Foto: Sueli Scutti

De janeiro a março, 399 mulheres foram mortas no Brasil por razão de gênero, o que corresponde a um assassinato a cada de cinco horas ou quatro por dia. Os dados estarrecedores são do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e comprovam o que a sociedade vem percebendo cotidianamente: o aumento alarmante dos feminicídios, causados majoritariamente por companheiros ou ex das vítimas, em meio a um ambiente em que também crescem as demonstrações machistas e misóginas.

O primeiro trimestre do ano teve alta de 7,55% no número de casos ante igual período de 2025. Se analisados somente esses três meses (de janeiro a março), trata-se do pior já registrado desde 2015: há dez anos, as vítimas somavam 125. Somente o mês de janeiro de 2026 somou 142 feminicídios, seguido de março, com 134 e fevereiro, com 123.

Os números deste ano vêm depois de outro recorde. No ano passado, foram 1.470 casos registrados pelo MJSP, número que também já superava o de 2024 (1.464).

Para efeitos de comparação com outros crimes contra a vida, o MJSP verificou uma importante redução nos casos de assassinatos e latrocínios também no primeiro trimestre do ano.

De acordo com o levantamento, os homicídios dolosos apresentaram redução de 25% na comparação entre 2022 e 2026, passando de 9.714 para 7.289 casos. Já os latrocínios (roubos seguidos de morte) tiveram queda ainda mais expressiva, de 48%, saindo de 308 registros em 2022 para 160 em 2026.

Considerando os casos de feminicídios em relação aos casos de homicídios de mulheres, veremos que enquanto o primeiro piorou, o segundo melhorou, conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre 2023 e 2024, os homicídios de mulheres não classificados como feminicídio caíram de 2.462 para 2.208. Na contramão, nesse mesmo período, os feminicídios saíram de 1.475 para 1.492.

O desafio dos feminicídios

O descompasso entre o aumento brutal dos feminicídios em meio à queda de assassinatos de outras naturezas reforça que a dinâmica relacionada às mortes por questões de gênero desafia as leis e as políticas de segurança pública, perpassando outras áreas de maneira difusa, o que dificulta o seu combate de maneira mais direta e assertiva.

“Diferentemente da violência urbana, mais sensível a políticas de segurança pública tradicionais, a violência doméstica é fortemente influenciada por fatores estruturais como desigualdades de gênero, padrões culturais de dominação masculina, controle coercitivo e fragilidades na rede de proteção”, diz o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) na nota técnica “Retratos dos Feminicídios no Brasil”, divulgado neste ano.

O aumento da letalidade nesse contexto, completa, “sugere dificuldades em interromper trajetórias de violência já conhecidas pelas instituições e aponta para limites na capacidade de prevenção, proteção e resposta do Estado antes que a violência alcance seu desfecho fatal”.

A aversão às mulheres e o sentimento de superioridade masculina ganharam especial impulso com a proliferação dos discursos de ódio disseminados por grupos que usam especialmente as redes sociais para propagarem seus preconceitos de maneira virulenta, com a complacência e omissão das big techs e o estímulo da extrema direita.

Não parece ser coincidência, portanto, que o crescimento dos feminicídios (e da violência contra a mulher) ande simultaneamente com a explosão da misoginia. Entre 2024 e 2025, o número de denúncias de conteúdos misóginos na internet cresceram 225%, segundo a Safernet Brasil. No mesmo período, os crimes de ódio em geral tiveram alta de 54%.

Outro estudo recente, feito pelo DesinfoPop da Fundação Getúlio Vargas e intitulado “A machosfera é política: construção ideológica e ataques a políticas de gênero”, mostrou o alcance e impacto desse tipo de discurso. O levantamento partiu da análise de dados que vêm sendo colhidos desde 2015 até 2025 em 85 comunidades brasileiras no Telegram e mais de 7 milhões de conteúdos publicados.

Entre outras caracterizações político-ideológicas, os pesquisadores verificaram que nos grupos analisados, “o machismo e a misoginia aparecem frequentemente imbricados com racismo, classismo e LGBTfobia, reforçando uma visão de mundo hierárquica e excludente. Em seus casos mais extremos, essa articulação chega à banalização e à apologia da violência, bem como a discursos de extermínio e controle reprodutivo”.

Além disso, apontam que as políticas de gênero aparecem como alvo recorrente de ataques: “Em vez de serem debatidas como instrumentos de proteção, prevenção ou garantia de direitos, agendas como a Lei Maria da Penha, a educação sexual e os direitos reprodutivos são frequentemente enquadradas como ameaças aos homens, à família e à ordem moral, ou como evidência de uma suposta captura feminista do Estado”.

Voltando à análise dos feminicídios, segundo o FBSP, “a quase exclusividade masculina na autoria indica que estamos diante de uma forma de violência vinculada a padrões de masculinidade que associam poder, controle e posse à identidade masculina”.

Diferentemente do que se observa na maioria das mortes violentas de homens — frequentemente associadas a conflitos interpessoais, disputas criminais ou violência urbana de modo geral —, o feminicídio “expressa uma assimetria de gênero sistemática: homens matando mulheres com quem mantêm ou mantiveram vínculos íntimos, em contextos nos quais a autonomia feminina é percebida como ameaça à autoridade masculina”.