Alan Greenspan, economista que comandou o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) por cinco mandatos consecutivos e conduziu a política monetária do país sob quatro presidentes, morreu aos 100 anos, nesta segunda-feira (22).

Sua morte reacendeu uma velha disputa sobre seu legado. Enquanto parte da imprensa financeira e do establishment econômico o homenageia como um dos mais influentes presidentes do banco central dos Estados Unidos, críticos lembram que sua trajetória esteve profundamente associada ao avanço da desregulamentação financeira, à concentração de riqueza e à formação das condições que culminaram no colapso global de 2008.

Durante quase duas décadas à frente do banco central norte-americano, Greenspan foi tratado como uma espécie de “oráculo” dos mercados. Sua palavra movia bolsas, influenciava governos e moldava políticas econômicas em todo o mundo. No entanto, a reverência construída em torno de sua figura contrasta com avaliações posteriores que apontam falhas graves de diagnóstico e de regulação.

Greenspan tornou-se o principal formulador de uma visão segundo a qual os mercados financeiros seriam mais eficientes do que os governos para regular riscos, alocar recursos e corrigir excessos. Essa crença moldou decisões que favoreceram a expansão sem precedentes do setor financeiro, a valorização dos ativos e a crescente concentração de riqueza nas camadas mais ricas da população.

Os obituários publicados após sua morte tendem a destacar sua longevidade no comando do Fed, sua influência sobre a política monetária e seu papel na estabilidade econômica das décadas de 1990 e início dos anos 2000.

Mas uma avaliação histórica mais abrangente sugere que sua trajetória não pode ser separada das contradições do modelo econômico que ajudou a consolidar.

Da influência de Ayn Rand à defesa da desregulamentação

Antes de chegar ao Fed, Greenspan integrou o círculo intelectual da escritora e filósofa Ayn Rand, defensora do individualismo radical e da mínima intervenção estatal na economia.

Essa influência acompanhou toda a sua trajetória pública. Nos anos 1990, Greenspan tornou-se um dos mais importantes defensores da liberalização financeira iniciada ainda nos governos de Ronald Reagan e George H. W. Bush e aprofundada sob Bill Clinton.

Uma das decisões mais controversas desse período foi o apoio à revogação, em 1999, da chamada Lei Glass-Steagall, legislação criada após a crise de 1929 que separava bancos comerciais e bancos de investimento. A mudança abriu caminho para a formação de gigantes financeiros cada vez mais complexos e interconectados.

Economistas como Joseph Stiglitz sustentam que a eliminação dessas barreiras ampliou os riscos sistêmicos e acelerou a financeirização da economia.

O arquiteto da era da financeirização

Greenspan assumiu o comando do Federal Reserve em 1987, durante o governo de Ronald Reagan. Sua gestão coincidiu com a consolidação da hegemonia neoliberal nos Estados Unidos e em grande parte do mundo.

Ao longo desse período, o crescimento dos mercados financeiros passou a ocupar papel cada vez mais central na economia. A expansão do crédito, a valorização dos ativos financeiros e a liberalização dos mercados foram apresentadas como sinais de prosperidade permanente.

Greenspan tornou-se um dos principais defensores da ideia de que os mercados seriam capazes de se autorregular. Essa visão influenciou diretamente a resistência do Fed e de outras autoridades à adoção de mecanismos mais rigorosos de supervisão sobre bancos, fundos de investimento e novos instrumentos financeiros.

Nenhum episódio ilustra melhor a visão de Greenspan do que sua oposição sistemática à regulação dos derivativos financeiros.

No final dos anos 1990, a então presidente da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities, Brooksley Born, alertou que o crescimento explosivo desses instrumentos representava uma ameaça potencial à estabilidade financeira.

Greenspan uniu-se ao então secretário do Tesouro, Robert Rubin, e ao seu sucessor, Lawrence Summers, para bloquear as propostas de supervisão.

Anos depois, quando os derivativos ligados às hipotecas subprime estiveram no centro da crise global, Born seria amplamente reconhecida por ter antecipado os riscos ignorados pelas autoridades econômicas.

O jornalista e escritor Michael Lewis chegou a definir a resistência de Greenspan à regulação como um dos erros mais caros da história econômica moderna.

A bolha imobiliária e a “exuberância irracional”

Em 1996, Greenspan cunhou uma expressão que se tornaria famosa: “exuberância irracional”, ao alertar para a valorização excessiva dos mercados financeiros.

Paradoxalmente, porém, quando sucessivas bolhas especulativas surgiram nos anos seguintes, sua atuação foi frequentemente considerada permissiva.

