20-11-2024 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva em reunião ampliada com o Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, no Palácio da Alvorada. Brasília – DF. Foto: Ricardo Stuckert

Em meio ao agravamento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, o presidente da China, Xi Jinping, aproveitou um telefonema com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para enviar um recado político e econômico de grande alcance: Pequim está pronta para “fortalecer ainda mais a coordenação estratégica bilateral e multilateral” com Brasília. A conversa, realizada no domingo (26), ocorre justamente quando o governo brasileiro busca alternativas para reduzir os impactos do novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e ampliar a diversificação de mercados.

Em publicação na rede X, Lula afirmou que os dois países reafirmaram o compromisso de aprofundar a parceria estratégica, acelerar as negociações para um acordo entre Mercosul e China e ampliar a cooperação em setores considerados decisivos para a economia do futuro, como inteligência artificial, satélites, beneficiamento de minerais críticos e fertilizantes. Também destacaram a necessidade de ampliar o comércio e fortalecer o diálogo político diante do cenário internacional cada vez mais instável.

“Conversamos sobre o fortalecimento da nossa parceria e a importância de proteger nossas economias de medidas unilaterais”, afirmou Lula. O presidente enfatizou que a união do Sul Global e dos BRICS é vital para garantir soberania.

Defesa do multilateralismo e do Sul Global

Segundo a agência estatal chinesa Xinhua e o Ministério das Relações Exteriores da China, Xi afirmou que Brasil e China, como importantes integrantes do Sul Global, devem permanecer “do lado certo da história” e atuar conjuntamente para aperfeiçoar a governança global, defender a equidade internacional e impulsionar uma cooperação mais robusta entre os países do BRICS. A coordenação citada por Xi inclui a liquidação de transações em moedas locais, reduzindo a dependência do dólar, e parcerias em tecnologia, consolidando um eixo que desafia a hegemonia de Washington.

Segundo o Diário do Povo, Xi garantiu que Pequim vê o Brasil como parceiro prioritário. A estatal destacou o desejo de elevar a cooperação no comércio e em fóruns como o G20. “Estamos dispostos a defender os interesses comuns dos países em desenvolvimento e promover a verdadeira multilateralidade”, pontuou o líder.

O líder chinês também declarou apoio ao Brasil na defesa de sua soberania, independência e oposição à interferência externa — mensagem interpretada como referência indireta ao ambiente de crescente pressão exercido por Washington sobre parceiros comerciais.

Economia, tecnologia e investimentos

Além do aspecto diplomático, o telefonema reforçou prioridades econômicas concretas. Xi destacou que o comércio bilateral atingiu novos recordes e elogiou os avanços obtidos com o alinhamento das estratégias nacionais de desenvolvimento. Lula, por sua vez, manifestou interesse em ampliar investimentos chineses em inteligência artificial, energia, mineração e infraestrutura, além de incentivar a instalação de novas empresas chinesas no Brasil.

O presidente brasileiro também parabenizou a China pela realização da Conferência Mundial de Inteligência Artificial de 2026 e afirmou compartilhar a visão de uma governança internacional aberta para essa tecnologia, tema que ganha peso crescente na agenda bilateral.

Na esfera internacional, os chefes de Estado reafirmaram o papel decisivo do BRICS e do G20 na construção de uma ordem mundial mais justa e multipolar. Xi Jinping ressaltou que as guerras tarifárias e o protecionismo não beneficiam nenhuma nação, defendendo a manutenção do sistema multilateral de comércio pautado nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para o Brasil, o estreitamento de laços com Pequim reforça a posição de autonomia estratégica do país diante dos solavancos do cenário geopolítico global.

Resposta diplomática ao tarifaço

Embora o tarifaço norte-americano não tenha sido mencionado nominalmente nas notas oficiais chinesas, o contexto confere significado especial à conversa. A aproximação entre Brasília e Pequim ocorre enquanto o governo brasileiro procura reduzir a dependência de mercados específicos e ampliar sua inserção internacional.

Ao defender a aceleração das negociações entre Mercosul e China, fortalecer o BRICS e ampliar a cooperação tecnológica e industrial, Brasil e China sinalizam que pretendem responder às incertezas do comércio internacional com maior integração entre economias emergentes. Mais do que um gesto protocolar, o telefonema consolidou a percepção de que a relação sino-brasileira se tornou um dos principais eixos da estratégia diplomática e econômica de ambos os países em um cenário marcado pelo aumento das disputas geopolíticas e comerciais.

(por Cezar Xavier)