Lula cobra pacto nacional para transformar ciência em prioridade
24.07.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com lideranças do sistema de ciência e tecnologia no Brasil, na Sede da SBPC, São Paulo – SP. Foto: Ricardo Stuckert
Em encontro com dirigentes das principais instituições científicas do país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um apelo para que a comunidade acadêmica apresente um projeto capaz de mobilizar não apenas pesquisadores, mas toda a sociedade em torno da ciência como eixo do desenvolvimento nacional. Para ele, o Brasil precisa abandonar políticas descontínuas e estabelecer um compromisso de longo prazo com a pesquisa, a inovação e a educação.
“Apresentem um projeto de ciência que seja convincente, não apenas para os cientistas e pesquisadores, mas que a gente possa convencer a sociedade de que, com aquilo, o Brasil dará um salto de qualidade”, afirmou. Segundo Lula, somente uma estratégia permanente permitirá ao país alcançar um novo patamar tecnológico. “Se a gente definir investimentos por dez anos, cinco anos ou quinze anos, a gente resolve. Se ficar dependendo da vontade de cada governo, não teremos jeito.”
O encontro reuniu representantes da SBPC, da Academia Brasileira de Ciências, da CAPES, do CNPq, da Finep, universidades federais e estaduais e instituições de pesquisa. Nas intervenções iniciais, os dirigentes ressaltaram a importância da recomposição dos investimentos em ciência e tecnologia desde 2023, defenderam previsibilidade orçamentária para o setor e destacaram o papel da pesquisa na inovação, na formação de recursos humanos e na competitividade da economia brasileira.
O presidente anunciou que pretende discutir o tema na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no Rio de Janeiro, e pediu que as entidades levem propostas concretas para estruturar uma política nacional de ciência e tecnologia.
Educação não é gasto, é investimento
A maior parte do discurso foi dedicada à defesa da educação pública como instrumento de inclusão social. Lula afirmou que o Brasil demorou décadas para compreender que universidades, institutos federais e pesquisa científica deveriam atender toda a população, e não apenas uma elite.
“A primeira grande briga que fiz no governo foi proibir tratar educação como gasto”, disse. Em seguida, criticou a lógica fiscal que, segundo ele, restringe investimentos sociais enquanto naturaliza despesas financeiras. “Ninguém escreve que gastar com juros poderia significar menos dinheiro para educação.”
O presidente lembrou a expansão das universidades federais, dos institutos federais e das políticas de cotas, destacando a mudança no perfil do ensino superior. “A alegria que eu tenho hoje é ver a USP com metade dos estudantes negros, pardos e da periferia. A USP era uma universidade de brancos e de classe média.”
Pesquisa deve gerar inovação
Lula também defendeu uma ciência mais conectada às necessidades do desenvolvimento econômico. Segundo ele, durante muito tempo o país produziu conhecimento que permanecia restrito ao ambiente acadêmico.
“As pessoas pesquisavam, faziam suas teses e colocavam o resultado na gaveta. Hoje elas querem transformar a pesquisa em algo útil para todo mundo”, afirmou.
Nesse contexto, citou como exemplos a Nova Indústria Brasil, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), as pesquisas que permitiram a exploração do pré-sal e o potencial brasileiro em minerais críticos e terras raras. Para o presidente, o país não pode repetir o modelo histórico de exportação de matérias-primas sem agregação de valor.
“O Brasil não será exportador de terras raras e minerais críticos in natura”, declarou. “Nós temos que nos qualificar para sermos donos do que existe no nosso território.”
Ciência também é soberania
Ao relacionar pesquisa científica e defesa nacional, Lula afirmou que o país precisa desenvolver capacidades próprias para proteger seu território e seus recursos estratégicos. Defendeu a elaboração de um plano nacional de defesa compatível com a dimensão territorial brasileira e ressaltou que ciência, tecnologia e inovação também são instrumentos de soberania.
Para ilustrar sua preocupação, lembrou conflitos históricos e observou que improvisar diante de ameaças custa muito mais do que investir preventivamente em conhecimento, tecnologia e capacidade industrial.
Lideranças científicas defendem continuidade
Ao encerrar a reunião, Lula reiterou que espera receber das entidades uma proposta capaz de transformar a ciência em política de Estado. “Pode contar comigo”, afirmou, “mas é preciso convencer o país de que investir em conhecimento é investir no futuro do Brasil.”
(por Cezar Xavier)

