Fidel Castro no comando da resistência a um dos maiores fiascos da CIA: invasão da Baía dos Porcos (Arquivo)

Os 75 anos da CIA – o centro de intriga, suborno, tortura, sabotagem, assassinatos e golpes de Estado dos EUA – não passou despercebido na Rússia, com o chefe do serviço de inteligência estrangeira, Sergey Naryshkin, tendo dedicado através da revista Defesa Nacional uma análise à trajetória da ‘Agência’, em que sequer faltou a famosa descrição, feita pelo presidente norte-americano Lyndon Johnson, da CIA como “maldita corporação de assassinatos” (Goddam Murders Inc).

Essas ponderações são importantes na medida em que refletem o debate interno na Rússia sobre os últimos 30 anos, e as tarefas que se colocam à frente, quanto a barrar a expansão da OTAN e da caduca ordem “baseada em regras”, enfim, o mundo unipolar do neoliberalismo vitorioso sob Washington e do ‘fim da história’.

Há 75 anos, em 18 de setembro de 1947, a Lei de Segurança Nacional assinada pelo presidente Harry Truman entrou em vigor nos Estados Unidos. Esta data é considerada o aniversário da CIA – a Central Intelligence Agency – o principal serviço de inteligência norte-americano

A CIA – registrou Naryshkin – foi criada “no início da era da Guerra Fria com o objetivo de conduzir atividades de inteligência em todo o mundo como uma ferramenta para neutralizar a existência da URSS e o fortalecimento do seu papel no mundo, a formação de um bloco de estados socialistas e a ascensão do movimento de libertação nacional na África, Ásia e América do Sul”.

O protótipo da CIA foi o Office of Strategic Services (OSS), criado em 1940 mais como um serviço de inteligência político-militar e abolido no final da Segunda Guerra Mundial em 1946.

Fiasco de cara

O projeto atômico soviético pegou a inteligência norte-americana de jeito. Em 20 de setembro de 1949, o departamento analítico da CIA previu que a primeira bomba atômica soviética apareceria em meados de 1953.

Na verdade, o primeiro teste de um dispositivo nuclear soviético ocorreu 22 dias antes da publicação de tal previsão. “Três dias após o relatório dos analistas da CIA, o presidente Truman teve que admitir publicamente que os russos já tinham a bomba atômica”, lembra Naryshkin.

Mossadegh

Entre os primeiros ‘sucessos’, a operação Ajax, determinada por ordem pessoal do presidente Eisenhower, após adoção, pelo governo de Mossadegh em 1951 de uma lei sobre a nacionalização de todos os campos petrolíferos iranianos e a recusa da arbitragem internacional em tomar o lado da Inglaterra e dos Estados Unidos.

Após subornar oficiais militares e governamentais iranianos, assim como generosas ‘doações’ à mídia, assinala o oficial russo, a CIA conseguiu organizar tumultos na capital e, como resultado, trazer para Teerã tropas desleais ao primeiro-ministro Mohammed Mossaddegh. Ele acabou forçado a renunciar e a operação foi coroada com a volta ao poder do xá Reza Pahlavi, para alegria de Washington e Londres [e do Cartel das Sete Irmãs].

Monstro

No início da década de 1950, a CIA começou a se transformar de um serviço especial multidisciplinar em um monstro, que, junto com as atividades de inteligência diretamente globais, foi encarregado de rastrear e suprimir quaisquer processos políticos, econômicos, militares em todas as partes do planeta que pudessem ameaçar a hegemonia mundial dos Estados Unidos e seus aliados. Mudança de ênfase que se tornou particularmente evidente com a nomeação de Allen Dulles para a direção da CIA.

Dulles, como chefe da estação da OSS de Berna na Suíça em 1942-1945, já havia obtido proeminência na condução de negociações separadas com os nazistas sem a participação de representantes da URSS (lembre-se deste episódio reproduzido vividamente no livro de Yulian Semenov “Dezessete Momentos de Primavera” e o filme de mesmo nome, registra Naryshkin).

Ele aponta que coube a Dulles introduzir a agressividade e a falta de moralidade nas atividades da organização para atingir os objetivos: golpes de estado, intervenções militares diretas, provocações de todos os tipos, assassinatos de políticos censuráveis, terror, sabotagem, suborno em seu conjunto de forças e meios.

Como o bem-informado oficial de ligação do Pentágono com a CIA Leroy Fletcher Prouty observou mais tarde, durante a discussão nos Estados Unidos sobre os resultados da aventura vietnamita, o conceito de inteligência de Dulles “fornece 10 por cento de inteligência convencional e 90 por cento de trabalho subversivo secreto.”

