Sindicato dos Bancários da Bahia lançou em julho sua mobilização pela campanha salarial

O primeiro semestre de 2026 consolidou uma recuperação do poder de compra da classe trabalhadora brasileira. De acordo com o Boletim Negociação nº 70 do Dieese, 87,7% (arredondado para 88% nas bases sindicais) dos acordos coletivos da data-base de junho garantiram reajustes salariais acima da inflação medida pelo INPC-IBGE. No entanto, esse panorama macroeconômico positivo esconde disputas acirradas em categorias estratégicas. Bancários e metalúrgicos, em negociações nacionais e regionais, enfrentam resistência patronal para transformar a recuperação inflacionária em ganhos estruturais, como redução de jornada, defesa do emprego e condições dignas de trabalho.

Os dados do Dieese provam que a capacidade de reposição salarial ainda existe no Brasil. Contudo, os impasses nos setores bancário e metalúrgico revelam uma estratégia patronal clara: conter ganhos reais e postergar melhorias estruturais, especialmente aquelas que tocam na organização do trabalho e na distribuição de lucros.

O paradoxo dos lucros e a pressão sobre os bancários

Apesar dos indicadores favoráveis ao trabalhador, o setor financeiro mantém um discurso de contenção. Andreia Sabino, bancária, dirigente da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) e integrante do Comando Nacional dos Bancários, aponta a contradição entre a narrativa patronal e a realidade dos balanços.

“Os bancos continuam sustentando o mesmo argumento dos anos anteriores: que precisam agir com prudência diante das incertezas do cenário econômico, da redução dos juros e da concorrência com as fintechs”, afirma Andreia. Ela rebate: “Quando analisamos os resultados concretos, esse argumento perde força. Os maiores bancos seguem registrando lucros bilionários, com elevada rentabilidade e forte remuneração aos acionistas. Esses resultados são fruto, sobretudo, do trabalho dos bancários e das bancárias, que adoecem devido à pressão e às agências superlotadas, enquanto os postos de serviço são fechados”.

A dirigente também alerta para um fator jurídico que acelera o ritmo das mesas: a perda da ultratividade das normas coletivas. “Com a proximidade do fim do nosso acordo, precisamos correr nas mesas, e isso pressiona muito as negociações”, complementa.

Saúde mental e emprego no centro da pauta nacional

A deterioração das condições de trabalho no setor financeiro deixou de ser um tema secundário para se tornar o eixo central da campanha. Elder Perez, presidente do Sindicato dos Bancários da Bahia, traz dados alarmantes que sustentam a luta por mudanças estruturais.

“Embora sejamos menos de 1% dos trabalhadores formais do país, representamos 25% dos trabalhadores com doenças emocionais e comportamentais reconhecidas pelo INSS. Mais de 50% da categoria faz uso de medicação controlada, como ansiolíticos e antidepressivos”, denuncia Perez, que classifica o trabalho bancário como “estruturalmente adoecedor”.

Outro elemento relevante em relação ao fechamento de agências e a transferência dos clientes para os canais virtuais, a responsabilidade das operações financeiras e a segurança dessas operações passa a ser do próprio usuário e seus celulares e computadores particulares, mesmo com pagamentos mensais de tarifas bancárias. “Tem sido cada vez mais frequente, casos de PIX indevidos, recarga de celular que vai para número diferente, em que a resposta do banco é ‘ligue para essa pessoa e peça para ela devolver o crédito’”. 

A questão da segurança também deixou de ser um problema das agências e passou a ser o celular, alvo de roubos e sequestro de dados. “Não somos contra a tecnologia. A tecnologia tem a sua conveniência, a sua utilidade, mas ela precisa estar a serviço da população”. Perez diz ainda que, com o fechamento de agências há uma demanda crescente pelo atendimento presencial, com as poucas agências sempre lotadas, o mês inteiro. 

Nas mesas com a Fenaban, a defesa do emprego ganhou urgência. Em apenas um ano, cerca de 15 mil postos de trabalho foram eliminados no sistema financeiro. O Comando Nacional pediu a suspensão de demissões e fechamento de agências durante a campanha, além de estabilidade para mulheres vítimas de violência doméstica. A Fenaban recusou ambos os compromissos, mas se comprometeu a analisar propostas sobre verba de qualificação e indenização adicional por rescisão.

Houve, contudo, avanços pontuais relatados por Perez: a Fenaban aceitou incluir na convenção coletiva uma definição clara de assédio sexual e encaminhar denúncias de racismo e LGBTfobia de clientes aos canais de combate ao assédio. Sobre a reivindicação da escala 4×3, os bancos negaram avanços imediatos, mas aceitaram a participação de um especialista para aprofundar o debate. Outro ponto sensível é o endividamento da categoria: com 71% dos bancários endividados, o sindicato propôs um “Desenrola dos Bancários”, com redução de juros e isenção de tarifas, proposta que está em estudo pela Fenaban.

Impasse na Serra Gaúcha: metalúrgicos exigem piso digno e fim da vigilância

Na indústria, a tensão se concentra no Rio Grande do Sul. O Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias do Sul e Região repudia a postura do sindicato patronal (Simecs/Cimex) nas negociações do dissídio coletivo, com data-base em 1º de junho.

O presidente da entidade, Paulo Andrade, detalha as quatro pautas essenciais da categoria: reajuste pelo INPC (4,42%) mais 2% de ganho real; elevação do piso salarial de R$ 2.088 para R$ 3.500; redução da jornada de 44 para 40 horas semanais sem redução de salário; e o fim das câmeras de vídeo nas linhas de produção, classificadas como monitoramento abusivo e violação de privacidade.

“A oferta patronal até então foi de apenas 0,58% de ganho real”, critica Andrade. Diante da distância abismal entre as propostas, a direção sindical convocou uma assembleia geral extraordinária para esta quinta-feira (23), com o objetivo de intensificar a mobilização nas fábricas. “Vamos falar com os trabalhadores sobre a intransigência patronal, que não quer dar ganho real. Estamos na luta e vamos intensificar nossas assembleias”, afirma o dirigente.

Com o relógio correndo contra o fim da vigência dos acordos anteriores, a mobilização das bases será o fator decisivo para determinar se a tendência positiva de junho se sustentará nas grandes categorias ao longo do segundo semestre de 2026.

(por Cezar Xavier)