Notas Provocações: Sobre raça, gênero e nação – Parte 2

Patriarcado é conceito complexo que comumente é entendido como supremacia masculina, e de fato este é um construto importante, mas que toma distintas formas e não se restringe a relações individualizadas.

Por Mary Garcia Castro*

Se o capitalismo neoliberal ataca o Estado de bem-estar, apoia-se na lei do mercado, em privatizações e na precariedade do trabalho, já o patriarcado é entendido como a supremacia   masculina, castradora de desejos e sexualidades que não se alinham à heteronormatividade. Apoia-se no poder do macho, do pai, da lei/autoridade, ou seja, em instituições e ideologias que consideram a mulher como objeto de reprodução e não sujeito de desejos e de escolhas próprias; e o gay, o transexual, o travesti como “invertidos”, ideias que vêm sendo defendidas pelo fundamentalismo religioso e o golpe em curso.

Não ao azar, tanto o golpe de base conservadora como uma Igreja patriarcal   no Brasil combatem conquistas feministas, como   perspectivas sobre gênero, exaltando a mulher cuidadora, a do ‘lar’ como se essa não gostasse ou aspirasse também estar no bar. Governo neoliberal e Igreja fundamentalista contribuem para violências físicas, verbais e simbólicas -ou seja aquelas em que as vítimas indiretamente colaboram para sua opressão, comumente pela sedução de ideias sobre maternidade, o amor romântico e proteção familiar.

De fato, há usos e usos do conceito de patriarcado. Uma orientação mais restrita focaliza relações diretas de poder desigual entre homens e mulheres, ou entre os que se consideram homens e os que estes consideram como mulher (penetrada, passiva), o que é uso valido mas curtO por não refletir sobre o patriarcado como um processo que se imbrica a outros, de dominação.

Reduzir tanto a crítica ao patriarcado, à homofobia, ao racismo a políticas de identidade é aceitar um ideário mais afim a pós modernidade, ou seja, tirar aqueles processos do campo da história e das lutas por outra história, sem dominações. É lamentável e bem mostra a falta de conhecimento em epistemologia, ou seja o reconhecimento da diversidade de correntes de conhecimento e como os conceitos tem que ser relacionados a projetos político-cognitivos- de “poder/saber” (Foucault, vupt desculpe a heresia) do pensamento.

Entrando na provocação maior:

Por análise histórica e epistemológica ganha peso estruturante para melhor entender a nação, questionar   um projeto de nação que se circunscreva a lutar contra o imperialismo e a defender   um modelo de desenvolvimento internacionalmente competitivo calcado na soberania nacional.  Claro que tais dimensões são básicas para um projeto nacional, mas não suficientes para sair de economicismos, superar vícios neocoloniais baseados na noção de superioridade de um grupo étnico racial e que não de conta que o patriarcado vai além da relação homem e mulher, mas legitima também autoritarismos, a aceitação do princípio de propriedade privada das pessoas, no caso das mulheres, em especial as tidas como subalternas como as escravas ontem e hoje as mulheres negras, mas não só essas. O patriarcado colabora para que se minimize a importância da reprodução de seres humanos e de serviços de sustentabilidade cotidiana, como os trabalhos domésticos para o mercado, para a reprodução do capital e não ao azar aquela reprodução tida como não econômica é desempenhada comumente por mulheres. O patriarcado legitima formações pseudo democráticos, ou de democracia burguesa e tipos de famílias, como a baseada na heteronormatividade O patriarcado entendido como poder do pai, da lei e do marido fundamenta regimes jurídicos, de governança, no público e no privado baseados em desigualdades sociais e em autoritarismos.

*PhD em Sociologia; bolsista CNPq; pesquisadora da FLACSO-Brasil. Membro da Secretaria de Formação-PCdoB-BA