MK Ultra

Então, em abril de 1953, Dulles aprovou o projeto, de codinome “MK Ultra”, assinalou Naryshkin. Seu objetivo era o controle da mente e lavagem cerebral com a ajuda de substâncias psicotrópicas e efeitos elétricos. Isso foi feito para obter o chamado “soro da verdade”, a ser usado durante interrogatórios. O projeto foi liderado pelo químico-chefe da CIA, Sidney Gottlieb.

Como parte do MK Ultra, ele criou mais de uma centena de programas subsidiários que buscavam objetivos semelhantes. Foram realizados experimentos destinados a apagar parcial ou completamente a memória de uma pessoa, dando a oportunidade de interferir na personalidade ou até mesmo criar uma completamente nova.

Para esses fins, as pessoas foram drogadas com LSD ou foi realizada codificação hipnótica. Militares desavisados ou pacientes psiquiátricos que sofriam de depressão ou neurose foram usados como cobaias. A CIA continua a desenvolver esses programas.

Assassinato de Lumumba

O assassinato de pessoas indesejadas tornou-se o estilo de assinatura das operações secretas da CIA. Assim, o primeiro-ministro do Governo do Congo, Patrice Lumumba, foi fisicamente eliminado. A ex-colônia belga sob sua liderança em 1960 declarou sua independência. Os Estados Unidos tinham seus próprios interesses financeiros neste país, então o presidente Eisenhower encarregou o diretor da CIA de eliminar o “importuno” líder africano. Dois anos depois, com a ajuda de mercenários belgas, conseguiram capturar e matar Lumumba, que se tornou símbolo da luta dos países africanos pela independência.

Quando se trata de tais operações secretas, a “boa sorte” da CIA se alternava com fracassos retumbantes. Em 1954, a CIA organizou uma invasão militar da Guatemala para derrubar o presidente Jacobo Arbenz. Mercenários da CIA submeteram cidades guatemaltecas a bombardeios aéreos. O presidente Árbenz foi forçado a renunciar e foi substituído por um protegido pró-americano.

Em 1955, a CIA tentou eliminar o primeiro-ministro chinês Zhou Enlai, que era visto pelos americanos como “um fanático maníaco buscando dominar o mundo”, mas falhou miseravelmente. Agentes explodiram o avião em que o primeiro-ministro deveria voar para uma conferência de líderes asiáticos e africanos na Indonésia, matando 16 passageiros.

No entanto, Zhou Enlai não estava a bordo. Então Dulles e Gottlieb desenvolveram um plano para envenenar o político chinês, mas depois foram forçados a abandonar esse plano, temendo que se soubesse sobre o envolvimento da CIA no assassinato.

Cuba, a pedra no sapato

Em 1961, a CIA pretendia realizar uma invasão militar de Cuba para derrubar o governo de Fidel Castro. Na manhã de 15 de abril de 1961, aeronaves com marcas de identificação da Força Aérea Cubana atacaram aeródromos cubanos, mas o comando militar cubano substituira aeronaves por maquetes antecipadamente.

Na noite de 17 de abril, iniciou-se um desembarque anfíbio na área da Baía dos Porcos. A operação não correu conforme o planejado, o desembarque foi derrotado. Os Estados Unidos sofreram enormes danos de reputação e as ações da CIA no futuro não puderam mais ser tão descaradas. A CIA fez inúmeras tentativas de assassinato de Fidel Castro, mas todas foram frustradas pelas forças de segurança cubanas.

U2 abatido

O programa de voos de reconhecimento sobre o território da URSS, que durava desde 1956, acabou em fiasco. Por vários anos as aeronaves de reconhecimento U-2 foram inacessíveis aos sistemas de defesa aérea da URSS e podiam tirar fotos livremente de alvos secretos. O destacamento especial “10-10”, que realizou voos em missões da CIA, foi listado como um esquadrão de inteligência meteorológica da NASA.

Em 1º de maio de 1960, um U-2 foi abatido sobre os Urais, os Estados Unidos acusaram a URSS de destruir uma aeronave científica e um piloto-cientista. O presidente Dwight Eisenhower também falou sobre isso, a quem a liderança da CIA garantira que Moscou não teria nenhuma evidência.

No entanto, a União Soviética apresentou não apenas os destroços da aeronave e do equipamento de espionagem, mas também o piloto vivo Francis Gary Powers, que contou com franqueza o que estava fazendo no céu sobre a URSS e sob quais instruções.

