Foto: Clarice Castro/MDHC

Uma emocionante cerimônia marcou, nesta terça-feira (30), a oitava entrega oficial, feita pelo governo Lula, de certidões de óbito retificadas de mortos e desaparecidos da ditadura militar. Ao todo, 95 documentos foram disponibilizados, dos quais 25 foram recebidos pelos familiares presentes.

O ato foi realizado no teatro do BNDES, no Rio de Janeiro, e reuniu familiares, autoridades e representantes da sociedade civil e de movimentos sociais. As certidões dizem respeito a perseguidos políticos nascidos ou mortos no Rio ou cujos parentes preferiram receber na cidade.

Entre os mortos e desaparecidos que tiveram suas certidões corrigidas estão os dirigentes do PCdoB Carlos Danielli e Maurício Grabois, além da militante do mesmo partido, Jana Moroni Barroso — os dois últimos mortos no Araguaia; o estudante Edson Luiz Lima Souto; o militante Stuart Edgar Angel Jones, do MR8, e Manuel Fiel Filho, do PCB.

A retificação dos documentos vem sendo viabilizada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), em cumprimento às determinações da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e resolução recente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

A iniciativa faz parte da retomada dessa agenda após o período de Jair Bolsonaro (PL), no qual a questão foi ignorada e políticas de memória e verdade foram descontinuadas ou enfraquecidas.

Segundo o MDHC, 400 certidões já foram corrigidas e 150 foram diretamente entregues aos familiares desde que esse processo teve início em 2024, durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A tortura como instrumento de dominação

Durante a cerimônia, a ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Janine Mello, destacou que a história do Brasil é marcada por diferentes formas de violência do Estado: “desde aquela imposta aos povos indígenas, passando pelo tráfico transatlântico e a escravização de milhões de africanos e seus descendentes até as graves violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura militar. A tortura atravessou a nossa história como instrumento de dominação, perseguição e supressão de direitos”.

Ela prosseguiu salientando que o término da ditadura não significou, necessariamente, o fim dos seus efeitos e que “as marcas da violência de Estado permanecem presentes nas famílias que perderam seus entes queridos, nas ausências que jamais puderam ser plenamente reparadas e nas estruturas institucionais que ainda desafiam a consolidação de uma democracia fundada na verdade, na justiça e na garantia de não repetição”.

Eugênia Augusta Gonzaga, presidenta da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, fez um relato sobre ações recentes do colegiado, entre as quais o reconhecimento do assassinato do presidente Juscelino Kubitschek pela ditadura e o sepultamento de Grenaldo de Jesus Silva, ex-marinheiro perseguido pela ditadura militar e identificado em 2025 entre os remanescentes ósseos encontrados na vala clandestina de Perus, em São Paulo.

Ela também ressaltou a importância da entrega à Comissão (pelo e-mail [email protected]) de documentos que tratem do período ditatorial e que estejam em posse privada, iniciativa que compõe campanha recém-lançada pela CEMDP.

Por fim, ela anunciou que o colegiado preparou o documento “Pacto por Memória, Verdade e Democracia”, dirigido a todos os candidatos que concorrem a diferentes cargos neste ano. “A democracia é uma construção diária e coletiva e não podemos permitir retrocessos. Por essa razão, escolhemos este momento de reparação para fazer um convite formal a todos os candidatos e candidatas aos pleitos políticos de nosso país neste ano a aderirem ao pacto”, salientou.

Pouco antes de ter início a entrega dos documentos, Eugênia concluiu sua fala dizendo: “Quando ouço as famílias, ao longo de todas essas cerimônias, a frase que sempre me vem à cabeça é a do escritor Marcus Zusak (“A Meninas que Roubava Livros”) no sentido de que quando a morte conta uma história, todos nós precisamos parar para ouvi-la. Então, hoje é um dia em que o tempo precisará parar para ouvi-las. Não se trata apenas de um ato burocrático, é um imperativo ético. Retificar uma certidão de óbito, rasurada pela mentira do Estado, significa devolver a dignidade a quem teve a vida ceifada”.

Confira abaixo a lista de nomes dos 95 documentos disponibilizados hoje.

Adauto Freire da Cruz  

Alberto Aleixo

Aldo de Sá Brito Souza Neto

Almir Custódio de Lima

Aluizio Palhano Pedreira Ferreira

Antogildo Pascoal Viana

Antônio Carlos Nogueira Cabral

Antônio Marcos Pinto de Oliveira

Antônio Sérgio de Mattos

Armando Teixeira Fructuoso

Carlos Eduardo Pires Fleury

Carlos Nicolau Danielli

Caiupy Alves de Castro

Celso Gilberto de Oliveira  

Chael Charles Schreier  

Cloves Dias de Amorim

Daniel Ribeiro Callado

David de Souza Meira  

Dilermano Mello do Nascimento

Dinalva Oliveira Teixeira

Edson Luiz Lima Souto

Edu Barreto Leite

Elmo Corrêa

Felix Escobar

Fernando Augusto da Fonseca

Fernando da Silva Lembo

Geraldo Bernardo da Silva

Gerson Theodoro de Oliveira

Getúlio de Oliveira Cabral  

Gilberto Olímpio Maria

Guilherme Gomes Lund

Gustavo Buarque Schiller

Hamilton Pereira Damasceno

Hélio Luiz Navarro de Magalhães

Israel Tavares Roque  

Itair José Veloso

Jana Moroni Barroso

João Massena Melo   

Joel Vasconcelos Santos

Joelson Crispim

José Dalmo Guimarães Lins     

José Jobim

José de Souza  

José Gomes Teixeira

José Mendes de Sá Roriz

José Raimundo da Costa

José Roberto Spiegner

Juares Guimarães de Brito

Kleber Lemos da Silva

Labibi Elias Abduch

Lígia Maria Salgado Nóbrega

Lincoln Bicalho Roque  

Lincoln Cordeiro Oest

Lourdes Maria Wanderley Pontes

Lourenço Camelo de Mesquita

Lúcia Maria de Souza

Luiz Carlos Augusto

Luiz Ghilardini

Luiz Paulo da Cruz Nunes

Luiz René Silveira e Silva

Lyda Monteiro da Silva

Manoel Alves de Oliveira

Manoel Fiel Filho

Manoel Rodrigues Ferreira

Marcos Antônio da Silva Lima  

Marcos Antônio Bráz de Carvalho

Marcos Nonato da Fonseca

Maria Célia Corrêa

Mariano Joaquim da Silva

Marilena Villas Boas Pinto

Mário Alves de Souza Vieira

Mário de Souza Prata

Mauricio Grabois

Mauricio Guilherme da Silveira

Merival Araújo  

Neide Alves dos Santos

Newton Eduardo de Oliveira  

Norberto Armando Habegger

Paulo César Botelho Massa  

Paulo Guerra Tavares

Raul Amaro Nin Ferreira

Reinaldo Silveira Pimenta

Roberto Cietto

Roberto Rascado Rodriguez

Sérgio Fernando Tula

Severino Elias de Mello  

Severino Viana Colou  

Solange Lourenço Gomes

Stuart Edgar Angel Jones

Telma Regina Cordeiro Corrêa

Tobias Pereira Júnior

Valdir Salles Saboia

Vitorino Alves Moitinho

Walter Ribeiro Novaes

Wilton Ferreira