiores do Brasil, cuja resposta mais óbvia do poder público é o incremento no efetivo policial — que traz consigo a reprodução de vícios arraigados e da mesma lógica que marca historicamente as polícias no Brasil.
Desse total de mortes, 96% eram negros (a proporção desse segmento na população geral do estado é de 74%); todos eram homens e 60% (ou 26 vítimas) tinham entre 18 e 29 anos; outros 25% tinham entre 30 e 39 anos.
Vale destacar, ainda, a situação de dois dos principais estados do Nordeste. No caso da Bahia, quase 80% da população é negra, a maior proporção do Brasil. Mas os negros são quase 94% das vítimas da letalidade policial — são 1.243 mortes de um total de 1.570, o maior número encontrado entre os estados analisados pela Rede de Observatórios da Segurança.
Da mesma forma, homens (99%) e jovens são a maioria: mais de mil dessas mortes foram na faixa dos 18 a 29 anos e nove em cada dez eram adolescentes (de 12 a 17 anos). “Trata-se de uma geração inteira atravessada pela precarização da vida, pela ausência de direitos e pela presença quase exclusiva da violência estatal em seus territórios”, diz o relatório.
Com base nos dados obtidos, os pesquisadores também ressaltam que o contexto da “guerra às drogas”, principal modelo adotado pelos estados, “segue funcionando como justificativa para o encarceramento, a militarização e a letalidade. Essa política fracassada não reduz a violência, mas intensifica vulnerabilidades e produz ciclos permanentes de trauma, medo e luto nas periferias”.
No caso do Ceará, o relatório aponta que 2025 teve o maior número de mortes causadas por policiais dos últimos seis anos. Embora sejam 71% da população, os negros representam 87% desses óbitos — mas, 57% dos registros não contavam com informações sobre raça ou cor. Jovens dos 18 aos 29 também foram o perfil mais afetado, com 64% do total.
“Em um contexto de avanço da militarização, hipervigilância e pouca transparência para os cidadãos, o racismo se institucionaliza a passos largos, sob a justificativa da guerra contra o crime, na qual a repressão é a única estratégia executada”, pontua o relatório.