Comissão Church

Por mais que os líderes dos EUA nas décadas de 1960 e 1970 tenham negado a participação dos serviços de inteligência americanos na organização dos assassinatos de líderes políticos de outros países, a revelação não tardou. Uma comissão do Senado presidida pelo senador democrata Frank Church em 1975 descobriu e confirmou o envolvimento da CIA em assassinatos contratados e golpes de Estado [a criação da comissão Church se tornara possível graças à crise interna nos EUA, decorrente da derrota no Vietnã e do escândalo de Watergate].

Assim, a comissão contou oito casos de tentativas de assassinato por agentes da CIA e mercenários contra Fidel Castro em 1960-1965. O chefe do Departamento de Segurança do Estado do Ministério do Interior de Cuba, Fábian Escalante, que se ocupava da proteção de Fidel Castro, declarou oficialmente que de 1959 a 1990 (por 30 anos!) 634 tentativas de assassinato atentados contra o líder cubano foram registrados pelo serviço, sublinhou .

Com persistência maníaca, os oficiais da CIA desenvolveram formas simplesmente exóticas de eliminar o Comandante. Eles tentaram matá-lo com a ajuda de pilotos suicidas, paraquedistas, agentes recrutados no círculo interno, bombardeio de carros e barcos com sabotadores submarinos; com um bacilo da tuberculose trazido para lá, charutos envenenados, pílulas venenosas em alimentos e muitos mais.

Tentativas de assassinato foram preparadas não apenas em Cuba, mas também durante as visitas de Fidel ao Chile, Peru e Panamá. A CIA não desprezou o uso de mafiosos americanos, cubanos e italianos na organização de operações anticubanas.

Chile 1973

O golpe de Estado de 1973 no Chile que derrubou o governo de Salvador Allende parecia ser um assunto interno. No entanto, a crueldade com que os militares chilenos, liderados pelo general Augusto Pinochet, reprimiram a dissidência no país, reprimiram os partidários de Salvador Allende, traiu a presença de um patrono influente que permitiu que os militares agissem com impunidade.

De fato, a CIA executou uma série de operações com o codinome “Projeto FUBELT”. Eles incluíram a desestabilização da situação no Chile, a preparação de um golpe militar pelas forças da elite do exército e pessoas das academias militares dos EUA e o fornecimento de apoio à junta militar que chegou ao poder.

Operação Ciclone

Após a introdução de um contingente limitado de tropas soviéticas no Afeganistão em dezembro de 1979, a CIA, em nome do governo dos EUA, iniciou um programa para treinar e armar a oposição afegã no intuito de derrubar um regime que se posicionava no terreno socialista. A CIA estava trabalhando ativamente para criar uma coalizão anti-soviética de países, principalmente no mundo árabe.

A Operação Ciclone da CIA para financiar e armar os mujahideen afegãos começou com US$ 20-30 milhões em 1980 e em 1987 subiu para US$ 630 milhões por ano.

Os mujahideen afegãos foram treinados no uso de combate dos mísseis portáteis Stinger contra a aviação soviética sob a orientação de instrutores da CIA.

A CIA aproveitou todas as oportunidades para infligir danos máximos à União Soviética, incluindo danos econômicos. O diretor da CIA, W. Casey, dirigiu-se pessoalmente ao rei da Arábia Saudita e o convenceu a aumentar drasticamente a produção de petróleo, o que fez com que os preços mundiais dos mais importantes recursos de exportação para a URSS caíssem quase três vezes.

Para o orçamento da União Soviética, essa foi uma enorme perda, que influenciou seriamente outros eventos políticos na URSS.

Como exemplo das provocações montadas pela CIA contra a União Soviética, Naryshkin citou a invasão do espaço aéreo soviético e a queda de um Boeing sul-coreano em 1983, que se tornaram a base de propaganda para o presidente Reagan anunciar outra “cruzada contra o comunismo”. A política de distensão foi posta de lado, e nova rodada da corrida armamentista começou.

Incubadora de terrorismo

Deve-se notar que as atividades da CIA contra as tropas soviéticas no Afeganistão, as operações secretas durante e após a guerra no Iraque levaram a muitos problemas para os próprios Estados Unidos. Osama bin Laden, natural da Arábia Saudita, que foi recrutado pela CIA para trabalhar para Washington, rapidamente saiu do controle, tornou-se o líder ideológico do grupo terrorista Al-Qaeda.

Após o ataque terrorista nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, ele foi reconhecido como o cérebro por trás desse ataque terrorista. Por mais 10 anos, a CIA continuou a caçar o terrorista para realizar pomposamente uma operação especial “Lança de Netuno” e eliminá-lo no Paquistão.

Uma história semelhante aconteceu com o movimento Talibã. Os EUA lutaram contra o Talibã sem sucesso até 2021 e sofreram uma derrota esmagadora, deixando o Afeganistão em desgraça.

