Ben Gvir invade Al-Aqsa e desafia status quo secular
O Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, visita o Monte do Templo acompanhado pelo Rabino Elisha Wolfson, defendendo a expansão do culto judaico no local sagrado, domingo, 12 de abril de 2026. ( Crédito da foto : Gabinete de Itamar Ben-Gvir )
O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, figura de extrema-direita no governo de Benjamin Netanyahu, invadiu numa manhã de domingo, em 12 de abril, o complexo da Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém Oriental ocupada, acompanhado por colonos israelenses e sob forte proteção das forças de segurança. A ação, confirmada pela agência palestina Wafa, representa uma escalada sem precedentes na disputa pelo terceiro local mais sagrado do Islã — e uma ruptura deliberada com o frágil equilíbrio que regia o acesso ao local há décadas.
Ben-Gvir disse sentir-se como o “dono” do local e afirmou que continuará pressionando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para ampliar o acesso dos fiéis judeus. Ben-Gvir fez a visita acompanhado pelo rabino Elisha Wolfson, chefe da Yeshiva do Monte do Templo. Wolfson afirmou que Ben-Gvir estava promovendo uma “mudança histórica enorme” no Monte do Templo.
O status quo no Monte do Templo, estabelecido após 1967, permite que Israel supervisione a segurança, enquanto o Waqf islâmico, apoiado pela Jordânia, administra o local. O Ministério das Relações Exteriores da Jordânia afirmou que considera a visita de Ben-Gvir uma violação do acordo de status quo no local e “uma profanação de sua santidade, uma escalada condenável e uma provocação inaceitável”.
O que muda com a ousadia de Ben-Gvir
A novidade não está apenas na presença de um político israelense de alto escalão no complexo, mas no caráter explícito da provocação. Ben-Gvir não se limitou a uma “visita turística” — prática que já vinha se intensificando nos últimos anos —, mas realizou rituais religiosos judaicos no interior do recinto, exibindo símbolos proibidos pelo status quo histórico.
Essa conduta viola frontalmente os acordos tácitos mantidos desde 1967, quando Israel ocupou Jerusalém Oriental. Pelo entendimento vigente, judeus e outros não muçulmanos podem visitar o complexo em horários determinados, mas não têm permissão para rezar, realizar cerimônias ou ostentar objetos de culto no local. A transgressão de Ben-Gvir, portanto, não é um deslize protocolar: é um ato político calculado para redefinir unilateralmente as regras do jogo.
Colonos sob proteção estatal: a normalização da ocupação
Outro elemento distintivo desta invasão é a composição do grupo que acompanhou o ministro. Os colonos israelenses — cidadãos que residem ilegalmente em terras privadas palestinas na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental — atuam, cada vez mais, como braço armado da política expansionista do Estado. Sua presença ao lado de Ben-Gvir, escoltados por tropas israelenses, simboliza a fusão entre projeto colonial e aparato estatal.
O que antes era visto como iniciativa marginal de grupos extremistas agora ganha chancela ministerial. A proteção militar fornecida às incursões não serve apenas para garantir a segurança dos invasores: legitima, perante a opinião pública israelense e internacional, a narrativa de que o Monte do Templo — nome judaico para o mesmo complexo onde se ergue Al-Aqsa — é território disputado, e não espaço sagrado exclusivamente muçulmano.
Status quo em xeque: implicações regionais
A ruptura do status quo em Al-Aqsa tem repercussões que ultrapassam os muros da Cidade Velha. O local é sensível não apenas para palestinos e israelenses, mas para mais de 1,8 bilhão de muçulmanos em todo o mundo. Qualquer alteração no regime de acesso é interpretada como ameaça direta à soberania religiosa e política dos povos árabes e islâmicos.
Historicamente, tensões em Al-Aqsa funcionam como estopim para ciclos de violência mais amplos. A Segunda Intifada (2000) foi deflagrada após visita de Ariel Sharon ao complexo. Hoje, com a região já marcada por conflitos em Gaza, tensões na Cisjordânia e instabilidade no Líbano, a provocação de Ben-Gvir adiciona combustível a um cenário explosivo.
Estratégia política interna: radicalização como moeda eleitoral
Para compreender a ousadia de Ben-Gvir, é necessário olhar também para o jogo político interno em Israel. Ministro de um partido de extrema-direita (Otzma Yehudit), ele constrói sua base de apoio junto a setores colonizadores e religiosos radicais. Incursões em Al-Aqsa funcionam como demonstração de força para esse eleitorado, ao mesmo tempo que pressionam Netanyahu a adotar posturas ainda mais intransigentes.
Nesse sentido, a invasão não é um ato isolado, mas parte de uma estratégia coordenada para consolidar o controle israelense sobre Jerusalém Oriental — anexada de facto por Israel, mas reconhecida internacionalmente como território palestino ocupado.
Reações e um precedente perigoso
Até o momento, autoridades palestinas condenaram veementemente a ação. A Waqf de Jerusalém — entidade jordaniana responsável pela administração dos locais sagrados muçulmanos — deve apresentar protesto formal à ONU e a organismos internacionais. Países árabes e muçulmanos, por sua vez, podem convocar emergências diplomáticas.
Do lado israelense, é improvável que haja sanções internas contra Ben-Gvir. Pelo contrário: sua postura tende a ser celebrada por setores do governo e da opinião pública como “defesa dos direitos judaicos” no local.
A invasão de Ben-Gvir a Al-Aqsa não é apenas mais um episódio na longa disputa por Jerusalém. É um marco que sinaliza a disposição do atual governo israelense em abandonar até mesmo os mínimos constrangimentos diplomáticos que sustentavam o status quo. Ao transformar um acordo de moderação em campo de batalha simbólico, Israel assume o risco de reacender conflitos em escala regional — e de isolar-se ainda mais no cenário internacional.
Para os palestinos, a mensagem é clara: a ocupação não se limita ao controle territorial, mas avança sobre a dimensão espiritual e identitária de seu povo.
por cezar xavier



