Bolsonarismo se organiza como “partido digital” para ocupar o Brasil
O Partido Digital Bolsonarista (2026), e-book organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira, é uma ambiciosa tentativa de entender a ação da extrema direita no Brasil. Recém-lançado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pelo Centro para Imaginação Crítica (CCI), o livro teoriza que o bolsonarismo desenvolveu uma nova forma de partido político.
Sua aparência nas redes sociais é caótica, mas o que parece espontâneo tem direção e a aparente desordem segue uma lógica própria de organização política. Segundo a obra, o bolsonarismo construiu uma estrutura política paralela, altamente coordenada e adaptada à lógica das plataformas digitais. Os autores chamam essa engrenagem de Partido Digital Bolsonarista (PDB).
Não seria apenas um conjunto disperso de influenciadores, parlamentares e militantes digitais, nem tampouco um partido tradicional que usa redes sociais. Trata-se de uma nova forma organizativa: um partido nascido digitalmente, sem estatuto, sem filiação formal e sem dependência direta das estruturas clássicas da democracia representativa.
Uma variante brasileira
No capítulo de abertura, Leonardo Martins Barbosa e Marcos Nobre mostram que a emergência do partido digital é uma transformação histórica, impulsionada pela internet e pelas redes sociais. O PDB atuaria à margem do sistema partidário formal, sem CNPJ, convenções ou registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A diferença é que, por sua informalidade, o partido digital escapa aos mecanismos clássicos de regulação eleitoral, não presta contas à Justiça e pode atuar simultaneamente em diferentes siglas sem perder unidade programática.
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O livro demonstra com competência que existe coordenação real entre influenciadores, parlamentares, produtores de conteúdo e militância bolsonarista. Essa coordenação aparece na sincronização de pautas, na circulação simultânea de narrativas e nos mecanismos de punição contra dissidentes.
Ao mesmo tempo, a obra talvez superestime a originalidade brasileira do fenômeno. Donald Trump remodelou o Partido Republicano com forte hiperpersonalização e mobilização digital permanente. Javier Milei chegou ao poder na Argentina apoiado muito mais em carisma midiático e circulação digital do que em uma estrutura partidária robusta.
Em diferentes países, a extrema direita combinou redes sociais, lideranças fortes e certa corrosão das mediações típicas da democracia liberal. Nesse sentido, o PDB parece menos uma ruptura inédita e mais a variante brasileira de uma transformação internacional mais ampla.
7 de Setembro
O capítulo mais original do livro é o de Paulo Yamawake sobre as “cadeias de lealdade”. Inspirado em Albert Hirschman, o autor mostra como o bolsonarismo construiu formas próprias de pertencimento político sem necessidade de filiação partidária formal. Em vez de diretórios e correntes internas, o que existe são redes de fidelidade entre influenciadores, parlamentares e militância digital. A hierarquia é definida por reputação, engajamento e capacidade de mobilização.
Como não há filiação, o custo de entrada no PDB é baixo. Mas o custo de saída pode ser altíssimo. Quem rompe com o bolsonarismo frequentemente perde audiência, alcance e relevância política. Mecanismos de exposição pública, linchamento virtual e cancelamento funcionam como instrumentos disciplinares.
Os capítulos de Mércia Alves e Carol Luck aprofundam empiricamente a análise. As autoras mostram como o bolsonarismo coordena campanhas digitais sem depender de um comando central explícito. O alinhamento aparece em padrões de comportamento: sincronização de postagens, repetição de repertórios e circulação simultânea de conteúdos em várias plataformas.
Outro capítulo particularmente forte analisa os atos de 7 de Setembro entre 2021 e 2025. As autoras os definem como uma espécie de “convenção partidária” do PDB. É o momento em que a hierarquia bolsonarista se torna pública: quem sobe ao palanque, quem é excluído, quem controla a mobilização. Ao levar multidões às ruas, o bolsonarismo demonstra que o digital se converte em força material concreta. O PDB usa as redes para organizar corpos no espaço físico, enquanto os atos de rua retroalimentam o ambiente digital.
Big techs e financiadores
Aqui aparece uma das limitações importantes do livro. As plataformas digitais potencializaram o bolsonarismo, mas não criaram sozinhas sua base social. O movimento se enraizou também em igrejas evangélicas, setores policiais, frações empresariais e redes conservadoras locais. O digital é o acelerador; a base ainda é analógica.
Essa discussão aparece também no excelente capítulo sobre financiamento. A pesquisa mostra como o bolsonarismo acumulou vantagem estrutural fora do calendário eleitoral oficial. Em vez de depender apenas de campanhas formais, o PDB mantém redes permanentes de circulação política.
O livro acerta ao mostrar que a expansão da extrema direita dependeu diretamente da ausência de regulamentação das plataformas digitais. Durante anos, as big techs lucraram com modelos de negócio baseados em polarização, viralização e engajamento emocional permanente. O bolsonarismo soube ocupar esse espaço antes dos partidos tradicionais.
Ao mesmo tempo, a obra dedica menos atenção ao papel do poder econômico. Quem financia efetivamente a infraestrutura bolsonarista? Qual o peso do empresariado, do agronegócio e de outros setores conservadores? O livro levanta pistas importantes, mas deixa perguntas abertas.
O teste de 2022
Os capítulos finais analisam a relação entre o PDB e o Partido Liberal (PL). De acordo com o livro, o bolsonarismo converteu uma legenda tradicional do Centrão em vetor de oposição permanente ao governo Lula. Conforme a pesquisa, parlamentares mais populares nas redes sociais tendem a assumir posições mais radicalizadas e oposicionistas dentro do PL.
Apesar dos méritos, o livro avança demais quando sugere que o domínio digital já se tornou o centro absoluto da política contemporânea. A principal dificuldade da tese aparece no maior teste disponível: a eleição presidencial de 2022. Bolsonaro disputou a reeleição com uma máquina digital poderosa e articulada, em plena operação. Lula, ao contrário, tinha uma campanha digital reconhecidamente inferior em sofisticação e organicidade. Mesmo assim, venceu.
Se o PDB já representava uma vantagem estrutural tão decisiva, por que perdeu justamente a eleição presidencial? O resultado não invalida o livro, mas relativiza qualquer interpretação determinista sobre o poder das redes. Identidade de classe, memória social, sindicatos, presença territorial, experiência concreta de governo, televisão, religiosidade popular e percepção econômica continuam pesando na definição do voto.
Nesse ponto, o livro vai melhor ao descrever o problema do que ao propor alternativas. Em alguns momentos, fica implícita a ideia de que a esquerda precisaria construir seu próprio “partido digital”. Mas a própria experiência bolsonarista sugere algo mais complexo. As igrejas evangélicas demonstram que territorialidade, comunidade e sociabilidade presencial continuam fundamentais para produzir poder político duradouro.
A disputa de 2026
O futuro provavelmente não será marcado pela substituição da política presencial pela política digital, mas por formas híbridas de organização. A esquerda dificilmente sobreviverá se ignorar a ofensiva das redes. Mas também pode cometer um erro grave se concluir que sindicatos, movimentos sociais, organização territorial e trabalho de base se tornaram obsoletos.
Ainda assim, O Partido Digital Bolsonarista é leitura obrigatória para compreender a extrema direita brasileira contemporânea. O livro mostra que o adversário da esquerda em 2026 não será apenas um candidato com sobrenome conhecido, mas uma estrutura política permanente, adaptada às plataformas digitais e altamente coordenada. Entender como essa engrenagem funciona, sem fetichizá-la, é um passo necessário para começar a enfrentá-la.