Após o fim das hostilidades no Iraque, a CIA negligenciou a criação e o rápido crescimento de uma nova organização terrorista – ISIS, com a qual os Estados Unidos sozinhos e mesmo em uma coalizão com mais de três dezenas de aliados não conseguiram lidar.

Tortura reciclada

Note-se que já no final da década de 1990 surgiram os primeiros indícios da existência de prisões secretas sob o controle da CIA – instalações classificadas fora dos Estados Unidos.

Quando essa informação não pôde mais ser ocultada, em 2006, o presidente dos EUA, George W. Bush, reconheceu oficialmente a existência de tais prisões, explicando isso pela necessidade de ter essas instituições especiais por razões de segurança, e que apenas pessoas especialmente perigosas suspeitas de terrorismo eram mantidas lá.

Extremamente cínica foi a explicação do diretor da CIA, Michael Hayden, em 2008, de que as 18 técnicas de interrogatório envolvendo tortura não eram tortura, mas apenas “métodos mais duros”. Só em 2009 o presidente Barack Obama assinou uma ordem executiva proibindo o uso de tortura durante os interrogatórios.

Laços cia-nazis ucranianos

Outro aspecto das atividades subversivas globais e em grande escala da CIA contra a URSS e depois a Rússia, cujos “tiros” estamos vendo hoje.

Ajudando a formação do primeiro serviço de inteligência alemão do pós-guerra na zona ocidental de ocupação – a organização Gehlen, que usou ativamente a experiência dos serviços especiais de Hitler, a CIA, em colaboração com a inteligência britânica, lançou uma operação secreta em grande escala para procurar um contingente “útil” para o trabalho de sapa contra a URSS, principalmente nas zonas de ocupação ocidentais da Alemanha.

Esta operação em 1948-1949 recebeu a designação de código da CIA “Icon”. Cerca de 750 mil imigrantes da URSS, incluindo 250 mil ucranianos, estavam nos campos de deslocados, onde também atuavam várias dezenas de organizações ligadas aos Estados do Leste Europeu.

Com esse contingente, desde 1949, a CIA passou a realizar até uma dezena de programas e operações com o objetivo de conduzir inteligência e minar o potencial militar, econômico, moral e psicológico da União Soviética.

Envio em massa de agentes entre os deslocados que retornam à sua terra natal; criação de redes de inteligência para realizar reconhecimento e trabalho de sapa contra grupos de tropas soviéticas no exterior; apoio a movimentos ultranacionalistas nos Estados Bálticos, Bielorrússia Ocidental e Ucrânia Ocidental, utilizando imigrantes étnicos dessas repúblicas que vivem no exterior para realizar campanhas de reconhecimento; recrutamento, treinamento e destacamento de agentes de cidadãos de minorias nacionais – essas eram as metas e objetivos da CIA em relação à URSS.

Atenção especial deve ser dada à longa operação “Cartel”, em que a CIA sob o pretexto de fornecer apoio financeiro e material aos refugiados, esteve preparando agentes para posterior transferência para o território da URSS.

A CIA conseguiu estabelecer o controle sobre a liderança do ‘Conselho Superior de Libertação da Ucrânia’, com o qual o ‘Exército Insurgente Ucraniano’ (UPA) cooperou organizacionalmente, com Roman Shukhevych à frente. A ‘Organização dos Nacionalistas Ucranianos’ (OUN), liderada por Stepan Bandera, continuou a se aproximar da

inteligência britânica. A rivalidade dessas duas gangues não se devia a diferenças ideológicas, mas sim ao dinheiro dos patronos.

Em meados da década de 1950, a CIA se desiludiu com os resultados da operação ‘Cartel’ e a transformou na nova ‘Aerodinâmica’, executada em conjunto com os serviços de inteligência da Grã-Bretanha, Itália e Alemanha. Organizações sem fins lucrativos, estações de rádio “Nova Ucrânia”, “Liberdade”, “Europa Livre” estavam envolvidas com o mesmo objetivo – realizar propaganda massiva e fornecer informações. Com a criação da Ucrânia independente, a CIA elevou suas operações a novo patamar.

75 velas no bolo encharcado de sangue

Entrando em seu 76º ano de existência, assinala Naryshkin, a CIA continua sendo uma zelosa executora da vontade dos círculos dominantes de seu país. Apesar das mudanças significativas que estão ocorrendo, eles continuam se imaginando como o único hegemon no mundo unipolar e a CIA continua tendo como foco a sabotagem e desestabilização de Estados soberanos. Sem congratulações: com tal trajetória e papel, não pode haver compromisso quanto ao seu papel na história ou méritos para a humanidade, conclui o dirigente russo.

Papiro