Após o estouro da bolha das empresas de tecnologia em 2000, o Fed reduziu agressivamente as taxas de juros. Entre 2001 e 2004, os juros permaneceram em níveis historicamente baixos, incentivando uma explosão do crédito imobiliário.

Nesse ambiente, bancos passaram a conceder empréstimos a famílias sem condições de pagamento, enquanto agências de classificação de risco atribuíam notas elevadas a produtos financeiros cada vez mais complexos.

O economista Raghuram Rajan alertou em 2005, durante um encontro promovido pelo Fed em Jackson Hole, que o sistema financeiro estava acumulando riscos perigosos. Suas preocupações foram amplamente minimizadas na época.

O colapso que atingiu o mundo inteiro

Quando a bolha imobiliária estourou, os efeitos foram devastadores.

A falência do Lehman Brothers em setembro de 2008 desencadeou uma crise global que destruiu trilhões de dólares em riqueza financeira.

Segundo estimativas internacionais, mais de 30 milhões de pessoas perderam seus empregos em decorrência da recessão global. Milhões de famílias foram despejadas de suas casas apenas nos Estados Unidos. Governos mobilizaram recursos públicos gigantescos para salvar bancos considerados “grandes demais para quebrar”.

O contraste tornou-se emblemático: enquanto trabalhadores arcavam com desemprego, cortes de salários e perda de patrimônio, instituições financeiras recebiam pacotes de resgate financiados pelo Estado.

A autocrítica tardia

Em outubro de 2008, Greenspan compareceu ao Congresso norte-americano e fez uma declaração que entrou para a história econômica.

“Encontrei uma falha”, afirmou ao reconhecer que sua confiança na capacidade de autorregulação dos mercados havia sido equivocada.

Questionado pelo deputado Henry Waxman, admitiu que estava “em estado de choque” porque o modelo intelectual no qual acreditara durante décadas não havia funcionado. O economista reconheceu que havia superestimado a capacidade dos bancos e mercados de proteger seus próprios interesses sem supervisão estatal.

A declaração foi interpretada como uma rara autocrítica pública de um dos maiores defensores do liberalismo financeiro contemporâneo. E também como uma confissão de que uma das principais premissas do neoliberalismo financeiro havia fracassado na prática.

Ainda assim, para seus críticos, a autocrítica chegou tarde demais. Os custos sociais da crise já haviam sido transferidos para trabalhadores, aposentados e contribuintes em todo o planeta.

Concentração de riqueza e poder financeiro

A crítica ao legado de Greenspan vai além da crise de 2008. Muitos economistas argumentam que as políticas adotadas durante seu mandato contribuíram para ampliar a concentração de renda e patrimônio nos Estados Unidos. Pesquisadores como Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman apontam que o período foi marcado por um forte aumento da concentração de renda e patrimônio.

Enquanto os mercados financeiros registravam ganhos extraordinários, os salários cresceram em ritmo mais lento e a desigualdade atingiu níveis não vistos desde a chamada Era Dourada do final do século XIX. O resultado foi o fortalecimento de uma elite financeira com capacidade crescente de influenciar governos, legislações e políticas públicas.

A expansão da riqueza financeira beneficiou principalmente grandes acionistas e investidores institucionais, aprofundando um modelo econômico no qual os ganhos do capital cresceram mais rapidamente do que a renda do trabalho.

Um legado em disputa

Os defensores de Greenspan o veem como um gestor que conduziu a economia norte-americana por períodos de expansão e inovação tecnológica. Seus críticos o consideram um dos principais responsáveis pela desregulamentação que fortaleceu o poder de Wall Street, alimentou bolhas especulativas e produziu uma crise cujos efeitos sociais e políticos ainda marcam o mundo contemporâneo.

Seus entusiastas argumentam que ele ajudou a controlar a inflação, atravessou crises como o crash de 1987, a crise asiática de 1997 e o colapso do fundo LTCM em 1998, preservando a estabilidade econômica dos Estados Unidos.

Mas seus críticos observam que essa estabilidade era, em grande medida, sustentada pela formação sucessiva de bolhas financeiras. O economista Paul Krugman resumiu essa crítica ao afirmar que o crescimento daquele período esteve excessivamente apoiado na valorização dos ativos e no endividamento privado.

Duas décadas após o colapso financeiro, a discussão sobre Alan Greenspan permanece menos uma disputa sobre um indivíduo e mais um debate sobre os limites de um modelo econômico que concentrou riqueza, ampliou desigualdades e submeteu sociedades inteiras à lógica dos mercados financeiros.

por Cezar Xavier