O WAIC, com duração de quatro dias, reúne mais de 1.000 representantes de empresas de tecnologia chinesas, autoridades, pesquisadores e figuras da indústria

Durante boa parte da última década, a liderança dos Estados Unidos em inteligência artificial parecia incontestável. Empresas como OpenAI, Google, Anthropic e Meta estabeleceram os principais padrões tecnológicos do setor, enquanto Washington utilizava sua superioridade em semicondutores e infraestrutura computacional como instrumento de poder geopolítico.

Esse cenário, porém, mudou rapidamente.

A Conferência Mundial de Inteligência Artificial (Waic), realizada em Xangai, marcou um momento simbólico da nova etapa da competição tecnológica. Ao reunir mais de mil representantes da indústria, pesquisadores e governos, o evento mostrou que a China já não busca apenas alcançar os Estados Unidos: pretende definir as regras internacionais da inteligência artificial.

A mensagem do presidente Xi Jinping durante o evento, na sexta-feira (17), foi direta. A IA, afirmou, não pode ser monopolizada por um único país nem submetida a barreiras tecnológicas motivadas por interesses geopolíticos.

Mais do que um discurso político, trata-se da apresentação de um projeto estratégico que poderá influenciar o rumo da chamada Quarta Revolução Industrial.

A diferença técnica praticamente desapareceu

O avanço chinês deixou de ser apenas quantitativo.

Segundo o relatório AI Index 2026, elaborado pela Universidade Stanford, a distância entre os principais modelos norte-americanos e chineses praticamente desapareceu. Em março de 2026, a vantagem do melhor modelo dos EUA sobre o principal concorrente chinês era de apenas 2,7%, após oscilar durante um ano inteiro em margens de um único dígito.

O relatório aponta que, desde 2025, modelos chineses chegaram inclusive a dividir temporariamente a liderança mundial em alguns rankings de desempenho.

Essa convergência significa uma mudança estrutural.

Durante anos, os Estados Unidos venceram tanto em inovação quanto em desempenho técnico. Agora, os especialistas observam uma disputa muito mais equilibrada, na qual fatores como custo, velocidade de implantação, disponibilidade e aplicações industriais passam a pesar tanto quanto a qualidade dos algoritmos.

Veja como a China se sai nos 20 melhores grandes modelos de linguagem do mundo, com base em habilidades de raciocínio, conhecimento, matemática e programação:

O código aberto virou arma estratégica

Se os Estados Unidos apostam majoritariamente em modelos proprietários, a China decidiu transformar o código aberto em sua principal vantagem competitiva.

Modelos como DeepSeek, GLM 5.2 e Kimi K3 podem ser baixados, modificados e adaptados por empresas e governos ao redor do mundo sob licenças abertas.

Essa estratégia possui duas consequências.

A primeira é econômica.

Ao permitir que desenvolvedores utilizem gratuitamente modelos altamente competitivos, Pequim reduz drasticamente os custos de adoção da inteligência artificial, especialmente nos países em desenvolvimento.

A segunda é geopolítica.

Quanto maior a adoção internacional desses modelos, maior será a influência chinesa sobre padrões técnicos, protocolos e ecossistemas digitais que sustentarão a próxima geração da economia global.

Não se trata apenas de exportar software.

Trata-se de exportar dependência tecnológica.

O “muro tecnológico” norte-americano mostra limites

Desde 2022, Washington ampliou sucessivamente as restrições à exportação de chips avançados, equipamentos de fabricação de semicondutores e infraestrutura de computação para empresas chinesas.

O objetivo era simples: retardar o desenvolvimento da IA chinesa.

Os resultados, entretanto, ficaram aquém do esperado.

Especialistas ouvidos pela Deutsche Welle afirmam que as limitações elevaram os custos chineses na fabricação doméstica de semicondutores, mas não impediram o acesso do país à capacidade computacional.

Mercados paralelos, serviços internacionais de computação em nuvem e estratégias alternativas permitiram que empresas chinesas continuassem treinando modelos de última geração.

Mais do que isso.

As restrições acabaram acelerando os investimentos chineses em autossuficiência tecnológica, reproduzindo um efeito semelhante ao observado anteriormente na indústria espacial e no setor de telecomunicações.

A verdadeira disputa agora é pela indústria

Enquanto boa parte do debate internacional se concentra nos chatbots, a China aposta em algo mais amplo.

Seu foco principal é incorporar inteligência artificial diretamente à produção industrial.

Fábricas automatizadas, robótica, logística, energia, manufatura e cidades inteligentes aparecem como prioridades nacionais.

Analistas afirmam que essa integração avança em ritmo superior ao observado nos Estados Unidos, impulsionada pela forte coordenação entre Estado, universidades e grandes empresas privadas.

É uma estratégia diferente da norte-americana.

Enquanto os EUA concentram boa parte da inovação em produtos digitais e serviços, a China procura transformar toda sua estrutura produtiva utilizando IA.

A batalha pela governança global

Outro elemento importante apresentado na Waic foi a consolidação da Waico, organização internacional proposta por Pequim para discutir governança em inteligência artificial.

Segundo Xi Jinping, a entidade já reúne 29 países e pretende representar especialmente os interesses do Sul Global.

Na prática, a iniciativa oferece uma alternativa à arquitetura regulatória defendida pelos Estados Unidos e seus aliados.

A disputa deixa de ocorrer apenas entre empresas.

Ela passa a envolver instituições multilaterais, padrões regulatórios, regras comerciais e mecanismos internacionais de certificação tecnológica.

Quem estabelecer essas normas exercerá influência sobre mercados que movimentarão trilhões de dólares nas próximas décadas.

Stanford confirma nova configuração mundial

Os dados técnicos reforçam a percepção apresentada em Xangai.

O AI Index 2026 destaca que a competição entre os modelos de fronteira tornou-se extremamente equilibrada. Os quatro líderes globais estão separados por menos de 25 pontos nos rankings de avaliação, indicando que a vantagem tecnológica absoluta praticamente desapareceu.

Ao mesmo tempo, o relatório observa que a competição tende a migrar para outros critérios, como confiabilidade, custo operacional, eficiência energética e aplicações específicas para empresas e governos.

Em outras palavras, a próxima liderança poderá ser conquistada menos pelo algoritmo mais poderoso e mais pela capacidade de transformar essa tecnologia em infraestrutura econômica.

Muito além de uma corrida tecnológica

A inteligência artificial tornou-se o principal campo de disputa entre as duas maiores economias do planeta.

Os Estados Unidos ainda preservam vantagens importantes na produção de chips avançados, capacidade computacional e pesquisa de ponta.

A China, porém, reduziu rapidamente a distância técnica, acelerou a adoção industrial, consolidou um poderoso ecossistema de modelos de código aberto e passou a disputar também a liderança política sobre a governança global da IA.

Mais do que decidir quem produzirá os melhores modelos, essa competição determinará quem escreverá as regras da economia digital nas próximas décadas.

É uma disputa que transcende a tecnologia. Ela envolve comércio, diplomacia, segurança, cadeias produtivas e influência internacional — e poderá definir os vencedores da Quarta Revolução Industrial.

(por Cezar Xavier)